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Mensagem Adiada:
“Não sabíamos que a ordem nas ruas,
que as estradas, as pontes e as esquadras
tinham de ser compradas por tão alto preço –
o da venda a retalho da alma portuguesa.”

Fernando Pessoa
Carta aos políticos de Portugal – 1935

NESTA primeira década do século XXI, os povos, mais da periferia europeia, têm passado pelas circunstâncias inesperadas e no pior sentido político, dos poderes financeiro e económico das chamadas políticas de crise dos banqueiros. A tal ponto que as pessoas passaram a ser contadas como 0,0 no conceito social e de responsabilidade, tanto para os que produzem riqueza, que são os que trabalham, como para os grupos etários mais desprotegidos do Estado e dos grupos patronais no topo de riquezas incertas. Ainda nos desleixo aos desprotegidos: velhos e crianças.

A sociedade está em ruína acelerada. Os senhores que nos prometem tudo na terra pela troca do poder, que vem do voto, nada cumprem, usurpam, ameaçam, perdem toda a ética que a democracia merece, destruindo os valores da Domus pro pátria.

Vem a Igreja, pela voz dos seus bispos, anunciando os tempos ruins em que nos colocam como cidadãos, construtores que somos desta Pátria: o Povo, o cidadão comum, que não destruiu a classe de banqueiros (pelo contrário), que o castigam sem trabalho, sem nenhum, ou quase, apoio à sobrevivência; que espremem os mesmos do costume em impostos insuportáveis, sendo delapidados na maioria dos direitos constitucionais… Enfim, vêm as palavras dos bispos Carlos Azevedo (Lisboa), Manuel Linda (Braga), Manuel Clemente (Porto), entre outros. E as palavras de D. Carlos Azevedo dão para os restantes prelados, assim: Nós – sacerdotes – andamos muito entretidos com a liturgia, muito voltados para o culto, para um certo espiritualismo (…) mas penso que as nossas celebrações cristãs precisam de ser mais políticas. Precisam de implicar a questão da justiça, do bem comum, da realidade concreta da vida das pessoas, da solidariedade.

Nada de “subversão” se pretende justificar na posição “política” que o(s) bispo(s) auxiliar de Lisboa atira às consciências dos praticantes. Não! São palavras que Cristo nunca rejeitou nos tempos das incertezas, na agudeza dos momentos, na oportunidade de ter voz de Pastor.

A foto que ilustra estas “Cumplicidades” vem do tempo (1935), quando o estado social cheirava demasiado a uma caridade abominável. E tudo se prepara (politicamente) para que assim se recupere esse estado, entre a assistência e a repressão.

Não devemos considerar que o esforço da Igreja, das Instituições, ou dos Grupos Sociais, pretendam recuperar esse estatuto de protecção aos indigentes de 1935. O alerta dos bispos está clara: é política e de social: Que os sacrifícios sejam iguais para todos.

Assim não tem sido, porque o discurso político contraria-se e ofende, não só ao comum cidadão, assim como alguns membros da igreja portuguesa que não vêm em palavras de circunstância, mas de responsabilidade, em apelos contrários à opulência protegida, à falta de dignidade para com ao valores cívicos ou religiosos dos portugueses que têm determinação para a sociedade desfavorecida, de centenas de milhares portugueses sem trabalho e, por incrível , a negação ao desenvolvimento e à produção . Nestes tempos novos, de vozes extremas contra o desbarato: Quem o produz e quem gaspóia?

Terei que pegar nas palavras do Presidente da República, quando há bem pouco tempo (dias) nos colocou neste dilema circunstancial. Sem mais nem menos: Ninguém está imune aos sacrifícios. Palavras sábias de quem tem as responsabilidades que tem, e exemplos a cumprir. Agora é a minha vez, a que se juntarão alguns milhões de portugueses: Que sacrifícios são esses, quando o mais alto magistrado da Nação se desloca a uma parcela do território, mesmo que seja insular, que leva na sua comitiva, em avião pago pelos contribuintes, dezenas de indivíduos, que passo a enumerar o dispensável e dispendioso: 12 agentes de segurança, (teria ido o presidente a uma região portuguesa em conflito, que são as ilhas açoreanas?) levando o chefe da casa civil + esposa, quatro assessores, dois consultores, o médico pessoal, uma enfermeira, dois bagageiros, dois fotógrafos, um mordomo, um mundo de 30 pessoas e uma inutilidade em vaidade presidencial.

Então, em que país vivemos? É verdade que ninguém está imune aos sacrifícios? Ninguém? Têm mais que razão ética, religiosa, de moral e política, os senhores bispos e outros cidadãos que se pronunciam contra este país governado a duas dimensões.

Já Eliane Mossé, no seu livro “Les Riches et les Pauvres” (Os ricos e os pobres), nos diz: Em verdade, não se pode compreender a pobreza, quem nunca foi pobre.

Eu, ajuntaria: quem é pobre de valores humanos, de ética política e de verdade cristã.

Teodomiro Neto

Ilustração: capa do livro, da cidadã farense. Maria de Fátima Pinto, em título "Os Indigentes entre a assistência e a repressão", Estudo de mestrado, no âmbito dos 500 anos da fundação da Misericórdia de Lisboa.

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