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Teresa Venda lamentou que existam minorias com mais peso do que as pessoas com deficiência

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© Samuel Mendonça

Teresa Venda, ex-deputada e membro da Comissão Nacional Justiça e Paz, apresentou ontem uma reflexão sobre o tema “Olhar a pessoa e as suas capacidades ao nível da família, da sociedade e da fé” no encontro que a Igreja Católica do Algarve realizou nas Ferreiras para pessoas portadoras de deficiência e suas famílias.

Lembrando que, segundo dados da Comissão Europeia, 16% da população da Europa (o correspondente a 80 milhões de pessoas) é portadora de algum tipo de deficiência, a oradora lamentou que, em Portugal, o último recenseamento que “perguntou alguma coisa sobre deficiência” date de 2001. “O objetivo é não conhecer para não se ter problemas em não atuar”, acusou, acrescentando haver “minorias que têm muito mais peso, que são mais ouvidas e das quais a comunidade gosta mais de falar”.

Neste sentido, a ex-deputada confessou que “a maior frustração” da sua vida foi “tentar fazer alguma coisa pela deficiência” enquanto esteve na Assembleia da República. “A deficiência também tem associado um certo negócio”, denunciou, exortando cada um a não esperar que seja o Governo a mudar a realidade atual. Lembrando que na Suécia há, diariamente, “dezenas de pessoas de cadeiras de rodas” na rua porque “nada está limitado a um jovem que tenha uma deficiência”, Teresa Venda abordou a diferente realidade portuguesa. “[Face ao envelhecimento] a perspetiva é que toda a sociedade devia de pensar que vai precisar que não haja barreiras e isso é uma tarefa que cada um de nós tem de fazer porque se pensa que o Governo faz, não vamos chegar lá”, defendeu.

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Teresa Venda
© Samuel Mendonça

A oradora, que considerou a problemática das pessoas portadoras de deficiência como uma questão de “defesa dos direitos humanos”, apelou à criação de um “movimento consistente de apoio” aos pais destas pessoas, lembrando que “o mais difícil é a sobrecarga emocional que há na família” que leva “muitas vezes a desistência”. Neste sentido, destacou que a integração na família é melhor quando surge na sociedade o reconhecimento por estas pessoas e acrescentou que “na aceitação, a criança começa a ser vista como um dom de Deus”.

Teresa Venda destacou que as técnicas conseguem hoje “criar grandes autonomias às pessoas”, sobretudo quando a deficiência acontece à nascença. “É nisso que a sociedade deve investir porque é melhor no início do que depois ser mais pesado”, defendeu.

Sublinhando a importância das áreas da saúde/educação, empresas, cultura e acessibilidade, garantiu ser no sector da educação que há mais fragilidade. “Infelizmente, a comunidade educativa não é muito sensível à deficiência. A maior parte dos professores detesta o programa de integração das crianças nas escolas, acha que as crianças deficientes devem estar à parte”, acusou, assegurando que “é desolador o que se pode ver na educação”.

Teresa Venda, na sua intervenção intercalada pela projeção de três vídeos (ver abaixo), manifestou-se contra as escolas especializadas de deficiências, considerando-as “escolas de guetos especializados”. “Se queremos quebrar as barreiras não podemos pôr os deficientes todos de um lado e os outros do outro. As barreiras estão precisamente aí, ao formar essa segmentação”, sustentou, questionando: “como é que se faz integração social se se segrega as pessoas?”.

Neste sentido defendeu que as pessoas com deficiência “precisam de ensino mais individualizado”, “de professores com competências próprias”, “de técnicos com tempo suficiente”, “de quem os acompanhe nas dependências” e “de espaços dimensionados”.

A oradora defendeu ainda uma “cultura de acessibilidade”. “É fundamental que as pessoas possam ir ao teatro, à escola ou a um espetáculo de futebol. As acessibilidades têm de ser feitas para que as pessoas andem sozinhas e não com outra a acompanhar. É isso que cria autonomia às pessoas”, concretizou, apelando também à quebra das “barreiras da atitude”. “É nesta questão que o Estado pode fazer”, complementou.

Por fim, considerou que o desafio da Igreja de hoje é o de “colocar o deficiente no meio”, favorecendo a sua “participação ativa na vida da comunidade”. “Já que os outros não fazem, é nossa obrigação”, evidenciou, interpelando a Igreja. “Como é que garantimos a dignidade das pessoas? Como é que as pessoas que têm dificuldade em sair de casa são encaminhadas para a formação religiosa, estimuladas para receber os sacramentos, imbuídas no espírito da comunidade de Deus? Será que há um programa nas nossas paróquias para isso?”, questionou.

Vídeos apresentados por Teresa Venda:

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