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INICIÁMOS o título em epígrafe com o monumental “Arco da Vila”, construído em 1812, e, desde 1910, classificado de Monumento Nacional. A Muralha de Faro é o nosso segundo capítulo. Nessa configuração oval, cercando o berço, baptizaram os fenícios, no princípio de todos os princípios, de osson êbá, indo nas corruptelas que os povos acharam em lhe ajeitar e aformosear nesse aforismo. Estamos por volta do século VIII aC.

A Muralha, sendo a residência, a primeira e constante dos milénios, foi criando defesas e defeitos à medida dos tempos das ocupações, dos poderes. E ela aí está com restos de todos os princípios e com todos os defeitos, também de apreciações: tanto é fenícia, romana ou tardo-romana, ou Árabe. De certo a muralha é o registo de todas as mudanças que os tempos exigiram para as suas defesas, ou destruídas para as suas conquistas. Hoje, escrevemos, no início da segunda década do século XXI: a muralha está maltratada, mal estimada entre tantas maleitas que se lhe podem acrescentar. Mas vamos revivendo pelo bem falar e considerar o que a muralha representa para a Cidade Monumental que se lhe deseja.

Com o tempo de dominação bizantina, século VI d.C., lá vêm as chamadas Torres Bizantinas (que ainda se conservam), na sempre muralha romana. Temos o Castelo de Vila Adentro que se afirma construído no século IX, era o tempo dos Beckr, o chamado tempo dos Árabes, em que o Castelo se situava no espaço da chamada “Fábrica da Cerveja”, em tempos modernos, na que fora a Alcáçova dos tempos das Taifas, as cidades Estado dos séculos XI e XII, nos seus apogeus. Muito se vai construindo, renovando, enriquecendo a Muralha com os senhores que a vão conquistando e sucedendo.

Estamos em pleno século XI, novos senhores, o governo de Said Ibn Harun. O topónimo de Santa Maria de Ossonoba muda para Santa Maria Ibn Harun. Estamos numa dessas Taifas, cidade-Estado. É uma cidade culta, onde a poesia aliada à filosofia se desenvolve entre Silves e Sevilha. Esta é a cidade do célebre filólogo Al-Alam de Santa Maria do Ocidente. É o tempo dos Moçarabes, devotos ao cristianismo. Estamos no reino da segunda Taifa, século XII. A antiga cidade de Santa Maria é uma cidade em trânsito político religioso em que se conhece a devota Santa Maria dos moçárabes e toda a lenda que o rei Afonso X de Castela a memoriza nas suas célebres Cantigas, envoltas na Muralha que se transforma em altar do renascimento no século XIII em que a imagem de Santa Maria, em nicho exposto pela Muralha, nas Portas do Mar, que se canta em poética, sendo testemunha da conquista da cidade, em terrores de inocentes, em rios de sangue derramados, entre muros, pelos mercenários cruzados do norte, centro e sul da Europa. Mas ainda é tempo da mais preciosa porta, as Torres Albarrãs, a porta em cotovelo, numa inovação arquitectónica, em período Almóada a ficar para a história do nosso século XXI, nesse aforismo desejado, por justo, de Cidade Monumental. Passaram os tempos, estamos nos medievais e da conquista portuguesa (1249).

A Muralha marca o tempo. E, reparando nas gravuras do tempo, temos a Muralha com os Baluartes virados para a Ria, de apelidos cristãos, como os Baluartes Cavaleiro, S. Tiago, S. Sebastião. Vamos subir a Porta Almóada, a convite do seu proprietário, ainda em vida do arquitecto Hermínio. A célebre Porta é privada (lá chegaremos ao tempo em que o século XIX, em certa política do Liberalismo, vendeu o nosso património a pataco). No alto da Torre, senti a história, nessa evolução em que o homem se sente dominador e dominado: as versões incuriáveis. E sobre essas pedras do século XII, onde a Bandeira Portuguesa deveria estar alçada em continuidade e em comunidade, senti como somos diferentes, quase sem matriz, do mosaico geográfico cultural e político da grande Europa, uma das grandes construtoras das civilizações. Grande testemunha… a Muralha tem sido nos séculos: que desempenhou a responsabilidade de proteger, pelos tempos os avanços das guerras, com incêndios, mortos, escravatura, posses, terramotos.

Sendo nos tempos modernos, com os ingleses de 1596, com os espanhóis, em 1640 e nos anos que se seguem à total restauração. A partir de então, a Muralha ganha nova engenharia em defesa de guerra, com a construção do Revelim, o modelo italiano (Revellino), construção externa das muralhas em forma triangular, como hoje se pode ver, mas em total ruína. Mas a Muralha recuperava-se, reconstruia-se da sua própria destruição, do seu próprio corpo, as suas próprias pedras. Hoje um depósito dos esqueletos das civilizações que vêm de Ossonoba aos Povos que se sucedem. Já da Muralha se desventra uma nova porta, a meio do segundo milénio, em vontades que o tempo impõe ao comércio com o mar, a sua estrada de água, com que sempre comunicou com o mundo mais próximo, o Mediterrâneo.

Com a nova política iniciada a partir de 1820, o Liberalismo deixou a Muralha sem a responsabilidade à nossa protecção; vendeu-se ao desbarato, as suas paredes: internas e extras. Tudo se lhe encostou: ricos, remediados e pobres. A memória iniciou a derrocada. Chegados ao século XX, vem o maior disparate da República: O Diário do Governo n.º 123 ,de 30 de Junho de 1911, e na Ordem do Exército – Ministério da Guerra – n.º 14 – Primeira série, foi autorizado a permitir que esta Câmara de Faro proceda à demolição da parte dos terraplanos dos baluartes e muralhas do castelo desta cidade, necessária para a continuação dos trabalhos de construção da estrada da circunvalação.

Ainda, hoje se pode testemunhar o rombo na Muralha, a nascente de S. Francisco, ao finca-pé dos anos 20, para um qualquer argumento de apoio à falsa fábrica de cerveja. Só a força do correspondente do Diário de Notícias, à época, o jornalista Mário Lyster Franco, conseguiu que se parasse o disparate. Nos anos 30 do século XX, Abel Viana entra no interior das muralhas, segue-lhe as veias, os subterrâneos, e conta: O solo agora pisado por nossos pés não foi sempre terreno firme… Não faltam pessoas em Faro que viram a água da Ria banhar a Muralha, desde um pouco adiante do Registo até o baluarte que fica ao virar para o actual Largo de S. Francisco… O limiar da Porta Nova, em vez de achar-se ao mesmo nível do terreno extra muralha, dava para um pequeno patamar, e deste se descia ao encontro das águas da Ria (…) A construção do caminho de ferro de Faro para Olhão, (1903), deu origem ao aterro de toda esta parte, entre a muralha e o cais de suporte da via-férrea.(1)

Hoje, dentro da Muralha, a cidadela de característica única no Algarve, mantém os valores que sempre a caracterizaram: Catedral, Câmara Municipal, sede Episcopal, Polícia Judiciária, Museu, Galerias, Tavernas e cafés, livraria, Associações, Tipografia a construir um século, casas seculares e senhoriais, dois palácios: episcopal e conde de Santa Maria e, entre todos os valores, a envelhecida população de algumas dezenas de moradores.

Do alto desta milenária Muralha, um dos maiores patrimónios da cidade, vai uma exigência ao Presidente da ERTA, António Pina: Não tenha problemas com a Caravela que nos pertence. A Ria, a Doca em frente da Muralha tem um lugar cativo para a nossa Caravela. Nem o senhor da ERTA sabe como esse acto lhe seria louvável ao futuro.

Próximo n.º a Sé Catedral.

1) Abel Viana in “O Algarve” 13/8/1939


Teodomiro Neto

O autor deste artigo não o escreveu ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

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