O cónego Carlos de Aquino alertou, no VIII Encontro da Cáritas Diocesana com as Cáritas Paroquiais do Algarve que se realizou em Faro no passado sábado, 09 de maio, no Seminário de São José, para a importância daquela instituição na paróquia.
“A Cáritas deve estar no coração da vida paroquial, integrada na comunhão da Igreja, em comunhão também com as outras dimensões da pastoral, mas sempre assumida como uma expressão também da identidade missionária”, disse o sacerdote, realçando que a Cáritas “não é apenas uma instituição”, mas “expressão viva do amor de Cristo na comunidade paroquial”.

Este foi mesmo o título da sua reflexão naquele encontro que reuniu para além da Cáritas Diocesana a Cáritas da matriz de Portimão, a Cáritas de Lagoa, a Cáritas de Loulé, a Cáritas de Nossa Senhora do Amparo de Portimão, a Cáritas de São Brás de Alportel, a Cáritas de São Luís de Faro e a Cáritas da Sé de Faro.
O assistente da Cáritas Diocesana alertou, por isso, que “uma paróquia sem caridade ativa corre o risco de se tornar autorreferencial”. “Mas atenção que os grupos da Cáritas Paroquial não excluem a caridade que cada um deve exercer na sua própria vida”, alertou, considerando que “não é por haver um grupo Cáritas organizado que a Igreja já não tem outras dimensões de caridade” e “outras dimensões de serviço aos mais frágeis, vulneráveis e pobres”.
O sacerdote começou por destacar que “a identidade da Cáritas nasce do coração do Evangelho”, da missão de “amar o próximo, especialmente o mais vulnerável e frágil”, procurando “ver em cada pessoa o rosto e a presença de Cristo” e “viver a caridade como uma experiência verdadeira de encontro com Cristo”. “Os pobres não são apenas destinatários da nossa ação, são sacramentos da presença de Cristo”, sustentou, acrescentando a missão de cada agente passa por “ver Cristo no pobre, servir com humildade e amar sem esperar retorno”.
O cónego Carlos de Aquino advertiu que “quando isto não é vivido com autenticidade”, há o risco de a instituição se tornar uma ONG. “O que é que difere a Cáritas de um grupo social de ação sociocaritativa, filantrópico?”, questionou, alertando que “se a fé não acrescenta nada à expressão da caridade, alguma coisa não está bem”.

Por outro lado, aquele responsável defendeu que “a missão da Cáritas não é resolver a vida dos outros”. “Somos chamados a servir, não a salvar”, frisou, lembrando que “há problemas que não se resolvem imediatamente”. Nesse sentido, considerou que a Cáritas deve “caminhar com os que têm problemas” e “ir medindo a possibilidade de inverter” a situação de pobreza.
Entre os “desafios atuais” da instituição, o sacerdote enumerou o de “passar do assistencialismo a uma verdadeira promoção humana”, reconhecendo o assistencialismo como “uma dificuldade real ainda muito presente nos grupos paroquiais da Cáritas”. “Não basta dar coisas, é preciso promover a dignidade, capacitar as pessoas”, alertou, considerando que a Cáritas “não desiste de ninguém” e que isso difere que aquela organização de um outro grupo social. Por isso, acrescentou a importância de ir “às periferias, espaciais ou mesmo periferias de vida”.
O padre Carlos de Aquino aludiu ainda à importância da identificação dos agentes com os beneficiários daquele serviço. “Se não nos sentimos também transformados e tocados por aquele sofrimento, por aquela dificuldade, também nos devemos questionar sobre a caridade que estamos a fazer em nome da Igreja”, referiu, sublinhando a importância de “ver o outro sem julgamento”.

“Sirvo com humildade ou com uma superioridade disfarçada? Estou disponível para escutar ou apenas para agir, resolvendo problemas, mas não atendendo a pessoa e a verdade da sua dignidade?”, interrogou, acrescentando: “a gente fala dos pobres, até temos muitas ações de solidariedade e até damos com grande generosidade, mas não tocamos as feridas, não conhecemos o rosto, às vezes nem o nome”. “A caridade autêntica transforma não só quem a recebe, mas também quem a oferece. O amor também nos deve transformar. Exige saída de nós próprios, rotura com o egoísmo, abertura ao outro”, prosseguiu.
“Olhamos sempre para a pobreza como um problema”, observou, considerando que “a pobreza que cria miséria e exclusão é um problema”, mas que também deve ser entendida na “dimensão evangélica” “que a revela como uma bem-aventurança, um código de vida”. “Se não formos os primeiros pobres, evangelicamente falando, como é que podemos ter atenção ao pobre?”, questionou.
O sacerdote evidenciou ainda que “amar será sempre lutar pela justiça” e que “servir também é denunciar desigualdades e ajudar também a capacitar as pessoas”, desafiando a “um necessário compromisso com a justiça”. Por outro lado, o orador alertou para a “intolerância”, considerando que “as políticas atuais são perversas” porque “quase instigam” a ver os “refugiados e imigrantes”, como “um inimigo” e não “um irmão”.

O padre Carlos de Aquino alertou também que “não basta sentir compaixão”, mas “é preciso organizá-la” porque “o amor precisa de uma estrutura para chegar mais longe”. “A Cáritas não é apenas uma pastoral social, mas a expressão organizada do amor da Igreja”, sustentou, acrescentando, neste âmbito, a necessidade do trabalho em rede e de “passar de ações isoladas para uma comunhão pastoral”.
No entanto, com base na exortação apostólica do Papa Leão XIV Dilexit Te (amei-te), advertiu para o risco de “uma visão burocrática ou funcional da ação caritativa”, lembrando que o documento, “alerta que quando a caridade se reduz apenas a programas ou estruturas, também corre o risco de perder a alma”. O sacerdote disse ainda que “a Igreja é chamada a agir sempre com competência, mas sobretudo com o coração sempre próximo de quem sofre”.
O cónego Carlos de Aquino considerou ainda que “a pior discriminação que sofrem os pobres é a falta de cuidado espiritual”. “A gente fala muito pouco de Cristo no anúncio que faz da caridade”, lamentou. Criticando a “falta de espiritualidade”, alertou que “ativismo sem oração e serviço sem encontro com Cristo não é o serviço da Cáritas”.

No âmbito dos desafios que se colocam à instituição, o sacerdote alertou ainda para a “pobreza persistente e novas formas de exclusão”, acrescentando que “o desafio não é só combater uma pobreza tradicional, mas também dar atenção a estas novas pobrezas”.
Lembrou ainda “a crise da habitação e a precariedade de vida”, “as migrações e a diversidade cultural”, aludindo à “necessidade de acolher e integrar, respeitar os refugiados, os que vêm de fora”, as “desigualdades globais” potenciadas pelas “guerras” e “crises humanitárias” e a “crise ambiental” com as “alterações climáticas que agravam a própria pobreza e afetam sempre os mais vulneráveis”.
O orador referiu ainda “a sustentabilidade da própria ação da Cáritas” e questionou “como manter uma ação eficaz num contexto de recursos limitados” potenciado pela “redução de financiamento para a cooperação” e pela “necessidade de mais voluntariado”.







