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Pe. Tolentino de Mendonça (E) com António Spadaro (D) © Sandra Moreira
Pe. Tolentino de Mendonça (E) com António Spadaro (D) © Sandra Moreira

Antonio Spadaro, Jesuíta, diretor da La Civiltà Cattolica, é um autor conceituado e especialista em literatura, com diferentes trabalhos publicados nesta área. Perito, ainda, em Comunicação e Teologia, é consultor para o Conselho Pontifício para as Comunicações Sociais. Profundamente ligado à investigação das questões relacionadas com o mundo dos novos meios de comunicação digital, defende, na sua obra recentemente editada em Portugal pelas Edições Paulinas, que «quando falamos do ambiente digital estamos a falar de vida e não de cabos e outros instrumentos tecnológicos». Para Spadaro, a Internet não é uma ferramenta, mas uma «experiência», mais uma das muitas que integram o nosso quotidiano. «A internet não é uma ferramenta de evangelização, não é um instrumento, mas uma experiência de evangelização», afirma e reforça: «Quem a olhar sob uma perspetiva instrumental não a perceberá. Ela integra cada vez mais a nossa vida, permite-nos conhecer a realidade e interagir. O mundo digital tem um impacto sobre o nosso modo de pensar e de conhecer a realidade».

E tendo como ponto de partida esta ideia, Spadaro propõe-nos um exercício: «Se isto acontece e se a teologia é pensar a fé, a internet não terá um impacto no modo de pensar a fé?»

Segundo este autor, a «tecnologia não é um conjunto de objetos tecnológicos, mas uma forma como o homem exerce a sua capacidade de liberdade, de pensamento». Segundo ele, «somos vítimas do século XX, em que a bomba atômica nos fez passar a ver a técnica como algo potencialmente muito destrutivo e por isso não confiamos nela. Mas a Teologia deve procurar aproximar o Homem da tecnologia», fazendo-o questionar-se sobre qual será o «verdadeiro lugar da rede no plano de Deus para o Homem».

Parte das nossas relações vive no mundo digital e não deixa, por isso, de ser verdadeira, pois «o ambiente digital não e falso, nem é igual ao ambiente físico», diz o jesuíta. Por isso, defende que «devemos viver a vida com naturalidade, testemunhando, colocando os nossos pensamentos como testemunhos da nossa fé e da nossa vida, também no ambiente digital». Para Spadaro, «o comunicador é um “testemunhador”» e hoje, a lógica que deveremos imprimir à comunicação não é «a lógica do púlpito», mas «a lógica da partilha», através da qual «os nossos conteúdos entram nas nossas redes de relações e provêm da nossa experiência e testemunho».

Nesse sentido, Spadaro alerta que «o esforço da Igreja deve ser o de ajudar os jovens a viver a sua espiritualidade neste ambiente digital», fazendo-os entender que «estar ligado, em comunicação, é algo bom», pois «o nosso destino não é estarmos sós, mas sim viver com os outros» e isso implica harmonia e entendimento, ou seja, implica a compreensão de que aceder às redes é indispensável, tanto quanto o silêncio, «que serve para poder articular o discurso, para podermos estruturar melhor a nossa comunicação». O desafio, diz Spadaro, é «como ajudar a viver a interioridade no tempo da interação».

«A igreja é chamada a estar onde estão os homens e os homens hoje estão na rede», afirma o sacerdote e investigador jesuíta, «logo, a igreja deve estar na rede», sem no entanto entender a sua presença «como um dever de dizer coisas ou fazer coisas». «A igreja», diz, «está presente para escutar, sobretudo escutar que coisas dizem os homens, essencialmente os que vivem nas periferias. Hoje as pessoas exprimem em rede os seus desejos, dúvidas, medos, exprimem a sua humanidade e a Igreja deve estar próxima do Homem, escutando-o». O lugar da Igreja é, na sua perspetiva, o de «participante nas conversas do Homem, levando-lhe o Evangelho». Por sua vez, o «Evangelho não deve ser apresentado como o lugar de todas as respostas, mas sim o de todas as perguntas, todos os questionamentos, todas as buscas que o ser humano tem». Por isso, Spadaro defende que «a palavra discernimento é a grande preocupação a ter hoje, porque deveremos discernir sobre quais deverão ser as perguntas fundamentais».

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