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Padre Miguel Neto

A 15.ª assembleia geral ordinária do Sínodo dos Bispos, com o tema ‘Os jovens, a fé e o discernimento vocacional’, decorre até 28 de outubro. Reunidos para debater a relação dos jovens com a Igreja estão bispos de todo o mundo e representantes de organizações que trabalham com os jovens.

Das notas que têm saído dos trabalhos, percebe-se um sentimento geral de entendimento da necessidade de a Igreja acompanhar o ritmo a que os jovens vivem e pensam, num mundo marcado pela velocidade, pelo digital, pelo desprendimento e relativismo.

Há uma preocupação visível e concreta com algumas questões fundamentais: o cuidado e o envolvimento dos jovens migrantes, que tantas vezes são forçados a sair de suas casas contra vontade, que perdem tudo, incluindo as suas referências e, por vezes, até os valores, mas que a Igreja deve acolher e que deve, sobretudo, envolver, permitindo-lhes encontrar um espaço de pertença e de identidade dentro das comunidades em que se inserem.

Há igualmente um sentimento de que é necessário aumentar o protagonismo dos jovens na Igreja, um protagonismo que se traduza em ações e em confiança, pois os jovens têm coisas para dizer, para dar aos irmãos e têm de ter a possibilidade de se fazerem ouvir, mas para serem efetivamente escutados e não para que tudo o que dizem não seja visto como tendo sentido e valor. Esperam-se deste Sínodo «práticas concretas, decisões concretas e operativas», dizia à ECCLESIA D. António Augusto Azevedo, presidente da Comissão Episcopal das Vocações e Ministérios e um dos representantes da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) nesta reunião da Igreja Universal. «Penso que o desafio maior é uma mudança de mentalidade, em relação à realidade juvenil. Em relação ao mundo juvenil, uma mudança de mentalidade. Naturalmente, isso leva a uma mudança também de coração, a uma mudança de atitude e depois também a adquirir o diálogo com esta realidade, com o mundo juvenil, a assumir o diálogo como método, como processo, de modo a buscarmos juntos os caminhos», corroborava o presidente da Comissão Episcopal do Laicado e Família (CELF), D. Joaquim Mendes, o outro representante da CEP.

Neste tempo do digital – e já falei desta questão noutros textos – o testemunho é determinante. Assim o manifestou o Papa Francisco em diversas ocasiões e agora, também neste Sínodo, o tema volta a surgir com grande força. Se todos os cristãos são à partida convidados a ser missionários e testemunhas do Senhor Jesus, aos jovens esse papel assenta de modo especial, pois são eles que são, no presente, recetores privilegiados dos ensinamentos da Igreja e das comunidades, sendo preparados para melhor compreenderem a Mensagem e para a viverem. Mas são eles, também, que são convidados a ser capazes de transmitir, agora e no futuro, às novas gerações, essa mesma Mensagem. São, pois, agentes de ação e, por certo, de mudança dentro da Igreja, mas somente se forem aceites como evangelizadores, capazes de testemunhar em todos os espaços, mas sobretudo naqueles que conhecem e dominam melhor que a Igreja dos adultos, como é o caso da rede.

«Sabemos que precisam de muita ajuda no discernimento, que é o tema do nosso Sínodo, para lhes darmos conteúdos, uma formação, também para estarem nesse ambiente digital com liberdade, responsabilidade, prudência. Mas eles podem dar muito na evangelização, neste ambiente, podem ensinar-nos neste aspeto das tecnologias”, concluiu o religioso», disse à ECCLESIA o padre Valdir José de Castro, superior-geral dos Paulistas e reforçou: «É preciso que eles [jovens] se envolvam na evangelização e façam esse trabalho de evangelização por meio das redes» e que «terminado este Sínodo a Igreja possa dar passos em frente, dentro desse ambiente, junto com os jovens», pois são eles que «conhecem a gramática, a linguagem desses meios».

Nesse sentido, os países lusófonos (Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, Moçambique e Timor-Leste) propuseram, no seu grupo de trabalho, a criação de um ‘conselho’ ou ‘observatório’ mundial da juventude”. Palavras como inclusivo, solidariedade, protagonismo dos jovens, dar voz marcam as conclusões desta reunião e os textos de mais grupos de trabalho. «O Sínodo é uma oportunidade de manifestar a opção preferencial pelos jovens, traduzida em escolhas concretas e corajosas a nível paroquial, diocesano, nacional e internacional», diz-se no relatório de língua portuguesa, que está disponível em http://press.vatican.va/content/salastampa/it/bollettino/pubblico/2018/10/20/0769/01656.html#Lusitanus.

E o que esperam os jovens? E os que trabalham com eles diretamente? E as famílias? Que se avance “sem medos”, porque a Igreja precisa deste espírito novo, de esta luz que continue a brilhar sempre. Precisa de operários, porque a messe é exigente e o trabalho nunca termina. “Sem medos” e em frente, como fez o Senhor Jesus, que cortou com o tradicionalismo e com os interesses instalados. “Sem medos”, a construir lado a lado uma Igreja que é já o Reino de Deus no nosso mundo.

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