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INICIAMOS um estudo que nos irá levar ao conceito exigente em considerar a milenária cidade de Faro, lugar de variados topónimos (já para uma considerável catalogação que herda para lá de 2.000 anos), à categoria de Cidade Monumental do Algarve.

Comecemos pela entrada neoclássica da Porta Monumental que o povo chamou (continuando) em Arco da Vila, em Faro, o mais distinto e reconhecido monumento citadino, como Monumento Nacional – 16 de Junho de 1910.

Vamos ao conhecimento e à vontade de um notável bispo em reconstituir a cidade de Faro após o terramoto de 1755, acontecido a poucos anos da sua chegada à diocese do Reino do Algarve, uma igreja central em ruína, tanto quanto o burgo. Sagrado bispo na igreja das Necessidades em 26 de Abril de 1789, chega a Faro com uma renda anual de dois contos e quatrocentos mil réis para, num espaço de dez anos, reconstruir a sua catedral.

Sabemos por cronista do tempo próximo, como João Baptista da Silva Lopes, como o padre Avelar vinha carregando uma mala de vontades e, sobretudo de grande homem de cultura ganha por Roma, pela Itália. Assim sendo, logo, após a ocupação francesa pelo Algarve e sob comando a partir de Faro, se inicia um novo tempo e novos apoios com a ida de altos representantes do reino do Algarve, ao Brasil, para reconhecimento do governo constituído após a retirada do ocupante francês, em que D. Francisco Gomes de Avelar assumiu o governo temporal, inicialmente. O regente do reino, o príncipe D. João, com a corte e governo no Rio de Janeiro, apoia a igreja do Algarve em soma de ouro com que o bispo se projecta na reconstrução. Estávamos no auge do neoclassicismo arquitectónico. O bispo tendo necessidade de técnico à altura dos projectos para a cidade, chama o arquitecto italiano, natural de Bolonha, de nome Francesco Fabri para os novos traços da cidade desejada.

O movimento neoclássico inspirado na arte romana, com as descobertas arqueológicas em Herculano e Pompeia, na Itália, em meados do século XVIII, vai transformar as grandes capitais europeias, chegando até aos EUA, nessa imitação que vem dos primeiros arcos romanos, como o Arco de Tito, construído no ano 81, em Roma e os que se seguem na capital do império romano, como o Arco de Septimo Severo 202- 208 e Arco Constantino, ano 316.

Temos em Portugal, no tempo do iluminismo pombalino, o arco da rua Augusta, como toda a reforma arquitectónica da baixa iniciada em 1775, na responsabilidade dos arquitectos Machado de Castro e Eugénio Santos, sendo o Arco do Terreiro do Paço só terminado com o rei D. Luís I, em 1870. como todas as célebres portas das capitais europeias, a de Lisboa não é menos imponente que as suas congéneres, vinda no mesmo espírito do neoclássico, igualmente profano.

Em 1808, com Napoleão impulsionador do novo movimento arquitectónico, manda construir o Arco Triunfal do Carrousel, em Paris, numa imitação do Arco Constantino de Roma, da autoria de François Bosio. Em 1836 é inaugurado o célebre Arco do Triunfo, no alto dos Campos Elísios, em Paris. O Arco do Triunfo foi planeado pelo arquitecto Jean Chalgrin e decorado pelos escultores Rude, Pradier, Cortot e Etex. De realçar a figura simbólica da La Marseillaise, o símbolo maior da revolução francesa. Ainda. No ano de 1920, no arco central de Paris, foi colocada a chama em homenagem ao Soldado desconhecido; tal como se encontra em Portugal, no Mosteiro da Batalha.

Berlim tem orgulhosamente a Porta de Brandebourg, construída por Carl Langhans, tendo como modelo as formas de um templo grego, um neoclássico terminado em 1791. Este é o símbolo de Berlim (tanto que o Arco do Triunfo em Paris). A Brandebourg constitui-se por uma quadrícula que sobre-monta as cinco portas em seis colunas douradas. Os quatro cavalos (num mélange grego-romano) tiram um carro transportando a deusa Victória. O conjunto dourado foi construído pelo chaudronnier Freserich Jury, fabricante de peças estampadas em cobre, da autoria do artista plástico Johann Schadow.

FARO – O ARCO DA VILA – 1812
– Ainda neste ano de 2012, quando se completam dois séculos da construção de tão notável monumento, sentimos como foi possível, para um bispo de uma pequena cidade e diocese, mas de grande responsabilidade e notoriedade histórica, como sede das primeiras cidades diocesanas cristãs Bolonha, durante o Império romano, século 2-3, assumir tamanha responsabilidade em projecto e concretização de arquitectura classicista para a época, onde tudo se iniciava no início do século XIX, em capitais europeias de grandes poder político, financeiro e económico!?

Responsabilidade assumida, o bispo D. Francisco, como já se disse, contrata o arquitecto Francesco Fabri, vindo de Itália, Bolonha para Faro. Assim se entende a rapidez com que o movimento se introduz entre nós, com o Arco do Carroucel de Paris (1808) e o de Faro (1812), sabendo que os movimentos artísticos chegavam sempre muito mais tarde a Portugal pelas distancias e adaptação dos artistas e mecenato.

Com a vinda de Fabri, não só Faro, assim como toda a arquitectura religiosa do Algarve se impulsiona, até que a corte chame o italiano para colaborar no palácio da Ajuda, em Lisboa.

Quando entrar Vila Adentro, pare. Repare na imponência da Porta oitocentista e clássica que Fabri transformou na preexistente de origem árabe. O Arco está corrigido ao clássico europeu, sem aquela visão neo-romano ou grego. Não tem nada, absolutamente, desse profanismo de Paris, Berlim ou outras cidades em construção desse movimento classicista. A importante Porta que nos leva, a partir de então, ganha a importância de toda a memória em poderes que toda a Muralha fechou e determinou nos séculos em espaço sacro e político da antiga Ossonoba dos bispos Vicente, Itácio, Pedro, Saturnino, Agrípio, entre tantos outros. Esta é a cidade renascida, é uma autêntica Fénix…

Não deixe de olhar e admirar, a uma distância de alguns metros, todo o conjunto arquitectónico: a Porta enquadrada por duas colunas jónicas e encimado por um nicho em que se honra a estátua do padroeiro da cidade, S. Tomás de Aquino, num admirável mármore branco. Elevando o olhar, reparamos toda a estampa do conjunto arquitectónico enquadrado por outra composição dividida por quatro pilastras (colunas) rematada por um campanário com frontão triangular entre outros efeitos decorativos em pináculos, aletas e no que o olhar irá descobrindo em admiração e emoção, em que nem só o conhecimento do erudito clássica merece contemplação olhar de gente, só posso descortinar um admirável retábulo em pedras de cantaria e mármores. Esta é a Porta de todo o merecimento admirativo. É o nosso Arco da Vila que a cultura de um bispo português e o engenho de um arquitecto italiano nos legaram para o nosso pequeno orgulho citadino e de cidadão, em que discretos obreiros: artistas canteiros, pedreiros do concelho de Faro e da própria cidade deram os contributos.

Teodomiro Neto

O autor deste artigo não o escreveu ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

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