Pub

Padre Miguel Neto

Dei por mim a pensar, nestes dias, nas cores da bandeira francesa. Três: branco, azul e vermelho. Poucos conhecerão a simbologia desta bandeira tricolor (aliás, poucos conhecem a simbologia da bandeira nacional…), mas a verdade é que quando ela se ergue num qualquer mastro fala da história de um país e da sua relação com os valores que lhe são mais significativos. O branco é a cor ancestral de identificação da França (em tempos representada nas batalhas precisamente por uma cruz branca), associada à nobreza e o azul e o vermelho são as cores da cidade de Paris, sua capital e centro da Revolução Francesa. A bandeira define, ela mesma, os três mais importantes valores dessa Revolução – Liberdade (Liberté), Igualdade, (Égalité) e Fraternidade (Fraternité) -, que influenciou muitas outras no mundo, nomeadamente a norte-americana, que viria a autonomizar o país em relação à Inglaterra.

Esta bandeira é, na verdade, um símbolo de unidade, da unidade nascida no pós Revolução, entre os que vinham da nobreza, os jacobinos e outros, sobretudo unidade entre republicanos e monarquistas, num esforço simbólico de promover um nacionalismo que fosse muito além da cor política. Mais ainda: é um símbolo de uma nação que acreditava na partilha, na defesa de valores muito nobres e de um sonho de justiça, uma utopia de sociedade, em que o ser humano era o elemento central.

Pois, desde domingo passado que olho para esta bandeira e só a consigo ver a duas cores…

A França saída das eleições legislativas não é mais a França em que há espaço para todos, em que se respeita a voz de todos, em que todos falam sem medo. A França destas eleições é um país que teme atentados (porque os tem, é bem verdade), que teme as minorias, que se quer fechar a tudo e a todos, assumindo esse “fechamento” como uma necessidade imperiosa para a defesa da sua segurança e identidade nacional. É uma França radicalizada, onde extrema-esquerda e direita se tocam, se aproximam para atingir objectivos comuns. É uma França onde aqueles que ainda acreditam na força do voto terão de escolher o mal menor, porque as opções se reduziram drasticamente.

Esta nação de sim ou não está, mais uma vez, no centro da Europa, como charneira do que ai poderá vir: ou um “FRAXIT”, com a sua saída da União Europeia, que por arrasto levará outros consigo e, certamente, porá em causa o “sonho europeu”, todo ele, aliás, imbuído do espírito da dita Revolução Francesa. Isto, caso vença a candidata da extrema-direita, Marine Le Penn (que oportunisticamente já se afastou da liderança do Partido ao qual está associada desde sempre, para ver se conquista votos no campo da extrema-esquerda). Ou uma solução mais moderada e europeísta com Emmanuelle Macron, evidentemente, mas de igual modo “estranha”, porque nos faz acreditar que há aqui um jogo de lotaria, em que todos esperamos que quem votar consiga acertar.

Estamos, pois, reféns deste jogo que se disputa por terras gaulesas. Não somente por causa da sorte que terá a União Europeia, mas também pela forma como, doravante, funcionarão os sistemas políticos. Os partidos tradicionais perderam comprovadamente a sua preponderância (vejamos os casos do 5 Estrelas em Itália ou o Podemos em Espanha) – o que pode ser bom ou pode ser maus, dependendo da forma como esses movimentos funcionarem – e as regras da democracia podem ser subvertidas com facilidade (vejamos a união das esquerdas perdedoras em Portugal, que derrotaram, somente no campo parlamentar pós eleitoral, os partidos mais votados). Quase voltamos a ter dois blocos, como no tempo da Guerra Fria, com dois radicais à cabeça, Trump e Putin e, no meio de tudo isto, o Estado Islâmico, que semeia a desordem e o medo, do qual se alimentam todos aqueles que simplesmente querem protagonismo.

Esta França bicolor é apenas figura de estilo para esta sociedade sem nuances que se começa a construir… Ou melhor, para uma sociedade sem nuances que alguns querem construir, porque as periferias não desapareceram, nem as minorias, nem nada que se pareça. Todos continuamos aqui. Muitos de nós estamos, porém, muito mais alheios a todo o desenrolar deste cenário, no qual, infelizmente não percebemos que temos um papel: o de cidadãos, aqueles a quem a já mencionada Revolução Francesa garantiu direitos, mas atribuiu deveres, como o de votar e o de zelar pelo funcionamento das instituições, participando na vida social e política, tendo opinião. Há que erguer, bem alto, a bandeira tricolor…

Pub