Acabei de ler a mensagem que o Rei de Espanha dirigiu ao Papa Leão. Confesso alguma inveja, não da monarquia, nem sequer da visita, mas inveja da capacidade de um chefe de Estado reconhecer publicamente aquilo que tantos parecem incapazes de admitir: o imenso bem que a Igreja fez e continua a fazer.
Já sabemos e sentimos que o tempo em que vivemos é estranho: um tempo em que o reconhecimento se tornou suspeito e em que a gratidão parece quase uma fraqueza e, por isso, poucos a usam. Há quem consiga identificar, com uma precisão cirúrgica, todas as feridas da Igreja, mas permaneça completamente cego perante os hospitais, os lares, as escolas, os centros de acolhimento, as cantinas sociais, os missionários, os voluntários e os milhares de pessoas que diariamente gastam a vida ao serviço dos outros inspirados pela fé cristã, como referiu o Rei.
O Rei foi capaz de fazer algo simples, a meu ver, e raro nos dias de hoje: olhar para a realidade inteira. Não ignorou o drama dos abusos nem minimizou a dor das vítimas (bem pelo contrário, soube reconhecer a gravidade dessas feridas), mas compreendeu que os crimes/pecados de alguns dos seus membros não revelam a essência de uma instituição cuja história é marcada por uma extraordinária capacidade de servir, amar e cuidar.
A capacidade de olhar apenas para o mal acaba por revelar uma das grandes doenças do nosso tempo. Muitos vivem alimentados pela indignação permanente. As redes sociais transformaram-se frequentemente num palco de condenação onde o julgamento é imediato, a nuance desaparece e a agressividade substitui o pensamento amadurecido. Ali, protegidos pela distância do ecrã, muitos encontram uma voz que não possuem na vida real (possivelmente porque ninguém lhes dá o palco que gostariam de ter) e usam-na não para construir, mas para destruir.
Mas também gostei da forma como o Rei interpretou a primeira encíclica do Papa. Percebeu que a Igreja não fala ao mundo a partir do medo nem vive de discursos apocalípticos. A Igreja não anuncia o colapso inevitável da humanidade, mas continua, pelo contrário, a acreditar no ser humano, não numa humanidade fechada sobre si mesma, entregue aos seus egoísmos, fragmentações e ideologias, mas numa humanidade capaz de conversão, capaz de reencontrar a verdade, a justiça, a dignidade da pessoa humana e o bem comum. Uma humanidade capaz de se deixar transformar.
Um último ponto que me tocou: a unidade. E tocou-me porque num mundo cada vez mais polarizado, onde todos parecem ter de escolher um campo e odiar o outro, a proposta cristã continua a ser a construção de pontes. Claro que não se trata de acreditar que isto só lá vai quando tivermos todos as mesmas ideias, mas trata-se de perceber que nenhuma sociedade se constrói apenas sobre a lógica da confrontação permanente. A unidade de que fala o Papa e também o Rei, não é uniformidade, não é pensamento único, mas a capacidade de reconhecer uma humanidade comum que nos precede a todos e que nos obriga a procurar aquilo que nos une antes de explorar aquilo que nos separa.
Sim, a Igreja não é apenas uma instituição do passado. Sim, a Igreja continua a ser uma das maiores forças de esperança, solidariedade e promoção humana do presente. E sim, é refrescante ouvir alguém a reconhecê-lo publicamente num tempo em que tantos parecem empenhados em convencer-nos do contrário. Obrigado, D. Filipe.








