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"A violência conduz à violência", palavras de Bento XVI

Vivemos tempos de guerras regionais, como se estivéssemos em época medieval!

As palavras do papa Bento XVI, que servem à introdução deste escrito, têm sido pronunciadas conforme os procedimentos de violência que se vão registando entre várias classificações. Vem a propósito recordar o algarvio José Joaquim de Sousa Reis, nascido em Estombar (Lagoa), 19/11/1796; educado no Seminário de Faro, vivendo uma vida pacata em Messines, onde casa em 1818 (com a rica proprietária Maria Clara Machado de Basto), usufruindo do cargo de Juiz de Vintena da Mitra (cobrador de impostos). D. Miguel, usurpando o trono do reino de Portugal e em desobediência à Carta Constitucional, que havia jurado, assume-se rei absolutista, ao que leva o reino a uma feroz guerra civil. Sousa Reis que ensaiara a política no oportunismo do liberalismo, guina, pela sua maior opção, a defender D. Miguel a rei absoluto. Portugal fica entre opostos políticos: D. Pedro apoia a política dos poderes distribuídos do liberalismo e eleitos por sufrágio, enquanto ao rei ficava reservado o poder executivo, conforme defendido pela carta constitucional, ou o absolutismo do seu irmão, D. Miguel. No apoio recebido, José Joaquim de Sousa Reis, em 1828 é nomeado alferes de ordenações de São Bartolomeu de Messines. Não tarda, é convidado a integrar o Batalhão de Voluntários Realistas. A 23 de Julho de 1833, passa a designar-se como capitão comandante das guerrilhas do Barlavento. Ficou para a história, nacional, em duas classificações: de herói, quando a 24 de Abril de 1834, inflige uma pesada derrota às tropas liberais, junto à ermida de Sant’Ana, na serra de Messines e de terrorista, quando, e após o tratado de "Évora Monte", que D. Miguel assina, terminando a guerra civil, e o rei vencido, partindo para Nápoles, onde iria viver uma vida principesca à custa do erário público e logo renegando a Convenção de Évora Monte, que havia assinado. Há que recordar o quanto custou a guerra civil, em Portugal: os oficiais e tropas estrangeiras a servir os dois lados opositores, em que o almirante das armadas portuguesa e inglesa, Charles Napier, foi o grande vencedor da causa liberal, quando a 5 de Julho de 1833, trava a célebre batalha naval do Cabo de S. Vicente, em que os dois navios baptizados de "Rainha de Portugal", comandados, respectivamente pelo inglês Napier e o português, capitão de fragata, Manuel António Barreiros se confrontaram, saindo a esquadra do liberalismo triunfante, com a morte do capitão António Barreiros. Com o absolutismo afundando, o inglês Napier triunfante, recebendo o título de conde de S. Vicente. Ficando na histórica como a batalha naval das duas Rainhas.

O Remexido, como José Joaquim de Sousa Reis passou à alcunha, não respeita o acordo assinado entre as partes, não comparece perante as autoridades, continuando em actos de fora de lei, ao serviço do rei exilado, considerados para as autoridades e governo da rainha D. Maria II, de terrorista, assolando, assassinando, incendiando povoações, como Messines, Albufeira, entre outras.

Para muitos, ainda hoje, o fora de lei que iniciou, por Portugal, o terrorismo em grande escala, é conhecido e admirado como um homem coerente e fiel aos seus princípios, tanto quanto, nos dias de hoje, o terrorista Ben Laden o é pelo Paquistão e noutras partes do mundo árabe. Não vamos colocar os números em comparação de crimes, nunca o deixando de ser. Se as torres de Nova Iorque arderam, sacrificando inocentes, Albufeira, por exemplo, teve o mesmo fim. Sendo deplorável.

Hoje, 1 de junho de 2011, leio a entrevista que o embaixador da Sérvia, Dusko Lapandic, nos oferece à leitura: Acreditamos que a justiça deve ser igual para todos e que todos os graves crimes de guerra e de violação dos direitos humanos cometidos devem ser investigados e julgados, pelo Tribunal Penal Internacional (TPI), de Haia. Podemos ou devemos entender que o embaixador quando afirma "justiça deve ser igual para todos", não estará a enviar recados de imparcialidade? O TPI, foi criado para condenar os políticos do mosaico da antiga Jugoslávia ou Eslavos do Sul, criado a partir, do século XIX. Estado organizado após a primeira guerra mundial, em que se incorporaram a Bósnia, Croácia, Dalmácia, Eslovénia, Macedónia, Montenegro e Sérvia. O tribunal que as autoridades americanas criaram para julgar os outros criminosos que eles entendem sê-lo. Sempre nessa ideologia da morte. Lembremo-nos da frase de Obama, referente à vida do líder da Al-Qaeda: Não existe qualquer dúvida de que o matámos.

Ao lembrar a execução do líder do terrorismo internacional Ben Laden, a ferocidade em ser julgado in loco, quando o deveria ser em tribunal penal… Lembro como os portugueses, de 28 de Julho de 1838, tiveram, em sentido de justiça, a oportunidade em capturar o Remexido, não o liquidando na serra de Messines e sim conduzindo-o a julgamento até Faro, onde foi interrogado e julgado a pena de morte, numa sala improvisada a tribunal, na Santa Casa da Misericórdia, em Conselho de Guerra, no dia 1 de Agosto de 1838, perante o coronel Fontoura, presidente, e um rol de testemunhas. Remexido foi condenado à morte, por fuzilamento, na madrugada de 2 de Agosto, no Campo da Trindade, no espaço das traseiras da igreja de Nossa Senhora do Pé da Cruz, em Faro. Devemos recordar como os portugueses, nos meados do século XIX, imbuídos nos valores maiores do cristianismo e dos direitos da justiça, aboliram a pena de morte, por crimes políticos, no ano de 1852, e crimes civis, em 1867. Sendo o último português. Condenado à morte, um cidadão algarvio, de Lagos, em 1846. Já no ano de 1911, faz agora um século, foi definitivamente abolida a pena de morte que restava para traições à Pátria (do foro militar). Lembramos que duas figuras da religião e da cultura: o papa Clemente IX e o escritor/poeta Victor Hugo saudaram, publicamente, o humanismo dos portugueses do século XIX. Já Santo Agostinho dava razões de apoio à abolição da pena de morte, afirmando que a vida é um bem tão grande que só Deus pode dispor dela; executada a sentença, baseada num erro, este é irreparável. Lembramos, ainda, que países como a China, Japão, E.U.A. Irão, Iraque, Arábia Saudita, entre outros, mantêm a pena de morte. No dia em que escrevemos esta memória, as agências noticiosas informam que na passada quarta-feira, dia 1 de Junho, o cidadão norte americano, Gayland Bradford, de 42 anos, foi executado, com injecção letal, pelo crime de roubo, numa mercearia, no total de 7 dólares. Foi o 20.º condenado, à pena de morte, neste ano de 2011.

Na noite de 28 de Julho de 1998, 160 anos depois dos acontecimentos, foi representada no adro da igreja de S. Bartolomeu de Messines, em estreia, a peça teatral "O Processo do Guerrilheiro", que faz parte do livro "Teatro na História do Algarve", edição do Ministério da Cultura – Faro, 2007. O Grupo de teatro do" Penedo Grande" – Messines, levou este colectivo trabalho por todo o Algarve, para além de auditórios fechados, sendo a maioria das representações ao ar livre, em adros das pequenas ermidas e igrejas, como aconteceu: Igreja paroquial e ermida Senhora da Saúde (Messines), Igreja paroquial de Estombar, Igreja da Senhora da Luz (Lagoa), Igreja paroquial de Ferragudo, Convento de S. José (Lagoa), ermida do Forte da Senhora da Encarnação, Carvoeiro, etc. Assisti à representação neste cenário atlântico e fortemente envolvente do Forte de N.S.ª da Encarnação, em início de Agosto de 2005. Centenas de pessoas lá estiveram, numa maioria estrangeira, muito interessada sobre o acontecimento histórico, que os elementos do Grupo colaboraram, nessa função didáctica teatral. Há uma voz, nesse trabalho, que se levanta e diz: "Que dia triste, este de 2 de Agosto… Maldita guerra (…) A morte deste infeliz, o Remexido, que não entendeu nada de nada e, que, teimosamente, recuou… recuou no curso da história.".

Na contra capa do livro "A Guerrilha do Remexido, os autores António do Canto Machado e António Monteiro Cardoso deixaram escrito: "A figura de José Joaquim de Sousa Reis, conhecido pela alcunha de Remexido, suscitou grande repercussão, merecendo abundantes referências jornalísticas, literárias e históricas, que primam na quase totalidade pelo seu pendor apaixonado.

Encarado por uns como herói romântico, que tudo sacrificou ao serviço da causa de D. Miguel (o Absolutismo), foi por outros considerado como chefe cruel de bandos de salteadores, que desde 1833 ensanguentaram o Algarve com as suas atrocidades".

Teodomiro Neto
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