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Padre Miguel Neto

Temos uma facilidade significativa – não digo enquanto povo, mas enquanto espécie – de dizer coisas, de falar simplesmente por falar, de produzir discursos mais ou menos elaborados, que muitas vezes são perfeitamente vazios de sentido e não acrescentam nada às nossas vidas.

Falamos dos outros e ouvimos o que os outros falam dos outros. E, pior ainda, muitas vezes acreditamos e reproduzimos aquilo em que acreditamos, gerando um círculo de vozearia, tantas vezes prejudicial para os visados. Não nos importa o conteúdo; importam-nos as finalidades e os nossos jogos pequeninos ou grandes de poder. Queremos chegar a algum lado: a um lugar, a um cargo, a uma remuneração, a qualquer coisa, que no contexto nos parece muito mais importante que o outro, que é apenas um empecilho e uma barreira no caminho que traçamos….

E quem diz que falamos, diz que escutamos. Ouvimos apenas e nada fazemos para desfazer o engano, mesmo acreditando que ele existe e que pode ter consequências, não para nós, mas para quem está envolvido no falatório. Ouvimos, porque nos interessa de alguma forma que o que é dito continue a ser dito, gere alterações do status quo, produza os seus efeitos.

Temo-nos sempre em alto conceito: o que escutamos não é errado, o que dizemos não é mentira, o que fazemos está mais certo do que o que fazem os outros….

E a verdade é que os erros de perceção, sejam mútuos ou não, sejam deliberados ou ingenuamente gerados, são importantes. Insistir neles não promove a harmonia, nem tão pouco a calma e o discernimento. Insistir nesses erros de percepção gera crises, vozes de discórdia, dissensão. Gera desconfiança. E a confiança faz tanta falta…

Neste preciso momento vivemos um momento destes, em que a classe política no seu todo se debate com os problemas dos “erros de perceção”: do governo e do seu ministro das finanças, que só agora admitiu que afinal eles podem ter existido; da oposição, que esfrega as mãos de contente por ele, pois nesta maré de interesse mediático fica isenta de outro tipo de responsabilidades, como propor soluções mais eficientes e justas; dos meios de comunicação, que nos bombardearão com todas as tricas deste joguinho político ao longo dos próximos dias, ignorando outros assuntos, quiçá mais importantes e interessantes, mas menos vendáveis; de todos nós, que mais ou menos interessados no cenário político e suas jogadas, vamos ser bombardeados por toda esta cavaqueira que nada traz de útil ao país.

A esta cultura da má-língua já se referiu o Papa Francisco, a propósito da própria Cúria, considerando-a a «doença dos cobardes», dos «semeadores da discórdia» e advertiu: «Tende cuidado com o terrorismo da má-língua»1 .

Diz que disse e assim ficamos, porque depois de dito não nos importa o valor das palavras, a sua força, para o bem e para o mal. E se foi dito é porque é verdade. E se é verdade é porque assim é. Para quê usar a cabeça e pensar verdadeiramente no conteúdo da palração?!…. Diz que disse e pronto.

Aquilo que dizemos produz efeitos e é bom que não o esqueçamos. Produz efeitos diretos, marca as pessoas, ofende-as, fere-as. Ou pelo contrário, quando dito com justiça e caridade, pode ajudar a crescer, a ser melhor, a produzir justiça. E a escolha é apenas e só nossa.

1Pereira, Ana Fonseca (2014). “Do Alzheimer Espiritual ao Terrorismo da má-língua, Papa denuncia 15 doenças da Cúria”, in Jornal Público, https://www.publico.pt/2014/12/22/mundo/noticia/do-alzheimer-espiritual-ao-terrorismo-da-malingua-papa-denuncia-15-doencas-da-curia-1680254 (consulado a 13/02/2017).

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