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Estudante de Ciências Biomédicas, Dina Rochate, a jovem de 20 anos da paróquia da Mexilhoeira Grande que foi, de 14 de Julho a 24 de Agosto, em missão para a selva do Peru colaborar com uma equipa da pastoral vocacional da província Mater Carmelli das Carmelitas Missionárias numa missão em Nuevo Lima e Nuevo Progresso, explicou à FOLHA DO DOMINGO como correu a experiência.

FOLHA DO DOMINGO – Foste bem acolhida quando chegaste ao Peru?
Dina Rochate
– Muito bem acolhida! Quando chegámos à casa provincial das irmãs Carmelitas Missionárias tínhamos muitas irmãs à nossa espera no refeitório com um grande cartaz, com fotos do Peru, que dizia “Bem-Vind@s, o Peru vos espera!”.

O alojamento foi em casas de camponeses e na sede das irmãs Carmelitas Missionárias?
Durante o tempo que estivemos na selva, a primeira semana, foi passada num povo – Nuevo Progresso –, que nos acolheu e nos deu dormida na sua casa comunal: um salão comum que todos ajudaram a construir (contribuindo com diferentes materiais), que funcionava como salão de festas, de reuniões das diferentes associações e até de prisão.
Nas semanas seguintes, em Nuevo Lima, onde as Irmãs têm uma pequena casa, ficámos alojados na casa de uma família que construiu dois espaços, terminando-os mais depressa, a tempo da nossa chegada. Mas em Nuevo Lima todas as refeições eram feitas na casa das irmãs.

Como foi a integração na cultura local?
Foi feita gradualmente, consoante as realidades que nos surgiam. Mas as pessoas eram muito simpáticas e explicavam-nos toda a história e tradição do que encontrávamos.

Trabalhaste sobretudo com mulheres e crianças numa altura de férias lectivas, concretamente na área em que te estás a formar… Como foi essa experiência?
A primeira semana de trabalho, em Nuevo Lima, durante as tardes, foi a que coincidiu com as férias lectivas, isto é, as Festas Pátrias. Aí, trabalhei no “botequín” (como pequeno centro de saúde) com mães e crianças, avaliando o seu peso e a sua altura e relacionando-os com a nutrição e algumas doenças. Senti que, para elas, foi algo importante, uma vez que lá não há muita informação acerca de cuidados com os bebés e alimentação equilibrada. Foram colocadas muitas questões importantes, algumas delas que pensamos serem demasiado básicas, mas acerca das quais nunca tinham falado.
Nesse mesmo povo, trabalhava com crianças do colégio, pelas manhãs. Aí, fiquei encarregada do desporto e da nutrição! Uma vez que tinha grupos desde os 4 aos 11 anos, tentei sempre conjugar a aprendizagem com jogos diferentes para cada idade, o que resultou muito bem!
Em Nuevo Lima, povo maior e mais desenvolvido (quase cidade), durante as manhãs, trabalhava no colégio com alunos de primária, onde, em coordenação com os professores, falava de nutrição e doenças relacionadas com a má alimentação. Durante as tardes trabalhava com alunos do secundário na área do desporto.
Mais tarde, organizava a oração diária com músicas de Taizé, principalmente para os miúdos, várias dinâmicas e exercícios de oração, o Rosário e também as Vésperas e, logo a seguir, terminava o dia ensinando teoria musical e ensaiando o coro que foi formado.
Foi uma experiência muito forte e realmente recompensadora porque foi dada importância a temas que são relevantes na vida daquelas pessoas. Foi também reconfortante testemunhar toda a motivação e dedicação que cada pessoa tinha para aprender e partilhar novos conhecimentos. Todas as comunidades tinham desejo de aprender e humildade de querer ser ensinadas por outros, alguns até pessoas mais novas. Foi algo muito bonito e com muito significado!

Tiveste algum percalço?
Não. O pior foi as picadas dos mosquitos que davam comichão interminável! Mas, de resto, correu tudo sem problemas.

Ias preparada para a realidade que encontraste?
Sim e não… Avaliando esta experiência, penso que me fui adaptando de uma forma gradual às realidades que ia encontrando, umas mais fortes que outras. Penso que essa adaptação foi possível graças à preparação que tinha feito em casa e nos encontros organizados. No entanto, há sempre situações que ouvimos falar que acontecem, mas que só quando as vivenciamos de perto é que nos damos conta dos seus motivos e da sua complexidade. E para essas situações não sei se haverá preparação possível…

Como é a religiosidade do povo peruano?
É muito bonita! A sua fé é vivida com alegria e a religiosidade é cativante e contagiante! São muito dedicados a Deus e à oração. São perseverantes ainda que muitas vezes não tenham sacerdote e que, por isso, só celebrem Eucaristia duas vezes por ano.
Testemunhei que devemos viver a nossa fé com cabeça erguida e com a alegria de pertencer à família de Deus, anunciando-O aos que nos rodeiam. Parece-me que em Portugal, nas nossas igrejas e nos nossos jovens, falta um pouco dessa alegria. Na verdade, isso também está relacionado com a cultura dos povos. No entanto, parece-me que vivências autênticas do amor de Deus, testemunhadas pela ajuda ao próximo, podem-nos ajudar a recuperar essa alegria.

A língua foi também um obstáculo?
Sim, na primeira semana a língua foi um grande obstáculo. No entanto, quando cheguei à selva já conseguia entender e expressar-me correctamente e, por isso, deixou de ser obstáculo, passando a ser um grande desafio superado!

Que papel tem a Igreja no Peru?
O Peru tem uma história muito dura e sofrida, constituída por corrupção governamental e abandono de povos nativos, entre outras coisas. Por isso, as pessoas procuram na Igreja um apoio físico à fé que têm em Deus e que diariamente os ajuda a viverem cada dia das suas vidas em busca de um futuro melhor. A sua fé é, por isso, muito intensa e as comunidades cristãs, ainda que jovens em muitos povos, são unidas e genuínas!

Que significado teve para ti a concretização desta experiência?
Foi um sonho tornado realidade, podendo ajudar outros que mais precisam, numa cultura tão diferente da nossa, podendo partilhar histórias de vida, conhecimentos e vivências académicas e pessoais.

Quando regressaste como foi a recepção da tua paróquia?
Foi muito boa. Havia curiosidade e entusiasmo, principalmente da parte das pessoas que colaboraram com o projecto e que estiveram em oração com o nosso grupo! Deliciei-me a relatar-lhes a viagem e as realidades que lá encontrei e alguns episódios.

Agora que regressaste com esta experiência, de que forma é que pensas colocar esse enriquecimento pessoal ao serviço dos outros?
Neste momento estou a estudar fora de Portugal e torna-se mais complicado pôr em prática algum projecto de duração prolongada. No entanto, no sítio onde estou a estudar, através das irmãs Carlmelitas Missionárias, vou estar com grupos de jovens para testemunhar um pouco dessa experiência, tentando despertar-lhes o desejo de ajuda e com eles fazer algo pelo próximo.

Que mensagem deixarias a alguém que esteja neste momento a pôr a hipótese de fazer uma experiência semelhante?
Se realmente é um sentimento irrequieto e que mexe com o coração, vale a pena tornar a hipótese numa vivência real e concreta, pois, quando entramos na vida de rostos concretos e entramos nas suas realidades, vivemos os seus problemas, as suas inquietudes, as suas alegrias e as suas conquistas! Mais do que tentar mudar algo na sua realidade, é entrar nela e vivê-la dando o exemplo! E sem dúvida, isso é o que de maior e melhor podemos obter com uma experiência missionária.

Antes de partires não descartavas a possibilidade de, no futuro, repetir a experiência de forma mais alargada no tempo. E agora?
Agora ainda descarto menos! O desejo de repetir a experiência, no mesmo ou noutro lugar, durante o mesmo ou mais tempo, foi aumentando a cada dia que passava! Este sentimento foi sustentado com algumas amizades que se formaram dentro do grupo, com projectos de vida muito semelhantes que, por isso, se irão encontrar em várias encruzilhadas durante a sua caminhada. Ainda antes de acabar a missão, alguns elementos já tinham planeado uma outra à Colômbia ou a Cuba! Agora veremos se temos todas as condições necessárias para realizá-la nos próximos anos.

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