A escola está muito desinteressante, com toda a burocracia e escassez de recursos que se conhece. Os alunos estão, muitos deles, distanciados dos interesses escolares, muitos também, no limiar de sobrevivência, eles e famílias, fazendo-me lembrar aquela frase, “quem anda descalço não olha para o céu”, numa alusão ao facto de que enquanto as necessidades básicas não são suprimidas, não pode haver anseio de conhecimento, curiosidade, ou até energia para mais. Há uma visão muito assistencialista da escola que corre o sério risco de se descaracterizar e deixar de cumprir um dos seus objetivos: ensinar. Depois, os alunos interessados, eloquentes, curiosos, briosos, ficam muitas vezes para trás, tal é a pressão para a ajuda e canalização de recursos para os outros, os que têm dificuldades, os que precisam de apoios. A escola tem de ser para todos e estes, os que têm famílias estruturadas, interessadas, parceiras e cúmplices da ação da escola e que são, por isso, alunos melhores, não podem ficar esquecidos.

É difícil este equilíbrio, dificuldade à qual se junta a escassez de recursos e a sobrecarga burocrática e administrativa dos professores. Mas isto, já toda a gente sabe e não é disto que quero falar aqui.

Pese embora este cenário, que é generalizado, há pérolas, muitas. Há colegas meus que fazem a diferença, marcam positivamente, têm uma leveza e forma de estar em turma que marca de forma bonita, suave, mas duradoura, os miúdos. E eu tenho, às vezes, a grandessíssima sorte de assistir a isso ao vivo e a cores.

Não será só pela experiência de trabalho. Não será só pelo conhecimento das matérias que, aliado ao traquejo lhes dá segurança. Não. É um traço de personalidade, uma matriz de funcionamento que faz mesmo a diferença. E o mais giro é que é através de coisas que não são mensuráveis, não são palpáveis, não se contabilizam em grelhas, gráficos, ou comparações. Sentem-se, afirmam-se, marcam. E vê-se na cara dos miúdos, na forma como o corpo e a expressão reagem àquela forma de estar e de comunicar. Hoje tive um desses momentos, em que assisti de “camarote” a esta super aula. E participei e fui cúmplice. Falava-se de emoções e de não as guardar, de as deitar para fora das “caixinhas” que todos temos, porque com as emoções se aprende e se cresce e então, é preciso conhecê-las. Também se falou, na mesma aula, de pronomes e verbos, de regras de gramática e conjunções. Coube tudo. E muito bem. É que a escola também tem de ser isto: um sítio onde se gosta de estar, onde os miúdos se sentem ouvidos e envolvidos e onde se acredita que falar destas coisas também é conhecer: a vida, as coisas, o mundo. Assim, à boleia, umas coisas das outras.

P.s – Quero agradecer à colega que me deu este hoje, este “bombom” e a todos os outros que, como ela, tornam a escola mais doce.