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Padre Miguel Neto

A última polémica dos meios de comunicação é, creio que todos saberão, a que se relaciona com o programa emitido pela SIC e que se chama “Supernanny”. Grosso modo (e depois de o ter visto) relata em cada episódio um caso de uma família que tem um ou mais filhos problemáticos, as suas dificuldades e a intervenção de uma pessoa exterior – a tal Supernanny, ou super ama, que na realidade é uma psicóloga de formação -, que age para resolver os conflitos e para devolver aos pais a capacidade de solucionarem as situações de desafio que enfrentam com as suas crianças. Vê-se a fase do diagnóstico e a fase da intervenção. Diz a SIC que este acompanhamento dura cerca de um mês e que tudo o que é mostrado é minuciosa e criteriosamente editado, de forma a salvaguardar a família e, sobretudo, as crianças.

No entanto, todas as instituições portuguesas que agem na defesa dos direitos das crianças e inúmeras figuras públicas, já se manifestaram publicamente contra, apontando o programa como uma forma de desrespeito pelos direitos dos mais novos, nomeadamente à sua privacidade e imagem. Consideram abusiva a forma como a SIC faz uso das vivências familiares, das birras e gritos dos meninos e meninas envolvidos e todos temem pelo futuro destas crianças, que poderão estar sujeitas a bullying, a traumas irrecuperáveis e não tiveram uma palavra a dizer sobre a sua participação, já que sendo menores, são envolvidos pela vontade dos seus tutores, os pais.

Pareceu-me, inicialmente, que era absurdo uma tal polémica em torno de mais um programa de televisão, mas decidi ver. Não gostei. Ver a gritaria dos miúdos e o desespero dos pais não me parece nada lógico, entusiasmante e televisivo, mas na verdade, quase tudo o que conheço de “reallity TV” é assim. Não sou alheio às dificuldades que os pais vivem e que são cada vez maiores, resultando, como sabemos – e todos conhecemos professores que falam disso! -, em situações muito complicadas nas escolas, onde há mais violência, mais desatenção, menos respeito pela autoridade. Sei que isso é uma realidade que resulta do que acontece nas famílias, onde cada vez mais é difícil que se assumam regras, que se cumpram, que se aceite que um pai é um pai e não um amigo e que o respeito, contrário ao egoísmo, deve ser um valor fundamental. As Comissões de Proteção de Crianças e Jovens lidam com os casos mais extremos e os menos extremos, que somam absurdos atrás de absurdos e revelam um total impreparação e desresponsabilização de quem tem de educar crianças, e, tristemente, de muitos pais. Provavelmente, os casos apresentados na SIC nem serão os exemplos mais dramáticos deste tipo de situação.

Mas estamos a falar de crianças. Não estamos a falar de adultos que sabem em que buracos vão enfiar as suas cabeças. Estas crianças não escolheram entrar na Supernanny e não escolheram as consequências que daí podem advir. Não decidiram fazer birras encomendadas, nem são figurantes que agem para a câmara. São crianças e com muitas limitações, ao que parece, em lidar com as suas emoções. Nada nem ninguém as deveria expor mediaticamente desta forma. É, sem dúvida, uma violação dos seus direitos e grosseira, em nome das audiências – que subiram, claro! -, que geraram debates e mais subidas de audiências. As crianças deveriam ser educadas, sim; devem cumprir regras, sim; devem respeitar os pais, sim; os pais devem ser ajudados nessas tarefas, sim; devem estar disponíveis para mudar, em função do bem-estar dos seus filhos, sim. Mas assim, não! Devem fazê-lo no seio das suas famílias, recorrendo a apoio externo, mas de forma privada, sem se exporem, nem exporem as crianças.

A SIC falhou? Na minha opinião, sim, mas na verdade falhamos todos: os que assistimos e garantimos que a lógica das audiências prevaleceu; os que comentamos e lhes damos espaço mediático, mas que temos também responsabilidades de alerta e reflexão; os que têm responsabilidades de tutela e ainda não conseguiram impedir a emissão do programa, porque legalmente tudo está correto; e falham os pais destes meninos e meninas, quando aceitam entrar neste tipo de aventuras, ainda que – e vou acreditar – motivados pelo desejo de resolver os seus dramas familiares.

Falhamos enquanto sociedade no seu todos, uma sociedade que entende normal a exposição das crianças em páginas de facebook e instagram, que vê muitos meninos crescerem na ânsia de serem estrelas de qualquer coisa, mas que não se preocupa com o essencial, que são as emoções, os valores, a formação de seres humanos capazes de fazer o bem a si mesmos e aos outros. Não precisamos de super famílias, porque elas nunca existirão, mas também não precisamos de Supernannys televisivas. Precisamos, sim, de espaços onde todos possam encontrar apoio e estratégias, possam esclarecer dúvidas e resolver problemas, sem expor as crianças e necessitamos, sobretudo, de disponibilidade mental e de coração para aceitar que às vezes, tal como as estações de televisão, erramos e temos de refazer o caminho, para bem de quem mais amamos.

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