O clero da Diocese do Algarve reuniu-se em assembleia geral no passado dia 06 de maio para uma formação sobre o acompanhamento no luto que teve início com uma introdução feita pelo cónego Mário de Sousa sobre o tema “Jesus perante o sofrimento e a dor”.

No encontro, que teve lugar no Centro Pastoral de Pêra com a participação de cerca de 50 participantes, o sacerdote deixou um alerta. “Enquanto o sofrimento dos nossos irmãos não nos comover profundamente, não seremos verdadeiramente discípulos de Jesus, daqueles que caminham atrás d’Ele. E quando, porventura, nos tornamos indiferentes, não só deixamos de ser cristãos como deixamos de ser humanos”, afirmou.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

O cónego Mário de Sousa lembrou que Jesus “chama os doze com a finalidade de lhes dar autoridade sobre os espíritos impuros para que os expulsassem e curassem toda a espécie de doenças e enfermidades, ou seja, tudo aquilo que diminui a dignidade e a vitalidade do ser humano, que é uma realidade única e não um composto de corpo e alma”.

O sacerdote evidenciou assim que “o chamamento dos doze nasce desta reação das entranhas do Senhor, de uma resposta que é necessário dar ao sofrimento e ao desalento de toda a espécie e natureza”. “O nosso ministério sacerdotal nasceu das entranhas, das vísceras do Senhor, ao contemplar uma multidão que é como ovelha sem pastor”, prosseguiu.

O biblista já tinha antes explicado que o verbo usado por Jesus, traduzido por “compadecer-se profundamente”, no grego, é splanknízomai, “que significa literalmente estremecerem-lhe as entranhas, as suas vísceras (splanknon, em grego)”. “Ou seja, Jesus sente profundamente como sendo seu o sofrimento da nossa gente”, referiu.

O cónego Mário de Sousa começou por lembrar que “a Teologia da Retribuição vê a morte, a doença e os males físicos como uma consequência visível (um castigo) do pecado invisível, ou seja, como uma manifestação exterior de uma condição interior, ambas com a sua causa na ação do mal”. “E esta ideia está muito presente, infelizmente, ainda na conceção espiritual do nosso povo”, acrescentou, lembrando uma expressão popular que ilustra isso mesmo: «Que mal fiz eu a Deus para merecer uma coisa destas?». 

O sacerdote deixou, por isso, claro que “a obra que o Pai entregou a Jesus é, pois, a de resgatar o ser humano de tudo aquilo que o despersonaliza, que fere a sua natureza e a sua dignidade mais profunda” e que “Jesus não recusa gesto algum que possa libertar as pessoas daquilo que as diminui e as faz sofrer”. “Para Ele, o ser humano não é um pecador, é um sofredor. E um sofredor que precisa de ser libertado”, sustentou.

Apresentando todas as ocorrências do verbo splanknízomai nos Evangelhos, lembrou episódios como a reação de Jesus perante a situação e a petição dos cegos de Jericó, com a viúva de Naim que perdera o filho, com o pedido do leproso, a parábola do perdão do credor ao servo que lhe devia cem denários e a do Pai Misericordioso.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

O cónego Mário de Sousa explicou que “a salvação de Jesus é integral e não é compartimentada e, por isso, Ele nada recusa do que possa aliviar, mitigar e resgatar do sofrimento e do mal”. “Não há nada de mais errado do que a visão que considera o sofrimento numa perspetiva estóica ou ascética. O plano original de Deus não hospeda o sofrimento: a imagem do paraíso (ou seja, jardim) apresenta exatamente uma teologia contrária. O ser humano não foi criado para o sofrimento, como infelizmente tantas espiritualidades de antropologia errada defenderam ou ainda defendem. O ser humano foi criado para a glória e para a comunhão luminosa com Deus, para a vida e vida em abundância”, clarificou.

O sacerdote explicou que “Jesus não quer o sofrimento, mas se a sua missão implica passar por ele, Ele assume-o por uma razão maior: o bem do outro”. “O sofrimento apenas tem sentido na medida em que for necessário por causa de um bem maior, que é a salvação (do próprio ou do próximo), e é por isso, neste caso, que o sofrimento se torna uma participação na cruz de Cristo”, desenvolveu. 

O biblista disse assim que “em tudo o que faz, quer nas curas, quer nos exorcismos, quer na forma como vive o próprio sofrimento, a grande opção pastoral de Jesus é o bem do outro e tudo faz para o libertar das escravidões que o menorizam”. “Tudo fazer pelo bem do outro é a grande opção pastoral de Jesus e, na minha perspetiva, não pode ser outra a nossa: cuidar, aliviar, curar, libertar e resgatar do sofrimento e do mal: moral, teológico, social, humano”, considerou.

A terminar, disse ainda que “o maior sofrimento é quando a dor não encontra um horizonte de esperança”. “Por isso, a morte, sem o horizonte da eternidade, destrói quem fica, envolve na escuridão do sem sentido os afetos e a alma de quem vê partir. Também nestas almas caídas à beira da estrada é necessário derramar o vinho da consolação e o óleo da esperança”, concluiu.