Faleceu hoje a irmã Miriam de Jesus, da comunidade algarvia das Carmelitas Descalças.
Antes de ter entrado no Carmelo algarvio, a religiosa pertenceu à Ordem Cisterciense da Estrita Obediência, que tem as suas raízes no Mosteiro de Citêaux (França), fundado por 21 monges beneditinos, em 1098.
A irmã Miriam Godinho tinha estado na abadia de Sainte Marie du Rivet, em França, a 50 quilómetros a Sul de Bordéus. Na atura, a sua antiga abadessa desafiou-a a um projeto de fundação. “Trouxe o projeto de uma abadessa que hoje está retirada porque já tem muita idade e queria implementá-lo”, testemunhou em 2008 em entrevista ao Folha do Domingo.
Pela mão do então bispo do Algarve, D. Manuel Madureira Dias, a religiosa fundou então no Algarve, em Santa Catarina da Fonte do Bispo, o mosteiro de Santa Maria de Marana-tha que foi durante largos anos o único da Ordem de Cister existente em Portugal, desde que em 1834 as ordens religiosas foram expulsas de Portugal.
Ao princípio, a fundação resultou porque à fundadora se juntou a jovem Maria Helena Branco, mas uma doença grave veio ceifar-lhe a vida com apenas 28 anos, a 01 de fevereiro de 1994. Houve ainda outra rapariga que esteve oito anos na comunidade, mas não perseverou e a seguir veio ainda outra que acabou por se transferir para um mosteiro de Espanha e, em 2004 tendo a irmã Miriam ficado sozinha.
A irmã Miriam, para além da língua nativa, falava espanhol, francês, inglês e italiano. Como todas as comunidades religiosas, que vivem do que produzem, a comunidade cisterciense algarvia vivia das traduções que a sua fundadora fazia para diversas editoras e dos ícones que produzia por encomenda.
Em 2008, a monja da Ordem de Cister, também conhecida por “Trapa” por referência à abadia cisterciense de “La Trappe”, chegou a deixar o Algarve rumo à abadia francesa de onde tinha vindo, Sainte Marie du Rivet, após a decisão do encerramento do mosteiro e da comunidade trapista algarvia, almejando, no entanto, uma nova fundação trapista em Portugal no futuro, o que acabou por se concretizar com o mosteiro e da hospedaria da comunidade trapista de Santa Maria Mãe da Igreja, em Palaçoulo, Miranda do Douro, na Diocese de Bragança-Miranda.
Antes de partir, em entrevista ao Folha do Domingo, admitia que gostaria de regressar à diocese “por saber que tem falta de presenças contemplativas”, que lembrou ter sido um dos aspetos que a fez vir para cá. Confrontada com o facto de a Igreja algarvia passar a ficar com uma única comunidade religiosa de vida contemplativa, a irmã Miriam respondeu: “as irmãs do Carmelo de Faro são valentes e valem por mil”.
Ora foi precisamente aquela comunidade que a irmã Miriam Godinho acabou, pouco tempo depois, por integrar, passando da Ordem Cisterciense da Estrita Obediência para a Ordem Carmelitas Descalças, igualmente contemplativa de clausura monástica, começando simbolicamente a chamar-se irmã Miriam de Jesus.
Em 2008, na entrevista ao Folha do Domingo, a irmã Miriam respondia que os seus planos para o futuro passavam por continuar a “ser monja”. “O monge adianta a sua própria morte quando morre para o mundo e entra no mosteiro para adiantar a vida que é aquela que nos espera.
A irmã Miriam de Jesus, que no próximo ano completaria 70 anos de vida religiosa, faleceu ao final da manhã de hoje, de forma inesperada. “Embora estivesse bastante debilitada, foi uma grande surpresa para todas nós”, lamentam as irmãs Carmelitas Descalças da comunidade algarvia sediada no mosteiro de Nossa Senhora Rainha do Mundo no Patacão, concelho de Faro.










