Uma representação da Diocese do Algarve participou a semana passada nas Jornadas Nacionais de Comunicação Social, que decorreram no dia 24 de setembro no Seminário de Leiria, promovidas pelo Secretariado Nacional das Comunicações Sociais (SNCS).
O diretor do Secretariado Diocesano das Comunicações Sociais, padre Miguel Lopes Neto, o diretor do jornal Folha do Domingo, Samuel Mendonça, o responsável da Mais Algarve, António Manuel Rodrigues, foram os participantes da Diocese do Algarve no encontro que decorreu subordinado ao lema ‘Por uma gramática do encontro’ e que teve como objetivo desenhar um “mapa conjunto” para o setor na Igreja Católica em Portugal.
A jornada teve início com o debate de abertura com a participação do presidente da Comissão Episcopal das Comunicações Sociais, D. Alexandre Palma, e o jornalista João Miguel Tavares. Este defendeu que a Igreja Católica tem uma mensagem relevante a comunicar, desafiando a instituição a afastar-se de um discurso “excessivamente negativo”.

“A Igreja tem um produto incrível para comunicar”, disse numa conversa sem mediação, propondo uma mudança de “chip” e assumindo a urgência de comunicar uma Igreja feita de “pecadores” e de pessoas “frágeis”. “A mensagem é espetacular”, sublinhou João Miguel Tavares perante os participantes, lembrando a “popularidade gigantesca” da figura de Jesus mesmo fora das fronteiras eclesiais e diagnosticando que o problema institucional reside, sobretudo, em “deficiências de comunicação”. “As histórias podem ser a frase certa no momento certo”, exemplificou.
Num olhar sobre a sociedade contemporânea, que descreveu como um “mundo de gente perdida”, o convidado realçou que “as pessoas sentem profunda falta do mundo espiritual” e da sua “verticalidade”. Para chegar a estes “buscadores”, defendeu João Miguel Tavares, “a Igreja tem de ter a capacidade de se tornar sexy”, o que exige uma postura apaixonada: “Quem comunica tem de vibrar”. “Mostrem-me vidas, não me mostrem palavras”, pediu o jornalista, alertando para os perigos de um tempo focado apenas na performance.
Apesar dos obstáculos, o comentador reconheceu que se regista hoje um maior acolhimento às propostas católicas, fruto de uma “mudança decisiva” protagonizada pelo Papa Francisco.
Já D. Alexandre Palma admitiu que muita da comunicação católica continua a ser excessivamente “reativa” e limitada ao plano “informativo”. “Às vezes estamos com o paradigma de comunicação de há 30 anos”, reconheceu o bispo auxiliar de Lisboa, advertindo que a menor relevância social da mensagem na atual era de pós-Cristandade exige uma transição que supere a preocupação do “curto prazo”.
Para sair deste “labirinto” e evitar o mero “tacticismo”, o responsável católico apelou à ousadia dos comunicadores: “Precisamos de exploradores, de profetas”.
Em sintonia com o jornalista, D. Alexandre Palma sublinhou que a Igreja tem de “contar histórias reais, de gente ferida”, para chegar a um mundo de “pessoas à deriva”. “O Evangelho é a legenda do que estamos a viver hoje”, sustentou.
O presidente da Comissão Episcopal das Comunicações Sociais lembrou que a mensagem cristã exige mais do que a simples transmissão de dados: “O Evangelho não é apenas informação, é mais do que isso”. “É preciso saber jogar o jogo”, indicou D. Alexandre Palma, convidando a conhecer a lógica das redes sociais sem “ceder à instrumentalização”.
Durante a tarde, os participantes reuniram-se em grupos de trabalho, em torno de seis temas, para apontar ações a concretizar, seja a nível nacional, como a nível de cada diocese. “Organizar um secretariado diocesano”, “cuidar a comunicação institucional”, “criar conteúdos digitais”, “informar sobre a Igreja e a religião”, “comunicar nos media eclesiais” e “anunciar na missão digital” foram os temas abordados.
O grupo que trabalhou em torno da comunicação institucional que a Igreja Católica deve promover apontou a necessidade de “constituir equipas capacitadas e profissionais”, sensibilizando a hierarquia para a importância do tema, planear “pelo menos com um ano de antecedência” e antecipar “crises” e promover o trabalho em rede, sem alimentar preconceitos recíprocos, entre os media e a Igreja.
Para “informar sobre a Igreja e a religião” nos meios de comunicação social generalista, os participantes no grupo de reflexão afirmaram que o “ponto de partida é conhecer e compreender” o que faz o jornalismo, tendo presente que, nos media, há muito pouco interesse por temas da Igreja, que tem de mostrar que é relevante, esforçando-se por “por fim a preconceitos recíprocos”, entre os media e a Igreja.
O tema “criar conteúdos digitais” esteve também em análise pelos participantes na Jornadas Nacionais de Comunicação Social, que valorizaram a necessidade de ir além das notícias e apresentar a experiências positivas das comunidades crentes, chegando a todos, nomeadamente às pessoas com deficiência, com a necessidade de conteúdos específicos, e promovendo a partilha de “conteúdos e ferramentas em encontros entre secretariados diocesanos”.
Para comunicar os media eclesiais, os participantes no grupo de trabalho referiram a necessidade de reforçar os meios, materiais e humanos, a “cooperação entre instituições ligadas à Igreja” e a “maior necessidade da profissionalização e mobilização da Igreja em relação ao trabalho que é desenvolvido”. O grupo sugeriu também que sejam trabalhados “conteúdos intemporais”, contando “casos de pessoas” que possam ir além “da bolha do dia a dia”, criando “ganchos mediáticos” e aprofundando os temas.
O sexto grupo analisar as formas de anunciar na missão digital, concluindo que os conteúdos publicados devem ter o objetivo de “congregar e não afirmar”, criando comunidades que, a partir do digital, apontem para o presencial, tendo sempre presente a necessidade de formação necessária que garanta a qualidade do conteúdo, assim como da forma.
Na conclusão, o presidente da Comissão Episcopal das Comunicações Sociais afirmou que é necessário trabalhar em rede e apontou à necessidade de todos se unirem em torno da comunicação numa possível visita do Papa. “Se o Papa vier, temos de ser todos a comunicar e a comunicar bem”, afirmou D. Alexandre Palma.

O bispo auxiliar de Lisboa apontou para a necessidade de fazer com que a presença do Papa seja “ocasião de evangelização”. “Diante da montanha de desafios que temos diante de nós, temos de estar mais ou menos coordenados ou, dispersos, estamos mais fracos, estamos mais frágeis”.
O presidente da Comissão Episcopal lembrou a necessidade de criar uma agenda comunicativa coordenada entre dioceses e a Conferência Episcopal, mas tendo um “traço caraterístico” de cada região.
D. Alexandre Palma afirmou que os jornalistas e colaboradores dos media, para além de serem competentes a contar, também têm de ser “competentes a escutar”, referindo que a proposta das Jornadas Nacionais de Comunicação Social seguiu esse propósito, reunindo sugestões para um plano para os próximos três anos. “Temos de construir um plano de ação para os próximos três anos que possa ajudar a estarmos melhor do que estamos hoje”, afirmou.
com Agência Ecclesia











