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Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

O teólogo Juan Ambrosio apresentou ontem uma conferência no auditório da Escola Superior de Engenharia no Campus da Penha da Universidade do Algarve no âmbito do próximo Dia Mundial dos Pobres que será assinalado no domingo, 18 de novembro.

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Na iniciativa, promovida pela Cáritas Diocesana do Algarve sob o tema “Gritos que gritam muito alto” e que contou também com uma exposição fotográfica alusiva ao tema da pobreza, o orador disse que “no grito dos pobres «grita» o próprio Deus”. “No grito deles «grita» o próprio Deus, chamando a atenção das comunidades cristãs de que, porventura, estão muito distraídas, enroladas na sua autorreferencialidade, ignorando que são chamadas a intervir na construção de uma casa comum onde não haja lugar, nem para descartados, nem para sobrantes”, afirmou.

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Lembrando que “há gritos, que apesar de serem gritados muito alto, não estão a ser suficientemente escutados”, Ambrosio considerou que o papa Francisco alerta para o problema na sua exortação apostólica ‘Evangelii Gaudium’ (a alegria do Evangelho). “Diz claramente que temos que mudar a maneira de ser Igreja, deixar de estar centrados sobre nós mesmos, preocupados com a existência da instituição e temos que fazer do centro da Igreja aquilo que é o centro do coração de Deus, que são as pessoas, todas as pessoas, especialmente aquelas que estão nas chamadas periferias geográficas e existenciais”, observou.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

O conferencista acrescentou que Francisco complementa o pedido naquele documento de uma Igreja “não autorreferencial, preocupada com ela mesma”, com o de “uma Igreja preocupada com a casa comum” apresentado na encíclica ‘Laudato si’ (Louvado Seja), lembrando que “a crise ecológica decorre de uma crise humana e o contrário também”.

O teólogo destacou que “o problema do mundo atual, e também das comunidades cristãs, é o individualismo egoísta em que cada um só pensa em si, ou nos seus, ou nos que são mais próximos e só depois vem o cuidar dos outros”. “Quando a vida interior se fecha nos próprios interesses deixa de haver espaço para os outros, já não entram os pobres, já não se ouve a voz de Deus. Para aqueles que são crentes, a voz de Deus escuta-se quando eu dou espaço aos outros, quando escuto os pobres”, prosseguiu, lamentando que, por vezes, as “instituições eclesiais e civis” sejam “estruturas complicadas” em que “a própria maneira como estão organizadas consome a maior parte dos recursos humanos, económicos, de tempo e de disponibilidade, deixando o essencial de lado”. “Quantas vezes as coisas estão ao serviço da estrutura, em vez de a estrutura estar ao serviço das pessoas”, acrescentou.

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O orador alertou para o perigo daquilo que “alguns chamam de situações de saturação indiferente” como “estádio último de uma crise” que se prolonga no tempo e explicou que “de tanto ouvir falar da mesma coisa e não haver mudanças nenhumas”, “as pessoas começam a saturar-se e tornar-se indiferentes a esta realidade”. “Esse é ainda um estádio muito mais perigoso do que qualquer outro porque quer dizer que começamos a ser completamente indiferentes”, alertou.

Considerando ser o “futuro da humanidade” que está em causa e ser “nos momentos de crise que as decisões têm de ser tomadas”, Juan Ambrosio defendeu que “talvez seja agora o tempo de tomar decisões que mudem o sentido das coisas, que abram novos horizontes, que possam perspetivar um futuro que tenha diferenças significativas do ponto de vista humano”. “Todos os momentos históricos são tempos de mudança, mas há alguns nos quais se joga o futuro de uma maneira totalmente diferente. Estou em crer que este que estamos a viver é um desses momentos de mudança de paradigmática, de metamorfose. Estão neste momento a tomar-se as decisões que marcarão indelevelmente o nosso futuro”, afirmou.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Ambrosio lembrou que o papa, depois de fazer o “diagnóstico” propõe uma “terapia”. “A terapia é viver a partir do dom. A vida alcança-se e amadurece-se à medida que é entregue para dar vida aos outros”, explicou, exortando a uma postura ativista. “Não podemos ficar à espera que os pobres venham ter connosco, temos nós de ir ter com eles. Este é um desafio, este é um desígnio cristão e humano”, afirmou, lembrando que “os pobres são os destinatários privilegiados” da ação da Igreja e que “a opção pelos últimos é um sinal que nunca pode faltar às comunidades cristãs”.

“A opção pelos pobres é critério para aferir se a nossa opção crente é ou não é verdade”, acrescentou, explicando que a “opção pelos pobres” é a “opção de lutar contra a pobreza em que eles vivem, para os elevar, para que eles deixem de ser descartados e sobrantes”.

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“À Igreja compete denunciar o que está mal e arregaçar as mangas, fazer propostas concretas e trabalhar ao lado de outros que estão a trabalhar nestas coisas para em conjunto cuidarmos da casa comum”, prosseguiu, advertindo que a Igreja não se deve “só preocupar em não cometer erros doutrinais”. “As heresias que nós cometemos por não viver a caridade, dessas não temos consciência”, lamentou, acrescentando que o “compromisso não consiste exclusivamente em ações ou em programas de formação e assistência”. “Eles são fundamentais, eles não podem faltar, mas esses programas têm que ter por trás uma ampla ação prestada ao outro”, completou, considerando ser este o “desafio, lançado não só às comunidades cristãs, mas a toda a comunidade humana enquanto tal, que o papa quer dar na celebração do Dia Mundial dos Pobres”.

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No encontro – em que alguns participantes criticaram a “profunda arrogância de falar em nome dos pobres” sem inclui-los para os ouvir e para tentar com eles trilhar um caminho de mitigação da pobreza – o conferencista apelou precisamente a que os pobres não sejam simplesmente os destinatários da ação, mas possa ser, com os restantes agentes, “protagonistas da sua libertação”. “Isso requer que os envolvamos e que com eles pensemos e edifiquemos os passos necessários para esta libertação”, acrescentou no encontro participado não só pelo presidente da Cáritas do Algarve, Carlos Oliveira, e pela diretora do Centro Distrital de Faro da Segurança Social, Margarida Flores, mas por muitos representantes e técnicos de diversas instituições do Algarve e por professores e alunos do Curso de Educação Social da Universidade do Algarve, para além do vigário geral da diocese algarvia, o cónego Carlos César Chantre, em representação do bispo do Algarve.

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