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UM REINO POR COMBATER

“Seria preciso relativizar ideologias, neste momento, para absolutizar a pessoa e o país” (Sr. Bispo do Algarve).

Sabemos que não é fácil para os cristãos comprometer-se com uma análise unilateral da situação crítica em que o País está mergulhado, pois, não podem deixar de compreender a situação económica e política do País. Não se podem, porém, alhear de participar nessa análise, sobretudo, à luz de premissas diferentes da factualidade política, económica e social.

Os momentos de profunda angústia da maioria do povo português exprimem a angústia de todos os que não encontram resposta para as mais exigentes necessidades da sua vida e da vida dos seus próximos.

Sofrem uma luta inglória contra o poder dos fortes, dos poderosos, do capitalismo agiota.

O diretor do Secretariado da Pastoral da Cultura da Diocese do Porto defendia há dias que são os “cristãos comprometidos” na sociedade que têm de “tomar a palavra”, dado que o tempo presente “não é nada propício a “meias tintas”.

Incrédulos, perante avisos consistentes de que “é pela solidariedade e não pela austeridade sem fim que os objetivos da redução dos défices serão alcançados” (Presidente F. Hollande), os portugueses continuam a ver os seus governantes mais preocupados em cumprir metas orçamentais aritméticas do que metas humanas, éticas e sociais. Absolutizam ideologias económicas e relativizam pessoas e comunidades.

“Temos de criar uma atmosfera que não se limite às questões económicas nem financeiras, porque os seus problemas nasceram, em boa parte, quando se esqueceram as questões éticas, morais”, refere o cardeal Gianfranco Ravasi, em recente entrevista.

Não é possível continuar-se a viver assim. O grande e grave problema da situação económica que acossa o nosso quotidiano não pode ser resolvido por medidas ideológicas que a realidade continuamente contraria. Lendo e ouvindo os Nobel da Economia, a cacofonia torna-se estridente.

Ainda recentemente Roque Amaro criticou as Faculdades de Economia que “continuam a seguir o modelo do passado”, seguindo “a lógica dominante” das instituições de ensino mais conhecidas, sobretudo dos EUA, como acontece nas nossas Universidades
Nova e Católica. Das quais foi estudante e académico emérito o actual ministro das Finanças.

Os governantes não ouvem, não auscultam o povo, fazem cinicamente ouvidos de mercador. A cartilha neoliberal é o seu destino. Arrogam que são governo eleito. Mas, nem sempre um governo legítimo governa com legitimidade, já assim o defendia, no século XVII, o conimbricense jesuíta Francisco Suarez.

Esta situação desigual, entre os desideratos da finança e as necessidades do povo, levou o teólogo vasco Pagola, numa intervenção intitulada No podeis servir a Dios y al dinero, a exprimir a sua visão sobre o momento de crise que se vive em alguns países da Europa, entre os quais Portugal e Espanha. Aponta ele como fundamento desta crise o império do capitalismo neoliberal, império que abertamente confronta o acolhimento do reino de Deus. Na sua soberba e impiedade universal, o neoliberalismo esmaga a mensagem do reino, esmagando a compaixão, a liberdade, a cura e a esperança.

O neoliberalismo actual é o espelho em que Sísifo se sente humilhado pelo falhanço da sua luta e em que Zaratustra se ri da esperança num Deus que declarou morto.

E, contudo, a esperança, virtude teologal para os cristãos, é a reserva de alma de um povo e da sua história. Há esperança, cristã e humana, para além das contas do deficit e para lá do abuso de uma democracia transformada em engano e em dissimulação.

O bem geral e o interesse comum do povo não estão no império do dinheiro, na especulação financeira, na agiotagem económica, na corrupção política e na simulação da democracia. Estão sim, no coração da compaixão, na solidariedade institucional, na cura do próximo, na defesa do trabalho, na eliminação do desemprego, no fomento da alegria, na paz de viver.

Quando o capital financeiro declara, sem pudor, que os portugueses podem suportar mais austeridade, está consumada a inversão dos valores da cultura, da ética, da verdade e da herança europeia cristã.

Por isso, bem avisa o Sr. Bispo do Algarve que tempo é de relativizar o que nos perde e absolutizar aquilo que nos redime e salva: o homem e a sua dignidade.

Alarga-se, nestes dias de crise, a distância entre o dinheiro e o reino de Deus. Sobrevirá, porventura, a democracia num País que sobreleva os ditames da ideologia neoliberal sobre as necessidades éticas, vitais e sociais dos seus cidadãos?

Hora é pois de alertar para a obrigação de os cristãos “tomar a palavra”, uma vez que o tempo presente não é para “meias tintas”.

Há ainda um reino para continuar o combate.

José Alberto Baptista

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