No âmbito da Semana Nacional da Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC) 2026 – que está a decorrer desde o passado dia 16 deste mês e se prolonga até sábado, 23 de maio, sob o tema “EMRC: pontes e palavras de Encontro” – Folha do Domingo quis fazer uma breve entrevista ao professor mais novo e ao mais velho a lecionar a disciplina no Algarve:

1 – O que o levou a lecionar a disciplina de EMRC?
2 – Como descreve o papel da EMRC na escola de hoje?
3 – E que papel pode a disciplina ter na formação dos alunos?
4 – Quais os principais desafios com que a disciplina se depara presentemente?

Professor Jacinto Nunes

Jacinto Nunes, 32 anos, professor de EMRC desde 2020
A lecionar do 1º ao 8º ano no Agrupamento de Silves

1- A minha ligação à Educação Moral e Religiosa Católica nasceu da minha caminhada pessoal e da fé. Durante seis anos estive no seminário, uma experiência que me ajudou a crescer muito e a conhecer melhor a Igreja e as coisas de Deus.
Também tive pessoas que me marcaram muito, especialmente uma professora de EMRC e uma catequista, que também é professora de EMRC, e que sempre me ajudou a aprofundar a fé e a olhar para a vida de forma mais humana.
Com o tempo percebi que a minha vocação não passava por ser padre, mas senti que podia continuar a ajudar a Igreja e os jovens de outra forma. Foi aí que encontrei na EMRC uma maneira de acompanhar os alunos, transmitir valores e ajudá-los a refletir sobre a vida e o mundo que os rodeia.

2 – A Educação Moral e Religiosa Católica tem um papel muito importante na escola de hoje, porque ajuda os alunos a crescer não só a nível académico, mas também humano. Num mundo com tantos desafios, a EMRC cria espaço para refletir sobre valores, relações, respeito, solidariedade, sentido de vida e cuidado pelos outros e pelo planeta.
É uma disciplina que promove o diálogo, a escuta e o pensamento crítico, ajudando os jovens a compreender melhor a sociedade e a construir uma consciência mais humana e responsável. Mais do que dar respostas prontas, a EMRC procura acompanhar os alunos no seu crescimento pessoal e ajudá-los a encontrar sentido para a vida.

3 – A EMRC pode ter um papel muito importante na formação dos alunos, porque ajuda no crescimento integral da pessoa humana. Para além dos conhecimentos, contribui para formar jovens mais conscientes, responsáveis, solidários e capazes de respeitar os outros.
A disciplina leva os alunos a refletir sobre temas importantes da vida, como a amizade, a família, a justiça, a dignidade humana, o sentido da vida e o cuidado com a casa comum. Ao mesmo tempo, ajuda-os a desenvolver valores, espírito crítico e capacidade de diálogo, preparando-os não só para a escola, mas também para a vida em sociedade.

4 – A Educação Moral e Religiosa Católica enfrenta hoje vários desafios, mas também muitas alegrias e esperanças.
Uma das maiores dificuldades é o facto de, muitas vezes, a disciplina ainda ser vista como menos importante ou apenas ligada à religião. Além disso, vivemos numa sociedade muito rápida e marcada pela falta de diálogo, o que torna mais difícil levar os jovens a parar para refletir sobre valores, sentido da vida e relações humanas.
Ao mesmo tempo, há muitas alegrias. A EMRC permite criar uma relação próxima com os alunos, ouvir as suas preocupações e ajudá-los a crescer como pessoas. É muito gratificante perceber que, através das aulas e dos projetos, os jovens se tornam mais atentos aos outros, mais conscientes e mais humanos.
A maior esperança é continuar a mostrar que a EMRC tem um papel importante na formação integral dos alunos, ajudando-os a construir valores, espírito crítico, respeito e sentido de responsabilidade num mundo que precisa cada vez mais de humanidade.

Professor José Martins

José Martins, 64 anos, professor de EMRC desde 1997
A lecionar do 5º ao 9º ano no Agrupamento Padre João Cabanita de Loulé

1 – A primeira vez que lecionei a disciplina foi no ano letivo de 1997-1998, na Escola EB 2,3 Jacinto Correia, em Lagoa. Fui a convite do pároco, padre José Nunes, para substituir a professora que nesse ano saiu para fazer formação. Nunca tinha pensado em lecionar. Tinha saído do Seminário recentemente e trabalhava nos restaurantes de praia em Portimão de onde sou natural. Foi uma experiência fantástica e acho que despertou ali esta vocação do ensino. Mas não continuei. Regressei para o Seminário, pois as dúvidas relativamente à minha vocação ao sacerdócio mantinham-se. Só voltei a lecionar em 2005, em Olhão, na ainda Escola João da Rosa e depois passei por quase todas as escolas e agrupamentos desde Silves até Tavira.

2 – A escola tem por objetivo ajudar os alunos a ganharem um lugar no mundo, formando-os. Faz falta, é necessário e é bom, mas não o suficiente ou o mais importante na vida. Ser professor de EMRC é, no fundo, ser o mensageiro numa escola do mais importante da vida. E é também ser aquele que ajuda os alunos e não só eles, a dar passos que nos fazem sair de nós mesmos em direção ao outro.
Falar ou manifestar pelo menos a existência de Deus na escola de um modo positivo e assertivo, com verdade, mais nenhuma disciplina ou atividade o faz. A EMRC procura mostrar que há um horizonte muito mais amplo e muito mais importante do que somente o de uma formação académica para uma vida de sucesso.

3 – Considero a disciplina a mais importante na escola por ser aquela que mais relacionada está com o mais importante na existência. A parte moral dos valores positivos da justiça, do trabalho, da amizade, do bom comportamento, da liberdade, da assertividade e até da solidariedade e ajuda mútua, etc, é transversal a todas as outras disciplinas, de um modo mais direto ou indireto. Porém, a questão religiosa, a questão de Deus – que na sociedade (incluindo na Escola) é negada ou remetida para o foro privado – é colocada em evidência apenas pela presença da EMRC que é uma disciplina aberta a todos. Há alunos cristãos, pagãos, muçulmanos, evangélicos, budistas, etc, e há que ter respeito por todos. A EMRC pretende apenas abrir horizontes novos na vida dos alunos e cativá-los para terem Deus presente nas suas perspetivas e perceberem o modo como os cristãos veem o mundo, a vida e se posicionam perante ela e o projeto de felicidade que Deus tem para todos.

4 – Os desafios são muitos, por isso o professor de EMRC tem de ser um “especialista” em todas as matérias, desde as ciências empíricas até às línguas e inclusive às artes. Tem de saber cativar e fazer os alunos abrirem-se a estes horizontes mais amplos, ou seja, a Deus. Os métodos antigos, hoje já não são assim tão eficazes e é difícil arranjar novas metodologias para “ensinar” as coisas de sempre.
O maior desafio da disciplina talvez seja aproveitar o de espaço lúdico e de são convívio, que só a EMRC proporciona e que tanto atrai os alunos, para os levar mais longe.
Outro desafio é o da distinção entre a Catequese e a EMRC porque não se trata do mesmo e a EMRC nunca poderá dar aquilo que a catequese dá através dos sacramentos.

Diocese do Algarve acolheu o Encontro Interdiocesano de Professores de EMRC da zona sul