A inteligência artificial pode constituir uma ferramenta importante para melhorar a intervenção social, facilitar a identificação de necessidades e reforçar a articulação entre instituições, mas não poderá substituir a relação humana que está no centro da ação social e da caridade. Esta foi uma das ideias sublinhadas por D. Roberto Mariz, presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social e bispo auxiliar do Porto, numa conferência promovida ontem, 29 de outubro, pela Cáritas Diocesana do Algarve, no Seminário de São José, em Faro.

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Na reflexão sobre a primeira carta encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica humanitas (Humanidade Magnífica), dedicada à proteção da pessoa humana na era da inteligência artificial, o responsável episcopal identificou algumas possibilidades concretas de aplicação desta tecnologia ao trabalho social, nomeadamente no apoio aos diagnósticos, na leitura e interpretação de dados e no reforço do trabalho em rede, permitindo respostas mais rápidas e abrangentes às necessidades das populações.

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Contudo, deixou claro que estas possibilidades não podem fazer esquecer a especificidade da intervenção social, que exige proximidade, atenção e capacidade de estabelecer relações com as pessoas.

“A IA não substitui a caridade; não tira lugar e importância à Caridade. Exigi-a”, afirmou, defendendo que a tecnologia deve ser colocada ao serviço de uma ação social verdadeiramente centrada na pessoa.

Neste sentido, D. Roberto Mariz chamou a atenção para aquilo que distingue a inteligência humana dos sistemas artificiais. Estes podem processar grandes quantidades de informação e reproduzir comportamentos, mas não possuem experiência afetiva, relacional ou espiritual, nem conhecem a compaixão, a misericórdia, o perdão ou a esperança na mudança de cada pessoa.

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São precisamente estas dimensões que considera indispensáveis no acompanhamento de quem vive situações de fragilidade, pobreza ou exclusão. A capacidade de reconhecer a dignidade de cada pessoa não pode ficar dependente de critérios automatizados que, sob uma aparente neutralidade, podem reproduzir preconceitos e novas formas de marginalização.

O bispo auxiliar do Porto propôs, por isso, que a reflexão sobre a inteligência artificial não se limite à dimensão cognitiva, baseada no tratamento e cruzamento de dados, mas reconheça outras formas de inteligência que caracterizam a humanidade: a inteligência coletiva, espiritual, afetiva e relacional, da fragilidade e da compaixão.

A tecnologia poderá, assim, contribuir para melhorar a qualidade das respostas sociais, desde que permaneça subordinada aos valores humanos e não substitua a responsabilidade das instituições e dos profissionais.

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Esta preocupação esteve presente ao longo da conferência, subordinada ao tema “Magnifica humanitas. A dignidade humana permanece, a tecnologia muda”, que contou com a participação do bispo do Algarve, D. Vitorino Soares, e de mais 81 pessoas.

Na conclusão da sua intervenção, D. Roberto Mariz defendeu que o grande desafio colocado pela inteligência artificial é, acima de tudo, antropológico: “mais humanos no amor e na compaixão”, com “a pessoa no centro e não a tecnologia”.

A tecnologia deve ser, nas suas palavras, “servo e não senhor”, constituindo um instrumento ao serviço de todos e da construção de uma humanidade mais digna e solidária.

D. Roberto Mariz alerta para os riscos da inteligência artificial e defende a dignidade humana como critério fundamental