Um dos casais católicos das duas dezenas sem possibilidade de realizar novo casamento canónico, que percorreram o caminho de “discernimento” proposto pela Igreja, e que a Diocese do Algarve acompanhou e admitiu aos sacramentos da Reconciliação e da Eucaristia, salienta sobretudo “o papel que a Igreja continua a ter junto dos seus filhos”.

“Não se trata tanto de salientar o nosso sofrimento pessoal decorrente da nossa situação conjugal, mas de reconhecer que o saudoso Papa Francisco, interpretou muito bem o sentir de muitíssimas famílias, conferindo um olhar de misericórdia da Igreja, que nos permite, apesar de tudo, sermos reintegrados na Igreja como seus filhos”, realçam Ana Cristina e Viriato Fernandes em testemunho ao Folha do Domingo que, no passado dia 12 deste mês, viveram um acontecimento de particular felicidade por Viriato ter podido voltar a comungar 33 anos depois de se ter divorciado.

O regresso à comunhão foi um ponto alto no caminho de “discernimento” iniciado em 2024, acompanhado pela Igreja, a que se sentiram impelidos a iniciar em conjunto, inspirados pelas palavras do Papa Francisco no encontro em 2023 na Universidade Católica em que foram convidados a participar. “…não tenhais medo. Jesus conhece o coração e a vida de cada um de vós…”, acrescentaram, tentando relembrar as palavras proferidas pelo falecido pontífice.

Nascidos os dois no seio de famílias católicas, ambos frequentaram a catequese e completaram a iniciação cristã. Enquanto Ana Cristina se manteve solteira, Viriato uniu-se pelo sacramento do Matrimónio com a primeira esposa, de cuja união nasceram dois filhos que também foram batizados e iniciados na mesma fé católica, mas que acabou por resultar em divórcio.

Tendo continuado solteira, Ana Cristina acabou por conhecer Viriato sete anos após o seu divórcio, já no ano 2000. Um ano depois, após terem começado a viver em união de facto, Ana Cristina teve a oportunidade de fazer uma “experiência forte”, em virtude da sua participação nos encontros internacionais da Pastoral da Saúde de 2001 a 2004, que realça como “fóruns reconhecidamente singulares”. Cruzada com o percurso de acompanhamento de uma personalidade de relevo da sociedade civil portuguesa, essa experiência abriu-lhe um “caminho de escuta, aprofundamento espiritual e adesão”. “Naquela época aprofundava-se a catequese sobre o «Santuário da Vida» e a missão da família no acolhimento incondicional. O culminar dessa caminhada traduziu-se na bênção de receber a Sagrada Comunhão das mãos do Papa São João Paulo II no Vaticano”, recorda.

Seguiu-se um longo período de acompanhamento do casal pelo já falecido sacerdote responsável nacional pela Pastoral da Saúde, “feito de espera, dúvidas e perseverança e oração”, cientes de que “Deus nunca abandona os seus filhos”. “Guardamos no nosso coração com gratidão a solicitude apostólica deste momento de graça e renovação interior. Guardamos ainda o itinerário formativo que ajudou a reencontrar a esperança, à medida que aprofundávamos a nossa situação”, desenvolveram.

Mesmo quando há 11 anos o casal se mudou de Lisboa para o Algarve, Ana Cristina prosseguiu a sua caminhada, sendo então acompanhada nessa opção por Viriato motivado pelo impulso sentido no encontro com o Papa Francisco. Após 23 anos de vida em união de facto, casaram civilmente a 08 de dezembro de 2024 e, acompanhados pelo cónego César Chantre, seu pároco, fizeram nos últimos dois anos uma caminhada inspirada na ‘Amoris Laetitia’ (A Alegria do Amor).

O Papa Francisco propõe naquela sua exortação apostólica — publicada a 08 de abril de 2016 em resultado das propostas de duas assembleias do Sínodo dos Bispos (2014 e 2015) e dos inquéritos aos católicos de todo o mundo sobre a família — um caminho de “discernimento” para os católicos divorciados que voltaram a casar civilmente, sublinhando que não existe uma solução única para estas situações.

Ana Cristina considera “muito bonito” o “caminho que a Igreja abriu formalmente com a ‘Amoris Laetitia’”. “Era necessário encontrar um mecanismo. Sabendo que o casamento católico é indissolúvel, existiam milhares de casais em enorme sofrimento porque a vida é dinâmica e, a par disso, existem pessoas de bem e de boa vontade que procuram fazer as coisas bem feitas, mas ficavam na Igreja numa posição… no limbo. E o Papa vem-nos repescar. Como diz a declaração que o senhor bispo fez: «reintegrados na Igreja». Compreendemos melhor que esta semente antiga, confirma agora, a nossa vocação familiar como espaço primordial, onde o cuidado, a comunhão e o amor se tornam quotidiano”, declarou, acrescentando que no dia da comunhão de Viriato rezaram também pelo Papa São João Paulo II “que também abriu este caminho na Igreja”.

Ana Cristina disse ainda que a exortação pós-sinodal veio “tornar o processo mais explícito também no seio das comunidades diocesanas”. “Permite que seja tudo mais claro e mais transparente para todos”, refere, testemunhando que no seio da Igreja “havia alguma controvérsia” em relação aos casais que vivem uma segunda união. “Controvérsia natural porque, como era algo que confidencial entre nós e o sacerdote que nos acompanhava e um processo do foro interno, obviamente era suscetível de muitas interpretações legítimas também de outros nossos irmãos na fé”, complementa.

Aquela católica realça ainda o facto de a Igreja algarvia “ter vindo a fazer paulatinamente o seu caminho”. “A nossa Igreja diocesana ter números para apresentar é muito importante. É bonito perceber que numa diocese pequena como a do Algarve se conheçam 20 casais que fizeram este percurso e é muito importante que mais pessoas possam saber que têm este caminho que é preciso fazer com muita profundidade, seriedade, sem escândalo público, e por isso é que é um bocadinho mais longo”, referiu.

O casal, foi sendo integrado em ações pastorais, no quadro do caminho de “discernimento”. Há dois anos, Viriato foi convidado para fazer parte da equipa Pastoral Prisional que visita os Estabelecimentos Prisionais de Faro e Olhão, uma vez que é psicólogo clínico. Por ser próximo do Movimento dos Focolares, o casal iniciou também formação que o levará a ser membro das ‘Famílias Novas’, um ramo daquela organização que trabalha com as famílias. Participaram no Jubileu das Famílias em Roma, de 30 de maio a 01 de junho do ano passado.

D. Manuel Quintas com Viriato e Ana Fernandes ao centro e os padrinhos do casal a ladeá-los – Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

O casal destaca ainda o papel do bispo diocesano no processo. “Falando-nos também de uma forma muito fraternal da sua caminhada na fé, incentivou-nos na nossa caminhada como casal. O senhor D. Manuel ajudou-nos muito a perceber que é preciso um compromisso maior na sociedade civil e na vida da Igreja como forma de aprofundamento deste caminho que fazemos juntos. É muito importante saber que aquele olhar de pai e de pastor nos ajudou e a tantos outros casais, cada um no seio dos seus silêncios, a poder reencontrar-se na Igreja”, referiu Ana Cristina, manifestando o sentido de gratidão daqueles casais. “Agradecimento destas pessoas que foram reintegrados porque é uma questão muito fraturante e, quando nos sentimos um bocadinho de fora, faz sofrer muitíssimo”, precisou.

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