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Vivemos tempos de alarmismo devido a um vírus, que para além de ter nome de cerveja mexicana, a sua real gravidade e se é ou não mais perigoso que uma simples gripe é desconhecida pela generalidade das pessoas. Na era da informação é normal que se gere a desinformação promovida pelo excesso e divergência de mensagens.

Não tenho capacidade para saber se este alarmismo é necessário ou excessivo. No entanto, sei com toda a certeza, que é ofuscante de tudo o mais que existe na nossa sociedade e isso é muito preocupante. É preocupante, porque há uma outra virose que se alastra em Portugal de uma forma discreta e silenciosa, mais muitíssimo eficaz. A virose da corrupção.

Recordo que os primeiros casos que chegaram ao domínio do grande público foram relacionados com o futebol e com as várias cores dos apitos dos árbitros. Na generalidade, por se tratar de um deporto e se pensar que não interferia directamente com os bolsos dos portugueses, esses casos serviram para preencher muitíssimas capas de jornais desportivos, ocupar longas horas de debate nos vários canais televisivos, ou para a criação de piadas humorísticas sobre a relação entre a qualidade da fruta, da venda de pneus e o futebol. Nada de surpreendente e importante, pensamos nós.

Porém, depois começámos a perceber que fugazmente as relações “comerciais” dúbias e nada isentas se passam também na política. Primeiro, do ponto de vista autárquico, onde alguns de nós, para minimizar o problema, afirmávamos: “Este rouba, mas faz obra, ao passo que outros se calhar também roubam, mas nada fazem”. Exemplo perfeito desta situação é o caso de Isaltino Morais, ex e atual presidente da câmara municipal de Oeiras, que depois de ter estado preso devido a irregularidades nos primeiros mandatos regressou em triunfo e segue a sua carreira de autarca. E começa a surgir o primeiro pensamento perigoso na generalidade dos portugueses quando olham com normalidade para um autarca que receba dinheiro indevido desde que deixe obra, de preferência de construção ou ordenamento do território.

Mas, da política autárquica passou-se rapidamente para a política nacional, com a detenção em pleno aeroporto de uma ex-primeiro ministro, que ficou em prisão preventiva devido a uma relação demasiado “caritativo-solidária” com o seu melhor amigo. Este caso ainda está longe de terminar, mas já houve, certamente, longas horas de conversa e de discussão sobre o real valor de uma amizade sincera, levando-nos a descobrir que provavelmente a maioria de nós não soube cultivar verdadeiras e desinteressadas, porem lucrativas relações, na juventude.

Acontece que agora, a dúvidas e suspeitas de corrupção chegaram à justiça. Ora, o futebol é apenas um desporto, os políticos na boca do povo “são todos iguais, mas não há escolha”, mas a justiça é o maior alicerce da Democracia e do Estado de Direito. Que tardava e era lenta, todos nós sabíamos desde tempos imemoriais, mas também sabemos que acabava por chegar e confiávamos nela. O problema é que já não temos instituições ligadas à justiça em quem confiar, quando percebemos que diversos juízes de topo do Tribunal da Relação de Lisboa entraram em esquemas, no mínimo esquisitos para não dizer alegadamente fraudulentos. Se estes entraram, porque não terão entrados outros, de outros tribunais? Não serão legítimas a pergunta e a dúvida?

Este é o pasto fértil para que populismos ditatoriais cresçam no nosso país. Este é o ambiente necessário para ouvirmos várias pessoas, que deviam ser prudentes, afirmar que “isto já não vai lá com eleições” ou “o que este país precisava é de outro Salazar”. O querer resolver tudo à bruta e com autoridade não é a solução. Mas se as instituições civis, os poderes governamentais e judiciais não souberem ser isentos, justos e honestos existirão cada vez mais pessoas a seguir quem apresenta soluções demagógicas, falsas, populistas e ditatoriais. O Comunismo de Lenine e Estaline, o Fascismo de Mussolini, o Nazismo de Hitler, todos começaram assim há quase 100 anos e há por aí muito boa gente com tendenciazinhas medíocres para esse tipo de postura. Como diria a nossa imortal Sophia de Mello Breyner Andresen, “Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar”. Cuidado com este vírus! É mais silencioso e mais próximo das pessoas do que podemos imaginar e provavelmente mais mortífero da nossa dignidade humana do que qualquer outra pandemia.

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