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A 13 de Novembro de 1640
Morria o Infante de Sagres
Era uma quinta-feira, e
levaram-no para a igreja
de Santa Maria de Lagos.

In "Diário de Diogo Gomes"
13 de Novembro-1460

COMO SAGRES FOI POSSÍVEL. Depois de Ceuta, quando o Infante D. Henrique partiu definitivamente de Faro, a 7 de Agosto de 1415, para iniciar o Império, só Sagres poderia ser a decisão do jovem estratega, que aos 21 anos, no Reino do Algarve, iria iniciar a saga fabulosa, a aventura do futuro.

Antes da era das descobertas, o mundo da Europa, a civilização da Idade – Média, as cultura islâmicas, que tão florescentes foram no Algarve, o estudo que toda a Península fizera de Ptolomeu, a transmissão das obras dos eruditos da antiguidade, que tão bem nos souberam transmitir com os seus historiadores viajantes, como Ibn-Khal-dun, e Ibn Batuta, que percorreram a África e a China. Abraão Cresques que traçou o Atlas Catalão; o mundo islâmico que produziu astrónomos, matemáticos, sábios, poetas, terminava a meio do século XV.

Ali, em Sagres, uma saliência que se projecta do extremo sudoeste de Portugal, em penhascos abruptos, cor de mel, em que ecoam ruídos estrondosos na rebentação do Atlântico, como mensagem dos algarvios aos capitães do Infante, para que trabalhasse de conquistas altas e fortes, especialmente de buscar as cousas que eram cobertas aos outros, no dizer singular de Zurara, o gabinete de imprensa do Infante, em Sagres, para Ceuta e Guiné. E para tanto vieram os Anes, os Estevãos, os Gonçalves, os Vascos. E foram tantos os seus nomes, no extremo Sul, no reino do Algarve.

De Sagres partiram navegadores que, no dia-a-dia de bordo conheceram ventos e correntes; ensaiaram as mais aconselháveis derrotas para as navegações, desejadas! Sagres foi uma escola prática em que os marinheiros foram mestres e alunos. Ou, como muito a propósito escreveu Luciano Pereira da Silva: A escola de Sagres foram as pranchas das caravelas.

Este filho de João I de Portugal e de Filipa de Inglaterra, braço direito e companheiro do pai e irmãos, protegido de papas, senhor de tanto mando e regalias. Tão poderoso, clarividente e tão solitário. Generoso e encorajado, repartindo com os pequenos da sua casa, dando-lhes capitanias de navios, terras, armando, alguns deles cavaleiros: Gil Eanes e João Fernandes, escudeiros; Antão Gonçalves, guarda-roupa; Diogo Afonso, Garcia Homem e Nuno Tristão, todos criados na sua câmara desde tenra idade, são outros tantos exemplos dessa generosidade de muitos grandes e pequenos valores…

Zurara, de crónica encomendada e pouco afiada, não esconde que se o Infante mandou conhecer o mar, dilatando a fé, que se mandou barcas abrir as primeiras portas do mar oceano, que fez dobrar o Cabo Bojador, também mandou filhar os primeiros escravos, mostrando que com o apoio da Ordem que administrava, esteve à altura dos gestos e de êxito, como executor que foi: "Oh! Santo Príncipe! E por ventura seria o teu prazer e tua folgança alguma semelhança de cobiça, do entender de tamanha soma de riquezas, como tantas despesas, por chegares a este fim; e vendo agora o começo do retorno cobravas ledice (alegria), não pela quantidade daqueles, mas pela esperança que tinhas de outros que podias ter".

Nas vozes dos poetas, como Camões, Pessoa, Emiliano, Lúcio, Cândido, no nacional e regional poético, cantaram a generosidade a par do poder, a solidão ao lado das esferas, no viver do Príncipe do renascimento pelo Algarve a caminho da descoberta do desconhecido.

Para Camões, o poeta que mais sagrou as descobertas, a partir de Belém que de Sagres, evoca nos Lusíadas:

As novas ilhas vendo
e os novos ares
que o generoso Henrique
descobriu.

Para Pessoa, o Infante era o Homem do Renascimento no seu esplendor de novas riquezas em terras, em gentes, em ouro, em relações internacionais de comércio e de ciência. Em transformação planetária:

Em teu trono
entre o brilho das esferas
com seu manto de noite
e solidão,
tem aos pés o mar novo
e as mortas eras.

Emiliano da Costa pega nas palavras de Diogo Gomes (escritas a 25 de Setembro de 1448), que naquele ano troueram della Guiné por vezes mais de mil corpos de infiéis presos.

Lastro humano de escravos, dor, pilhagem,
Vento a zunir, que o vento é um chicote,
E as caravelas, as de Lançarote.

Entremos, pela companhia de Diogo Gomes, seu moço de câmara, no relato do seu diário, vivido no deslumbramento da baía de Lagos, nos Paços da Raposeira, na villa de Sagres, por aqui e mais além, que os passos do senhor Infante são agora mais curtos.

1459 – D. Henrique prepara-se para o fim. Redige testamentos: "fecta em minha villa" donde destacaremos "Doação uma ymagem devota de santa maria dafrica para a igreja de ceuta." Depois mandou selar o testamento e esperou pela morte.

1460 – 13 de Novembro, escreve o, ainda, o moço de câmara: Morreu numa quinta-feira. E na noite que morreu, o levaram para a igreja de Santa Maria de Lagos.

Desta figura nacional que teve a maior projecção mundial, ficou o lendário Príncipe do Renascimento, o Infante D. Henrique, tão ligado ao Algarve, por onde viveu décadas, desde os 21 anos, a intensidade da aventura, do guerreiro, do corsário, do deslumbramento e do exigente. Do homem que assustou, com a sua ideia de alcançar, de possuir a terra e os homens… Do homem que sofreu a responsabilidade como estadista, pela insuficiência, não guerreira, mas diplomática, pelo martírio fraterno de Tanger, o príncipe D. Fernando.

Excerto do estudo "Um Príncipe do Renascimento no Algarve"
T. Neto- Edição-1994 – Prémio Nacional Infante D. Henrique

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