É mais cómodo. A sério. Uma pessoa acorda, lava os dentes, tenta perceber se ainda há leite no frigorífico e, antes mesmo do café, já há alguém disponível para lhe explicar o que pode ver, pensar, comprar, dizer, defender e — se tiver azar — sentir.
É um serviço público. Quase uma ama-seca moral com carimbo.
Miguel Milhão, convenhamos, não é propriamente o meu santo de cabeceira. Tudo me separa dele. A pose de imperador de ginásio, a fé inabalável no dinheiro como se fosse uma terceira pessoa da Santíssima Trindade, a frase “sou incapaz de ter medo”, que devia vir acompanhada de um copo de água e de alguém a perguntar: “Miguel, está tudo bem?”
Também não me comove a ideia de alguém se colocar, nem que seja por provocação, numa prateleira onde aparecem Jesus Cristo, Hitler e Estaline. Há comparações que não são ousadas; são apenas falta de alguém à mesa que diga: “Come a sopa e cala-te um bocadinho.”
Mas uma coisa é Miguel Milhão ser Miguel Milhão.
Outra coisa é acharmos que, por ele ser Miguel Milhão, já não pode pagar um anúncio.
E aqui começa o circo.
Um vídeo antiaborto passa na televisão. A ERC entende que violou a lei e avança com contraordenações. Milhares de queixas. Um pequeno concílio nacional da suscetibilidade organizada. O país que aguenta anúncios de apostas a prometerem emoção, adrenalina e prémios enquanto destrói famílias em prestações suaves não consegue suportar um anúncio a dizer que talvez seja melhor deixar alguém nascer.
Curioso, não é?
Publicidade ao jogo online? Venha ela. Com jogadores famosos, luzes, música épica, bónus de boas-vindas, quase no Credo se nos distraímos. Casas de apostas no futebol, nos intervalos, nas camisolas, nos painéis, nos telemóveis. Isso é mercado.
Mas um anúncio pró-vida?
Alto lá. Perigo para a democracia. Risco para a saúde pública. Uma ameaça à soberania intelectual do cidadão sentado no sofá com comando na mão e batatas fritas no colo.
Eu não conheço ninguém que seja pró-morte. Conheço pessoas favoráveis à IVG, sim. Pessoas sérias, com dúvidas, histórias, feridas, medo, circunstâncias difíceis. E quando lhes pergunto se acham que o aborto deve substituir a contracepção, respondem quase sempre: claro que não. Porque a vida real é mais decente do que os slogans.
Mas parece que já não sabemos viver com argumentos.
Queremos protecção contra ideias.
Não contra vícios, não contra dependências, não contra a miséria moral de transformar miúdos em apostadores antes de saberem preencher o IRS. Contra ideias. Contra uma frase que nos incomoda à hora do jantar.
E depois chamamos a isto liberdade.
Liberdade, mas com autorização prévia. Consciência, mas supervisionada. Debate público, mas só se a frase vier embrulhada no papel certo, com laço aprovado por quem sabe melhor do que nós o que nos convém.
Eu não quero viver num país onde Miguel Milhão é tratado como profeta. Deus me livre.
Mas também não quero viver num país onde precisamos de licença para dizer que uma vida merece nascer.
Porque hoje calam o anúncio que incomoda os meus adversários.
Amanhã calam o que incomoda os meus amigos.
Depois, quando dermos por isso, já ninguém pensa nada. Apenas esperamos, obedientes, que alguém da ERC, sentado numa cadeira muito ergonómica, nos diga o que é permitido sentir às 21h37.








