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Conselhos, para que os queremos?!….

Padre Miguel Neto
Padre Miguel Neto

Há um ditado popular que diz que se os conselhos fossem bons não eram de graça… Não concordo muito com esta ideia.

Os conselhos são sempre úteis. Quem não viveu a experiência de ter um pai, um irmão, um amigo a dizer-nos que o caminho a seguir é aquele?!… E porventura, em quantas ocasiões essas indicações foram preciosas e deram uma nova certeza aos nossos passos? Em muitas. E noutras, decidimos optar por não os aceitar e podemos até ter tido resultados excecionais, mas tivemos de refletir, de ponderar e, quem sabe, não terá sido isso que determinou o nosso sucesso?!…

Por isso, eu ando encantado com esta onda de preocupação que nas redes sociais se vive nos últimos dias. Chegou a onda dos conselhos de figuras públicas, ainda que não sejam os próprios a dá-los. Os mais valiosos, mediáticos e controversos são, certamente, os no atual Primeiro Ministro. #Conselhosdocosta dá-nos, todos os dias, boas razões para refletir, porque nos proporciona um olhar acutilante sobre a sociedade portuguesa. Vejamos: “Deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer, mas também reduz a conta da luz”; “apartamentos perto da iluminação pública é uma oportunidade única”. Quantas casas em Portugal já viram a eletricidade cortada, porque as famílias não puseram em prática este tipo de ideias?!… Ou simplesmente, porque quando chega o dia de pagar, já não há dinheiro nem para o básico, que é comer, ter luz, ter água?!!!!!!…..

“Não comprem alimentos; plantem-nos”: este conselho está a ser levado à risca pelos municípios, já que proliferam as iniciativas que promovem o surgimento de hortas comunitárias. Porque será? Porque os cidadãos querem comer legumes biológicos ou porque muitos não têm capacidade de chegar ao supermercado e abastecer-se deste tipo de bens?!…..

“Pelo ambiente e pelo aumento do combustível, use os transportes públicos”. Quais? Aqueles que no Algarve continuam a ter uma oferta reduzida, que não chegam a todas as localidades, que obrigam os cidadãos que indispensavelmente os têm de usar a sair de madrugada de casa e a regressar noite escura, por não haver muitos horários disponíveis? Ou aqueles que feitas as contas têm um preço idêntico ao do dito combustível que agora aumenta?!……..

E há muitos outros conselhos importantes, nomeadamente que apelam ao uso de telefones no serviço para resolução de assuntos privados, da aposta no apoio dos amigos para pagamento de jantares e até na redução do número de inspirações, para poupar oxigénio…

E como se não faltassem os #Conselhosdocosta, também já temos os #Conselhosdopassos, na lógica do: “Não vais daqui sem resposta”… É caso para dizer: “Vira o disco e toca o mesmo”…

É bom brincar e os portugueses podem ser pobres em muita coisa, mas são ricos de imaginação e bom humor. Comprova-o o Carnaval que há pouco acabou. Pena é que a mesma imaginação não seja aplicada para encontrar soluções que efetivamente resolvam os problemas que estes “conselhos” espelham e pena é que tanta gente se sinta desrespeitada pela atuação daqueles que nos governam, pela forma fácil como produzem discursos importantes e que visam impressionar e mediatizar temas, mas que pecam pelo total desconhecimento do país que, afinal, tanto querem governar, consertar, tirar da crise, fazer virar a página. Porque os conselhos, como disse, podem ser muito úteis, mas somente quando revelam uma preocupação genuína com os problemas que todos vivemos. E apresentam soluções que todos podemos encarar como concretizáveis. E nessa altura, não há porque não os aceitar.

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