O painel sobre “A Solicitude Pastoral na Diocese do Algarve” do Encontro das Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) canónicas, Centros Sociais Paroquiais e Santas Casas da Misericórdia, que teve lugar no passado dia 21 de maio na Casa de Retiros de São Lourenço do Palmeiral, exortou à inclusão, ao encontro e à autonomia.

O assistente do Serviço Pastoral a Pessoas com Deficiência lembrou que os internados têm o direito a assistência religiosa conforme regulamentação do Estado, respeitando a liberdade de culto e consciência e a concordata com a Santa Sé. “A Pastoral da Saúde apresenta uma visão cristã integral do homem: corpo, alma e espírito, preocupando-se com cada uma destas dimensões, sem nunca as separar, numa unidade biopsicossocial, cultural e espiritual, desde a sua conceção até à morte natural. Neste contexto do cuidar da pessoa como ser irrepetível e único, porque todos somos criados à imagem e semelhança de Deus, assim acontece também a Pastoral da Pessoa com Deficiência, que foi criada pela Conferência Episcopal em 2010 e integrada na Pastoral Social”, afirmou o diácono Rogério Egídio.
Aquele responsável explicou que a Pastoral da Pessoa com Deficiência “visa promover a inclusão plena, a espiritualidade e a participação ativa de pessoas com deficiência na vida da Igreja”. “Foca-se em eliminar barreiras, valorizar a dignidade de vida e promover o protagonismo das pessoas com deficiências nas comunidades”, completou, acrescentando que, na Diocese do Algarve, foi criada a 3 de dezembro de 2015, Dia Internacional da Pessoa com Deficiência.

O diácono Rogério Egídio constatou que frequentemente se ouve “dizer que é necessário dar um lugar na Igreja às pessoas com deficiência”. “Na verdade, penso que não se trata de dar um lugar, mas de remover os obstáculos que impedem a sua participação plena”, observou, considerando que “essa seria a verdadeira inclusão”. “Trata-se, antes de tudo, de justiça: reconhecer em cada ser humano o lugar que Deus lhe deu e que lhe é retirado pelos obstáculos das barreiras físicas e mentais do preconceito”, sustentou, acrescentando que “esta visão de inclusão deve encontrar a sua aplicação” também “na sociedade civil, nomeadamente nas empresas e nos setores cooperativos e sociais”.
Aquele assistente referiu ainda que, “neste momento, a equipa diocesana está a ser renovada”. “Estamos a contar com a participação de um sacerdote num curso de língua gestual portuguesa”, adiantou, explicando ser “necessário que haja um sacerdote que tenha esta formação para atender não só em Faro, mas onde quer que seja preciso atender estas pessoas, porque também eles são filhos de Deus”. “Estamos também a pensar em alargar esta formação a jovens, para que se possa dar continuidade a este trabalho”, revelou.
A representante da Pastoral do Turismo afirmou que “a Igreja tem uma palavra muito particular neste tempo em que o turismo se torna tão massivo”.
Revelando que “Fátima é, provavelmente, neste momento o santuário da Europa que tem maior número de visitantes”, Sandra Moreira reconheceu que a massificação turística é um desafio à criação de um verdadeiro encontro e à gestão da sustentabilidade. Neste sentido, exortou os párocos a juntarem-se àquele setor para, juntos, refletirem na melhoria de práticas e desafiou também ao “cuidado com o ambiente”.
Aquela representante da Pastoral do Turismo desafiou as instituições a verem “no turismo um espaço de encontro e de fraternidade” e no turista “um irmão”. “Ele não é um estranho. Ele pode ser um turista germânico, de origem eslava ou o que seja, pode ter uma confissão religiosa diferente da nossa, até cristã. Pode ser luterano, ortodoxo, muçulmano ou hindu, mas é um irmão”, defendeu Sandra Moreira, lembrando que “o turismo não é meramente uma atividade comercial e económica”, mas “uma atividade em que a hospitalidade não pode ser um adereço” e “possibilidade de verdadeiro encontro”.
Aquela interveniente considerou que “o turismo tem que ser mais ético”, com “respeito pelas comunidades de encontro”. “E quando eu falo das comunidades de encontro, falo dos turistas que vêm, mas também dos anfitriões que os acolhem. E nós todos, católicos, acolhemos muitos turistas nas nossas Eucaristias, nos nossos espaços museológicos, etc. E, portanto, temos que ter a noção desse respeito pelo encontro e pela diversidade de culturas que nos chegam, diversidade de vida que nos vem”, prosseguiu, acrescentando: “temos de nos lembrar que cada uma das visitas que recebemos de um irmão nosso é uma relação, e que toda a relação pede ética, e toda a ética cristã começa na capacidade de acolher o outro como um dom de Deus”.

Sandra Moreira disse sustentou que “acolher e proporcionar um encontro com o turista é ser testemunha”. “Nós não recebemos só turistas católicos e praticantes. Recebemos turistas de outras religiões, de outras culturas completamente diversas da nossa, mas podemos abrir portas”, afirmou, para citar o Papa Leão XIV quando referiu que “o turismo é uma porta para a evangelização”. “Logo, também o nosso testemunho de caridade, de capacidade de respeitar o outro, de respeitar a sua cultura, nos está a transformar em portadores e testemunhas da mensagem de Cristo”, completou, acrescentando: “é necessário transmitirmos a nossa identidade judaico-cristã”.
Sandra Moreira exortou ainda ao “combate para a valorização do trabalho humano”. “No organismo que tutela o turismo na Conferência Episcopal Portuguesa, que se chama Pastoral do Turismo – Portugal, estamos a desenvolver um trabalho cada vez mais intenso no sentido de trabalharmos, por exemplo, com os patrões, com as associações patronais, para que na área do turismo possa haver justiça social, justiça para os trabalhadores e, no caso muitas vezes, para os trabalhadores que são estrangeiros”, anunciou.
Por fim, apelou às Misericórdias que “têm uma história e um património riquíssimo” que “é uma mais-valia também para o turismo” a colocá-lo ao serviço dos demais. “A leitura desse património também une a questão da caridade, da memória, da arte e da fé ao serviço dos demais”, concluiu.
O presidente do Secretariado Regional da União das Misericórdias Portuguesas respondeu ao repto, garantindo que o Fundo Rainha Dona Leonor foi “direcionado unicamente para a questão do património, deixando as comparticipações estatais, como seja o PARES e outros programas, para as respostas sociais”. “Obviamente que é uma preocupação porque o património não é nosso, é de todos, e ter equipamentos, igrejas e edifícios e também documentos tão valiosos são um património do nosso país”, disse Armindo Vicente.

Aquele responsável realçou na sua intervenção a importância da “autonomia das instituições”. “Sabem porque é que as Misericórdias aguentaram 500 anos? Passaram pelo Marquês de Pombal, por aquelas questões das comissões administrativas no tempo do Salazar que, quando não gostavam de alguém, punham uma comissão administrativa e mudavam a direção. Qual foi o cerne? Foram as obras de misericórdia. As obras de misericórdia o que é que dizem? Todas elas começam num verbo e têm sempre como destino o outro. E isso é inquebrantável”, referiu, acrescentando que isso não é sequer exclusivo das Misericórdias, mas de todas as restantes instituições sociais da Igreja Católica.
Aquele dirigente aconselhou aquelas instituições do setor social a não temerem qualquer intromissão e concentrarem a sua atenção noutro aspeto. “O que temos de fazer é preocupar-nos em fazer boa gestão, termos processos transparentes, limpos e eficazes dentro das nossas casas. Outra coisa também que temos que fazer é preocuparmo-nos que se pratique solicitude no pequeno ato: quando se limpa uma pessoa, quando limpamos o espaço, quando nos relacionamos com o outro”, afirmou.
Armindo Vicente desafiou também ao trabalho em rede. “Às vezes fazer bem é delegar nos outros o destino da resposta àquela pessoa. É articular. E basta só isso. Às vezes estamos a assumir responsabilidades que não temos que assumir”, advertiu, lamentando, por outro lado, que as instituições não saiam “da sua comodidade” para “ajudar alguma instituição ao lado” que precise.
Aquele responsável, que é também provedor da Misericórdia de Vila do Bispo, lamentou, por outro lado, quem tem de assumir responsabilidades e não as assume. “Um dirigente que não diz o que deve dizer, quer aos familiares, quer aos seus funcionários ou na organização da instituição, arrume as botas e vá-se embora. Não está lá a fazer nada, está a ser um empecilho para essa instituição. Não está a ser cristão porque não está a assumir, é um talento enterrado que não serve para nada”, criticou, explicando que “as Misericórdias do Algarve têm mais de 3.000 funcionários” e que “nunca foram tão grandes como agora”.
O painel contou ainda com a participação de Carlos de Oliveira, presidente da Cáritas Diocesana do Algarve, e de Corinna Cappozzo, responsável do Setor Diocesano da Pastoral Prisional.










