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Vamos entrar na Sé Catedral de Faro. A ogiva moçárabe deixou a descoberto as ombreiras da porta romana. A um e outro lado da ogiva ressaltam ainda duas faixas verticais de pedra cinzenta da moldura da porta primitiva. É o que me afiança o respeitável historiador José Cabrita, parecendo ouvi-lo, na sua voz miudinha e apreciável, quando, no silêncio da meia manhã, inicio o escadório (numa dezena de degraus), que me leva à admiração do monumento.

Reconheço que esta igreja de Faro nada tem a ver com as visitadas Sés Catedrais de Braga, Lisboa ou Évora, que havia visitado e estudado em 1987. A Catedral de Faro não tem os artífices das épocas que Braga transmite em misticismo ou na violência social dos senhores para obreiros. Em cada um desses monumentos se reconhece a glória do empreendimento e a colaboração das camadas sociais nas edificações desses programas icnográficos: arquitectura e imaginária que representam, em síntese, os poderes espiritual e temporal dos últimos séculos, em que os homens do risco, os pedreiros, em suma, os artífices, essa força artística silenciosa de todos os contributos.

Faro tem a sua Catedral da Luz natural. Deus é Luz, assim me dizia minha Mãe, nessa admiração e nessa alegria contemplativa em orar, em gostar de estar. No escutar em silêncios… e em claridade, na minha inocência, vendo-a nesse gostar de estar!

Sabemos que todas as catástrofes passaram por esta Catedral. Que as suas pedras são páginas da história de muitos séculos. E em continuidade!

Já havíamos feito um reconhecimento do interior da Sé Catedral de Faro, na “Folha do Domingo”, em números escritos e publicados que vão do 7/02/2003 a 4/07/2003, ou seja, em doze títulos. A 7/02/2003 registávamos: A Catedral de Santa Maria é uma visão de culturas em qualquer dos ângulos que a praça ofereça. E tem no seu conjunto exterior-interior o mistério dos séculos. É, sem dúvida, uma contemplação. E, entrando no templo, sentimos, ao invés dos demais (Braga, Lisboa, Évora) o convite pela natural e plural exposição que os artistas plásticos conceberam aos retábulos, na imaginária, na pintura A capela de Nossa Senhora do Rosário, num barroco iluminado em clarabóia numa claridade muito pura donde ressalta, de um fundo vermelho, um mundo ecológico de muitas composições. Pelas paredes ganhamos a vontade em seguir a fuga da santa família pelo Egipto, na banda desenhada (azulejos holandeses branco e azul, agora recuperados), da autoria de Gabriel del Barco. Na posição em que a estatuária dos dois negros se colocam nas suas nudez drapejada nos quadris, admirável escultura! São esses os negros escravos que nos chegaram desde o século XV à cidade de Faro, dando continuidade em misturas de sangue. A capela do Rosário foi a sua confraria em apoio.

Passamos em visita, capela das Almas (28/02/2003) É uma capela atribuída ao artista natural de Faro, Manuel Martins (1667-1742). Não sei se o nosso escultor viu a Crucificação que Antoon Van Dick executou, em 1628, para a confraria de Santa Cruz, na paróquia de Saint- Michel, em Grand – Bélgica, que se pode admirar na citada igreja. O Crucificado de Van Dick foi terminado 39 anos antes do mestre farense nascer. O mais notável escultor algarvio tem na Sé Catedral de Faro, na Capela das Alma, o Crucificado que me prende à maior contemplação e admiração, que Von Dick não me comunicou…

Vamos ao n.º de 7/03/2003. À pureza das duas capelas moçárabes, uma dedicada a Nossa Senhora da Conceição, em que se expõe a mais antiga imagem de Faro (em vários critérios de antiguidade) iluminada por um vitral de séculos (joanino). Os olhos de Nossa Senhora brilham que de vivos parecem, desde que no século XVII lhe colocaram um olhar cristalino. Tem uma expressão particular das demais imagens do século XV. Há formas autónomas, como as há de importação e de contacto. Esta imagem de Faro permite englobá-la nessas manifestações quinhentistas ou mais recuadas, no conceito das artes do flamengo ou borgonhês. São visíveis, na imagem, traços de arte clássica, numa majestade e serenidade do rosto, no envolvimento do manto, no aprumo e nas calenuras da túnica.

A outra capela, à sua semelhança e que fica de frente, já teve vários patronos: foi de Santo António de Lisboa, depois S. Domingos. Desde 1960, quando o académico Alberto Iria veio a Faro, no dia 4 de Março desse ano, afirmando encontrar-se, na citada capela, escondido, o túmulo do todo poderoso cavaleiro Rui Valente, da casa do Infante D. Henrique, (século XV). No início deste novo milénio o túmulo em tamanho natural de pedra, enfeitado de rosáceas góticas, à semelhança de Montmajour (gótico final) Mas Valente, por economia contrária ao testamento, só ganhou a estátua jacente em gesso. Hoje remendada.

A “Folha do Domingo” de 4/04/2003 mostra-nos a Porta Gótica agora descoberta na Sé Catedral de Faro. É mais um elemento patrimonial a enriquecer o Monumento. Com a introdução dos godos da Alemanha Oriental a introduzirem essa nova arte pela Europa, sendo Sevilha a cidade mais próxima de Faro a introduzir dessa nova arte na Catedral de Faro. Já a França se mostrava na sua capital, na famosa “Ile de France”, onde se ergue a Catedral de Notre Dame, desde o século XII.

A 11/04/2003 lembrámos a Capela da Senhora dos Prazeres. Ninguém fica indiferente ao efeito iconográfico dessa surpreendente capela. A imagem centra-se num baldaquim, um pálio sustentado por quatro anjos atlantes, calçados de sandálias e vestes clássicas greco-romanas, meia perna desnudada. Outros anjos fazem uma guarda de honra a N. S.ª Senhora. Do centro da capela forma-se o baldaquino, num conjunto processional. Nossa Senhora dos Prazeres parece sair da capela em perfeito movimento pelo drapejar dos adornos, pelos anjos esvoaçantes que acompanham o cortejo. Pelos laterais da capela há um mundo novo em elementos desconhecidos da Europa, o centro do mundo: animais jamais vistos, aves de raras plumagens, flora e frutos bizarros: A criação de Deus! Os novos mundos: um “Paradisae Rudolphi”. E erguendo o olhar, o tecto, entramos no cosmo: não o azul, vermelho ou amarelo… Mas branco, puro… E único, porque desigual. É uma manifestação do génio barroco algarvio.

Paremos em volta inteira, na Capela do Santíssimo. Admiremo-la: É uma capela do bispo Francisco Barreto II. De muitos olhares, muita apreciação e respeito. O fantástico Arco do Trono nos seus três andares com balustradas todo forrado a carmim. Toda a sala rectangular nos prende pelo conjunto artístico dos seus ornatos, grande descrição da flora regional, frutos ignotos, tentam tantos anjos que coabitam entre águias e golfinhos, sob os olhares sages dos apóstolos… Esculturas seiscentistas do pleno renascimento tardio regional. As minhas apreciações não cabem neste número para esta magnífica capela. Deixo-as para a responsabilidade do professor da Universidade de Letras de Lisboa, Vitor Serrão: “A capela do S. Sacramento de Faro passou a poder ser vista como uma espécie de pinocoteca de luxo da Sé de Faro (…) A decoração da Sé Catedral de Santa Maria de Faro é, naturalmente, reflexo das circunstâncias históricas, sociais e política vividas na província do Algarve ao longo dos séculos.”

Não podemos ignorar a capela-mor da Sé Catedral de Faro! A capela que mereceu todas as atenções dos bispos eleitos. Todas essas personalidades deram contributos que se foram alterando pelos tempos e nos constantes movimentos de arte. No n.º de 20/06/2003 está escrito: Até hoje, o templo conserva a carga dos séculos. Alguns traços originais da sua arquitectura, num “mélange” harmonioso na finura da azulejaria, na luminosidade natural em que a claridade entra inesperada e naturalmente. Capela sempre receptiva às correntes artísticas que, por aqui, todas passaram, numa adaptação às raízes de cultura local/regional.

P.S. Foram publicados 12 números sobre o tema “Capelas da Sé Catedral de Faro”, de Fevereiro/2003 a Julho do mesmo ano, e que podem ser consultados na “Folha do Domingo”, em “ Cumplicidades”.

O próximo n.º será dedicado ao azulejo e Paço Episcopal.

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