O Cabido da Sé de Faro adquiriu recentemente “um exemplar da primeira edição da obra De Regis Institutione et Disciplina de D. Jerónimo Osório”, bispo do Algarve entre 1564 e 1580 que concretizou em 1577 a mudança da sede do bispado de Silves para Faro.
“Trata-se de um livro em ótimo estado de conservação, encadernado em pergaminho, e que apresenta marcas da censura decretada pela Inquisição espanhola”, explica em artigo de investigação o historiador Tomás Pinto Bravo, acrescentando que a publicação – cujo título na tradução de António Guimarães Pinto, publicada pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda em 2005 – é “Da educação e ensinança do Rei”, se destaca como “uma das obras mais importantes” da carreira literária de D. Jerónimo Osório.
“Se o tratado De Iustitia, cuja primeira edição é de Veneza e remonta a 1564, é considerada a obra-prima do teólogo, o diálogo De Regis Institutione et Disciplina, saído em Lisboa em 1572, pode ser considerado a obra-prima do humanista. E isto porque, nela, o autor espelha o ideal da educação mais completa e perfeita”, acrescenta Tomás Pinto Bravo.
Lembrando que “a ninguém mais do que ao rei é exigida uma preparação completa e versátil”, aquele investigador de Tavira, licenciado em História pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, realça que “quando se fala de um manual para educação do rei, fala-se de um «género literário» que vai muito além, nos padrões renascentistas, do eventual contributo direto na formação de D. Sebastião que poderia a vir ter”. “A obra pedagógica de D. Jerónimo Osório é um manual da cultura perfeita, da educação completa, uma reflexão ainda atual sobre os benefícios e contrariedades que o exercício da aprendizagem comporta”, complementa.
O historiador, doutorando em Filologia e História do Mundo Antigo na Università degli Studi “La Sapienza” de Roma, refere que “a obra teve notável sucesso na Europa”, tendo sido editada também na Alemanha, em França e em Itália. Tomás Pinto Bravo destaca que “uma das particularidades do exemplar da Diocese do Algarve, além da carta do tipógrafo e da errata (que os exemplares das Bibliotecas Nacional de Portugal e Municipal do Porto não possuem), é o facto de conservar as censuras da Inquisição”.
Refere ainda que D. Jerónimo Osório foi um “autor de profícua produção intelectual” que “escreveu um total de vinte obras, dez publicadas em vida, e outras dez editadas póstumas, sobre temas de filosofia moral e política, teologia e exegese”. “Foi o mais lido, editado e prefaciado autor português até à segunda metade do século XVI, com um total de 152 edições até 1663, incluindo traduções várias para francês, inglês e holandês”, sustenta.
Tomás Pinto Bravo considera ser “de louvar o gesto benemérito da Diocese do Algarve, de adquirir e deixar à disposição de todos os interessados um livro que é não só um testemunho material de uma das figuras mais importantes da sua história, como a primeira edição de um diálogo que se quer ler e compreender com detalhe e com cada vez maior clareza”.
D. Jerónimo Osório (1506-1580), homem erudito e um dos principais nomes do humanismo cristão do Portugal de Quinhentos, foi bispo teólogo, filósofo, moralista e exegeta e estudou nas melhores escolas do seu tempo, tendo passado por Salamanca, Paris, Bolonha e Coimbra, onde viria a lecionar.
Edição rara de D. Jerónimo Osório adquirida pela Diocese do Algarve






