Pub

VAMOS visitar o convento de N.ª Senhora da Assunção terminado a meio do século XVI, iniciado pela viúva do rei D. João II, D. Leonor, primeira donatária da ainda vila de Faro (15/04/1491) e terminado pela rainha D. Catarina, mulher de D. João III (1541). Durante o século XVI, Portugal é marcado por uma profunda reforma administrativa pública, tanto no referente ao poder central, como na organização do poder concelhio.

Consultando o título, Tratado da Prática Dorismetyca Ordenado por Gaspar Nicolás, publicado em 1519, um dos livros de maior significado na cultura e no ensino científico do século XVI em Portugal, notamos que se institui novo critério duma nova ciência como fundamento teórico da estruturação dos modelos mentais do homem moderno e, por oposição, como um marco na ruptura do pensamento escolástico medieval(1).

Essa nova formação dos modelos e estruturas urbanas chega a Faro na construção do mais importante edifício construído de raiz, no século XVI, em concordância do modelo/corrente renascentista europeu, mas que se define numa cultura portuguesa estritamente ligada aos descobrimentos, que é o caso de Portugal(2). Rebuscámos pareceres vários, desde os anos 1573, na visita do rei D. Sebastião a Faro, numa crónica de João Cascão. Atravessámos os séculos até aos séculos XIX e XX, em que a investigação é mais, cientificamente, tratada. As opiniões são muito respeitadas e comuns à beleza do monumento renascentista, o mais distinto do Algarve.

Mas também opiniões diversas, e muito interessantes, desde o historiador farense, Pinheiro e Rosa, no seu trabalho “O mais representativo Monumento da cidade de Faro” – 1978. Nessa continuidade, José Eduardo Horta Correia, em “A Arquitectura Religiosa do Algarve de 1520 a 1600”, tese de doutoramento apresentada na U.N. L. – 1985. João Alberto de Carvalho Marques, completa, fim século XX, “O Convento de Nossa Senhora da Assunção em Faro”, tese de Mestrado apresentada no I.H. F. L. L. – 1991. Para Pinheiro e Rosa a titular do convento de Faro seria a rainha D. Leonor, mulher de D. Manuel; para Horta Correia há a dúvida para a Leonor viúva de D. João II. Já para Carvalho Marques, o convento de Faro iniciou-se em vida da viúva de D. João II, sendo finalizado por D. Catarina, mulher de D. João III. Quando D. Sebastião visita Faro, em Janeiro (30/31) de 1573, temos a primeira apreciação do mosteiro de N.ª S.ª da Assunção.

Deixou o cronista João Cascão, da comitiva real a informação: Sexta-feira, 30 de Janeiro. A meia légua da cidade estava Rui Barreto, alcaide-mor com 80 de cavalo, muito bem concertados, à entrada do arrabalde de Faro, pegando à igreja de S. Pedro. A cidade fez a gala a el-rei, que se segue: Muito alto e poderoso Senhor Nosso. A cidade da rainha Vossa Avó (D. Catarina) dá infinitas graças a Vossa Alteza. (…) Sábado 31. El-rei acabada a missa, e recusando o convite que os vereadores lhe fizeram para que ficasse por tempo mais alongado, o que o rei se escusou, foi ver o mosteiro das freiras que achou muito formoso(3). Pouco depois,1577, a apreciação de Frei João de S. José, que deixou escrito ser o Mosteiro de grande formosura(4).

Passemos ao século XX em que os estudos se tornam mais rebuscados pela ciência histórica da arquitectura. Pinheiro e Rosa, em 1978, procura escrever, não só em louvor ao “Mais representativo monumento da Cidade”, vindo pelos tempos mostrar quanto de incorrecto foi o tempo e foram os homens para com o mais notável monumento renascentista construído no Algarve, na cidade de Faro (…) 1596, vindo os ingleses nessa fúria da guerra das religiões, incendiar a cidade, ficando, entre outros edifícios, a primeira ofensa ao mosteiro (…) Em pleno século XIX, o liberalismo, em decreto de 9 de Agosto de 1833, manda encerrar os conventos. Vende-se a casa das freiras em 1860, que logo é revendida aos ricos judeus residentes em Faro, para fábrica de cortiça, entre outros malefícios, sofrendo três incêndios, de destruição, em destruição, até que chegue o século XX (1960), e a Câmara Municipal de Faro recupere o convento para a cidade(5).

O catedrático José Eduardo Horta Correia, em 1987, em tese de doutoramento, defende: Faro, cidade da Casa da Rainha, uma obra com origem na Corte foi efectivamente concretizada: o mosteiro da N.ª S.ª da Assunção, que D. Leonor (mulher de D. Manuel I?) fundara mas deixara em estado incipiente e que sua sucessora D. Catarina (mulher de D. João III) tomou como obra sua(…). A cronologia da construção, para além de 1527, provável ano do início da companha. 1539 é a data registada em cartela na porta exterior da igreja, e sabe-se que em 1542 Afonso Pires era mestre das suas obras, tendo mesmo enviado à Rainha um pedreiro com o debuxo e informações das obras, como reza o documento já publicado por Viterbo(6).

O estudo de mestrado de João Alberto de Carvalho Marques: “Convento de Nossa Senhora da Assunção em Faro” merece a nossa atenção, tal como os apresentados, e neles encontramos similitudes ou contrastes em que procuramos as certezas, nesses cruzamentos de valores. Horta Correia não deixa de reconhecer que o camareiro coroado sobre a porta da igreja, denúncia heráldica da origem das freiras que, da Madre de Deus vieram povoar o convento, ou fundadora, porventura, a rainha D. Leonor, mulher de D. João II. Certamente! Carvalho Marques, nesse diapasão, recorrendo ao escasso tempo que a última Leonor do rei D. Manuel pouco tempo ficou pelo reino de Portugal para se empenhar em construir no longínquo reino do Algarve, fosse o que fosse. Este resumo do mestrado apresentado no Instituto de História de Arte, na Faculdade de Letras de Lisboa(7), abre-se a novas oportunidades de reflexão sobre a arte do renascimento em Faro, com a construção do convento preparado para a elevação de vila a cidade, e receber a diocese de Silves para se nomear de Diocese do Algarve, em Faro.

O texto de Carvalho Marques sobre todo o conjunto do monumento é de uma construção rigorosa, que convidamos o leitor interessado ao estudo, onde ficámos conhecedores que o convento se construiu no espaço da Judiaria de Faro. Quiçá, onde o tipografo Samuel Gacon produziu o Pentateuco, primeiro livro impresso em Portugal, em 1487. Sobre a Portaria, tal como Horta Correia, Carvalho Marques vem reconstruindo, por palavras, esse fantástico Camaroeiro, divisa da viúva de D. João II, onde o Pelicano se ajusta à dor dos sofrimentos plurais. Não deixa em vão, tanto quanto Pinheiro e Rosa, sobre o vandalismo aos azulejos do século XVII que ornamentavam as paredes da igreja, no tempo profano de fábricas de cortiça e cordas, séculos XIX-XX. Resta-nos o importante testemunho do primeiro mélange entre o gótico e o renascimento crescente no Convento de Faro. Já no fim do século XX, (20/03/1984), o convento serviu para a sessão solene de Abertura do Primeiro ano lectivo da Universidade do Algarve. D. Ernesto, bispo do Algarve e Ramalho Eanes Presidente da República, presidiram à sessão solene(8). Ainda, em Julho de 1996, a Casa das Capuchos serviu como residência oficial ao Presidente Jorge Sampaio para presidir, despachar, receber, em presidência aberta, durante a sua estadia, na capital do antigo reino do Algarve(9).

Eis, concisamente, o que cabe, em historial, na Folha do Domingo, sobre o notável monumento renascentista no espaço mais nobre da cidade de Faro, que é Vila Adentro.

P.S. Que as autoridades responsáveis possam proteger a moldura da porta, revestindo-a, protegendo-a.

O autor deste artigo não o escreveu ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

1)" Lisboa Manuelina" – Helder Carita, Livros Horizonte – Lisboa – 1991
2)"À la Recherche de la Spécificité de la Renaissance Portugaise" Paris 1963 – Barradas de Carvalho.
3) "Jornada ao Alentejo e Algarve" – João Cascão – 1573.
4) "Corografia do Reino do Algarve" 1577.
5) "O mais representativo Monumento da cidade de Faro" – 1978 Pinheiro e Rosa.
6) "Arquitectura Religiosa do Algarve – 1520 -1600 – Horta Correia – 1987. 7) "Convento de Nossa Senhora da Assunção em Faro" 1991 – José Alberto Carvalho Marques – Lisboa – 1991.
8) "Dossier Universidade do Algarve" – Edição J.A. – 2000 – T. Neto.
9) "Faro no Verbo Amar" – Edição 1998 – T. Neto.

Pub