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Padre Miguel Neto

Em todas as turmas escolares a que pertenci havia gandulos. A figura do gandulo sempre me questionou, encantou-me e fez-me refletir. Aliás, desde sempre me fascinou analisar quem fosse possuidor de um tremendo grau de estupidez humana e que se limitasse a usar a agressividade como forma de se impor aos outros. O gandulo usava o medo e o terror para se coagir os outros. Tinha seguidores, sempre mais ignorantes e estúpidos que ele. Esses seguidores olhavam para o gandulo como se ele fosse “O Rei”, o ídolo que “mandava” na turma e queria “mandar” na escola. Assim, muitas vezes, havia “luta” por “território” entre vários gandulos. Estes juntavam as suas tropas e peleavam entre si por esse controlo fictício de espaço e influência.

Ora, quase sempre, quem sofria com as lutas entre gandulos eram os “caixa de óculos” e os “gordos”, que não passavam de tipos pacatos, que se limitavam a fazer a sua vida, comendo ou conversando sobre os temas estapafúrdios da atualidade. O problema é que os “caixa de óculos” e os” gordos”, mesmo sem se aperceberem disso e sem que, naturalmente, dependesse da sua vontade ou sequer saberem muito bem porquê, apanhavam sempre pancada dos gandulos. E se um “caixa de óculos” tivesse o azar de ser também gordo, apanhava a dobrar, claro está.

Sendo eu um caixa de óculos gordo, estou mesmo à espera que quem vai apanhar pancada por causa de qualquer guerra seja eu…

E no mundo, parece-me que a lógica do gandulo versus “caixa de óculos” continua atual, independentemente da escala a que estejamos a analisar. Vejamos: na guerra entre o gandulo Trump e o gandulo Kim Jong-Un quem é que vai sair a perder?… Eu, o “caixa de óculos”, ou seja, todos os que pertencem ao meu grupo e nada fizeram para enfurecer nem despertar a estupidez de tais gandulos…. Só que esta guerra é capaz de matar a sério; as outras, do meu tempo de escola, só aleijavam. O máximo que poderíamos fazer era partir a cana do nariz a alguém! Não havia cá bombas atómicas, nem de hidrogénio no ar! Melhor seria que estes dois, ao invés de resolverem as suas desavenças no recreio da escola, ou seja, aqui na terra – que eles acreditam que lhes pertence e na qual têm de marcar território -, fossem resolver as suas disputas de ego para bem longe -Marte, Vénus, ou melhor ainda, Plutão! É que eles, verdadeiros gandulos sem massa cinzenta, nem capacidade de ver para além dos punhos, não se aleijam, pois como sempre, sendo gandulos mandam os outros para a bulha. Mas ainda alguém morre por causa disso. E se a disputa não parar, quem sofre são os “caixa de óculos”, os “gordos”, enfim, aqueles que só querem levar uma vida pacífica.

Só apetece dizer: resolvam isto entre vocês, mas lá fora. Não brinquem com bombas verdadeiras, ainda alguém se aleija. Abaixo os gandulos!

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