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EM 1992, fiz a minha primeira entrada no Paço Episcopal para uma entrevista ao bispo D. Manuel Madureira Dias (1). Em 1997, de novo, entro no Paço, para filmagens sobre a juventude de João de Deus (2), enquanto seminarista. Outras visitas se seguiram à residência dos Bispos do Algarve, em visitas a Exposições ocasionais.

O edifício tem data incerta na sua construção. Consultando a “Corografia do Reino do Algarve”- ano 1577, do Frei João de S. José, da Ordem dos Eremitas de S. Agostinho – Tavira, lembra “Faro é uma cidade marítima, moderna. É a 3.ª cidade. Fê-la el-Rei D. João o 3.º cidade. Em tempo do bispo D. Manuel de Sousa, que foi o primeiro e que mais força pôs na mudança da igreja catedral para esta terra, que foi na Semana Santa de 1577” Podemos considerar, pelos testemunhos prováveis, que 1577 ainda não era o tempo da construção do chamado palácio dos Bispos. Sim o ano da transferência da diocese de Silves para Faro, em sexta feira Santa, 20 de Março/1577.

A “História do Reino do Algarve”, do licenciado Henrique Fernandes Sarrão, advogado da corte, e dirigida ao Governador D. Manuel de Lencastre, 1607. Já nesta descrição cita a existência de um colégio de padres da Companhia de Jesus, em Faro, e que com a mudança da diocese de Silves para o centro do reino, onde faz menção “que houve sempre muita diferença entre Silves e Faro, o qual, por residirem nele o Bispo e Cabido, ficou mais nobre. Eis a indicação que Sarrão nos dá em início do século XVII. Já na ocupação filipina, em Portugal. Em 1841, Baptista Lopes, na sua “Corografia do Reino do Algarve”, avisa, para todo o futuro, que o Paço Episcopal foi iniciado pelo bispo D. Afonso Castelo Branco em finais do século XVI (1581/85). E assim fica dito para o estudo, sobre o sujeito, a partir de então. Senão vejamos: Em 1984, in “Monumentos e Edifícios Notáveis do Concelho de Faro”, de Pinheiro e Rosa. Edição da C.M.F, o saudoso académico, sendo conhecedor do espaço, faz um estudo pormenorizado. Seguindo-se, numa edição da RTA – 1987,” de Tomás Ribas (o
primeiro Delegado Regional de Cultura no Algarve), no seu estudo: “Guia Turístico de Faro”. Em 2003, edição AJEA, novo título, “Histórias à Solta nas Ruas de Faro”, de Libertário Viegas que confirma a tese em mesma data de construção. Tal como Francisco Lameira, em várias publicações: “Faro – Edifícações Notáveis”, edição CMF-1997, ainda “O Retábulo no Algarve”, edição de várias entidades oficiais – 2007, etc. Sendo o trabalho do historiador Pinheiro e Rosa o mais fecundo e elaborado, dos seus pares, sobre o espaço nobre da residência oficial dos Bispos do Algarve, com data (quase afirmativa) de construção: 1581/1585, onde uma placa colocada na entrada do edifício, se confirma.

Antes de entrarmos na residência episcopal reparemos na implantação, ou seja, no Largo da Sé, essa magnífica praça religiosa, desde sempre assim conhecida, com algumas vontades políticas na sua toponímia. Em fins do século XIX (1897), por ocasião da visita do casal real, D. Carlos e D. Amélia a Faro, as autoridades da cidade acharam dar-lhe novo baptismo em fim de monarquia: Praça D. Carlos. Retirado com a república, início do século XX (1910), passa a Praça Almirante Cândido dos Reis. Iria retomar o seu natural topónimo, anos mais tarde. Naturalmente! Tem o Largo a Sé (que lhe dá o nome), a Sé Catedral, o Palácio dos Bispos, o Seminário de S. José, formando um magnífico rectângulo histórico vigiado pela estátua do Bispo D. Francisco Gomes de Avelar (14/06/1940), sendo o mecenas mais reconhecido na reconstrução da cidade, após do terramoto de 1755, numa descrição de Moreira Baptista (1758), que escreveu: “Em a cidade de Faro, capital daquelle Reyno cahiu, no terramoto de 1755,a Igreja Catedral, e o Palácio Episcopal”. Por lembrarmo-nos das tragédias naturais ou causadas pelos humanos, grandes estragos sofreram os monumentos citadinos, mais religiosos, desde a invasão inglesa, de 1596 (início do período da ocupação do Filipe 1.º), em roubos, massacres, incêndios violências plurais aos espaços de culto e habitantes.

Mas passemos à admiração do imóvel em visita: considerado de estilo Chã (não deixa de ser uma jóia admirável no seu interior). Lá chegaremos. O edifício de dois pisos, mostra-se com 13 janelas, 12 de sacadas e uma de peitoril sobre uma porta ampla. É o edifício de maior dimensão construído em Vila Adentro. Visto do Largo tem vários telhados (que se contam 7) em tesouro e que lhe dão a mais admirável visão de todos os telhados da inspiração, que os artífices viajantes do tempo das Navegações impuseram, mais por Faro e Tavira, o modelo quinhentista, adaptado, tudo nos leva a considerar, no século XVIII. O nobre edifício ocupa todo o quarteirão, surgindo como um dos mais relevantes da Arquitectura Chã no Algarve. É assim, nessa característica, que todos os seus cronistas descrevem o Paço dos Bispos. Vamos subir a meia dezena de degraus que nos leva à larga porta do Paço, em que os ornatos de cantaria têm a marca dos mestres canteiros do concelho, num rassemblement, sobre o lintel, de efeito de espécie marinha, em arte singela. Agora, transposta a entrada, a Jóia deste edifício de arquitectura chã, mostra-se em riqueza admirável, em que o nobre edifício é reconstruído no século XVIII pelo bispo D. Frei Lourenço de Santa Maria.

Agora, sim! Vem o deslumbramento: Encontramo-nos no pátio abobadado; os mármores são a pedra preciosa que os nossos olhos nos levam pelos escadórios. Vamos gastando o olhar no mármore carmim de encontro aos muros colossais que se mostram. Duas arcadas assentes em colunas jónicas abrem-se para os écrans revestidos de lambris em que se espelham, numa montagem moderna, em amplos painéis de azulejos recortados no remate, onde não há dimensões aritméticas. Estamos no patamar central da escadaria. A visão torna-se estonteante pelo cromatismo exposto com alegoria às Virtudes, centrada na Fé, ladeada pela Prudência e Esperança, cobertas por um baldaquino em forma de coroa. O historiador em arte do azulejo, José Meco ficou “pasmado” ao visitar e estudar este rico e admirável conjunto de painéis, onde dominam os tons de azul derivados, assim como os amarelos em tons matizados, sobrepostos no alvo. José Meco vem em palavras muito especiais, para este conjunto de azulejos no Paço Episcopal de Faro: Reconstruído após o terramoto de 1755, encontra-se um conjunto de azulejos que não é só o mais bem realizado por Domingos de Almeida, como também um dos mais extraordinários de toda a azulejaria rococó. A fantasia estonteante e a proliferação dos motivos decorativos derivado de gravuras ornamentais de Augsburgo, a utilização de cores rutilantes, como os amarelos de antimónio, a multiplicação de elementos heráldicos e de símbolos do bispado e papais são extraordinários na sua delirante e intensa fantasia.

O Paço Episcopal, que vem em construção, destruições e reconstruções, desde o fim do século XVI, é um símbolo arquitectónico dos tempos. Só com os impostos que a Igreja cobrava no seu dízimo, retirados a meados do século XIX, os Bispos tiveram a oportunidade desse futuro monumental para a cidade. Com o Seminário contíguo, construção 1787/89, irá abrigar o ensino regional, sendo aproveitado como primeiro Liceu do Algarve, implantado em 3 de Março de 1851, por decreto da rainha D. Maria II, onde se manteve até 1908. Conserva o Paço uma galeria dos Bispos do Algarve, assim como admiráveis pinturas dos Apóstolos Pedro e Paulo, da autoria do pintor italiano Marcello Leopardi. A Biblioteca em si, como estante, é uma arte a conhecer. A imaginária completa os salões por onde têm passado visitantes, desde o casal real D. Carlos e D. Amélia ou, mais recentemente o Secretário Geral da UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura, senhor Koichiro Matsuura, nessas palavras sábias: “Cidade Renascentista, onde o barroco foi mestre. Cidade de importantes humanistas e cultos bispos, onde a responsabilidade social nunca esteve separada deles.”

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