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Temos medo de falar da morte, de abordar a nossa finitude, e temos medo/vergonha de manifestar isso até aos que nos são mais próximos, porque isso não pode acontecer. Temos de ser exímios, diz-nos a nossa experiência de socialização.

Vivendo numa “sociedade sem morte” há coisas que por estes dias não fazem qualquer sentido. A eutanásia é uma delas (na hora em que escrevo, não sei se já é legal em Portugal a sua prática). A morte é a derrota, a luta que sabemos vir a perder mais tarde ou mais cedo, mas, em vez de se educar para a consciencialização desta realidade (por vezes muito dura), a manipulação de consciências é tal, que cada um é constantemente levado a achar-se capaz de viver enquanto quiser, podendo decidir também quando deve deixar de viver.

As opiniões a favor ou contra a eutanásia têm sido imensas, invocando todo o tipo de argumentos humanos, éticos, religiosos ou filosóficos, para a defesa das sensibilidades de cada um. Porém, esta é uma questão tão fracturante que não pode (não devia!) ser discutida, sem permitir a existência de outros caminhos.

O nosso excesso de racionalidade leva-nos por vezes a rotular as coisas, e a achar que tudo deve ser “preto” ou “branco”, esquecendo-nos que podem, devem, e existem mesmo muitas coisas “cinzentas”. O cinzento desta questão é, por exemplo, o facto de aqueles que querem a legalização, ou não, da eutanásia, serem pessoas que não passam por um momento de sofrimento tal que os faça desejar um grande alívio (cuidados paliativos) ou a morte (eutanásia), implicando outra pessoa neste processo, pois não se trata de um suicídio. É um médico que tem que matar o doente. É fácil opinar estando do “lado de fora”, seja num ou noutro sentido. Todavia, só cada um saberá realmente o que sente e deseja, e tudo tem de ser observado e tratado com a personalização merecida.

Honestamente, a melhor discussão sobre o assunto tem estado a decorrer através de tantos meios, e velozmente, porque também rápidos foram alguns partidos em querer levar o tema para aprovação, enquanto a maioria dos portugueses se distraía com outros assuntos. Será a pressa para aprovar algo, fazendo favores a alguém (entenda-se, partido(s))? Esta perversidade mostra que quem nos governa tem medo de escutar a voz do povo eleitor. Mais grave, foi o iniciar da discussão sobre o assunto, sem antes existir uma rede de cuidados paliativos verdadeiramente dignos. Há dias li, que, segundo o relatório de Outono do Observatório Português dos Cuidados Paliativos (OPCP), estes cuidados regrediram, e a rede nacional necessita de mais 400 médicos e de 2.000 enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais. A prioridade não devia ser esta? A própria discussão sobre o tema não seria mais justa depois de existir uma rede paliativa que respondesse satisfatoriamente a todas estas necessidades? Claramente que sim! Devia ser este o caminho, porque o que o Estado nos narra com esta pressa é que prefere gastar dinheiro para matar, em vez de investir para cuidar. Mas cuidar de quem sofre com amor, permitindo o alívio do seu sofrimento, num cuidado holístico, será sempre mais digno do que matar em nome da “morte digna”. Ela quer-se digna, sim. E a vida, não?

Cuidemos da vida, criemos respostas para as várias situações, e depois tomem-se medidas mais sérias quanto a estas leis, se de facto existirem casos que nem os paliativos, nem outro tipo de cuidados conseguem ajudar. Que haja opção para o doente, porque se o único caminho for a morte, essa será a escolha, mesmo não sendo a vontade mais profunda. Com a falta de opções válidas, o caminho mais “fácil” é sempre o mais tentador, mesmo não sendo o melhor.

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