Acordar com vontade de fazer um cisma não é para todos. Exige método, guarda-roupa a rigor e uma inabalável confiança de que o Espírito Santo, no meio de oito mil milhões de almas, decidiu sussurrar os seus planos exclusivamente ao nosso ouvido.
Foi mais ou menos isto que aconteceu em Ecône. No dia 1 de julho, a Fraternidade Sacerdotal São Pio X decidiu que o calendário pedia a ordenação de quatro novos bispos. Sem mandato pontifício, claro. O Papa Leão XIV ainda lhes escreveu uma carta no dia de São Pedro e São Paulo. Pediu, com o coração nas mãos, que não rasgassem a túnica inconsútil de Cristo. Que reconsiderassem. Mas a resposta foi a de quem já tem a tenda montada, os paramentos passados a ferro e a certeza de que Roma é apenas uma sucursal mal gerida da verdadeira fé.
É fascinante — e trágico — observar esta mecânica do orgulho disfarçado de fidelidade. A liturgia é bela, o latim soa a sagrado, os incensos elevam a alma. Tudo certo. Mas de que serve o rigor da forma, se o fundo é uma fratura?
Olho para estas decisões irrevogáveis e constato que tenho medo das pessoas que afirmam que o que pensam e dizem fazem imediatamente e que não há espaço para “vou tentar, a ver se consigo fazer, a ver se tenho tempo”. Dizem que vão fazer e fazem. Pensam só por si próprias. Pensando que tudo o que têm a fazer fazem bem. Não há espaço para a salutar dúvida. Não há espaço para ouvir os outros. São ditadores. E não sabem viver em comunhão. Não dão espaço para os outros crescerem e pensarem diferente deles. Querem que todos sejam como eles. Porque eles são os donos da verdade absoluta. Porque eles e os seus seguidores e amigos sentem que têm uma graça especial. Um dom de ponderação e de certeza absoluta. Um discernimento que ultrapassa as mais poderosas capacidades humanas, como um super-herói com poderes mega especiais! Algo que se pode encontrar na Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX). Porque só ali está a verdadeira igreja. Porque só ali se celebra a verdadeira liturgia. Só por esse caminho se chega a Deus, através de Jesus Cristo. E, é claro, se este concordar com tudo, quando chegar o fim dos tempos!
A indignação que sinto não vem de uma aversão à Tradição. Pelo contrário. Vem de ver a Tradição sequestrada. A fé católica é encarnada, suada, vivida na comunhão com os pecadores, com os que hesitam, com o Sucessor de Pedro — mesmo quando não gostamos do estilo dele. A Igreja não é um clube de elite para os puros de liturgia impecável.
Dizem que estão dispostos a pagar qualquer preço para “salvar a Igreja”. Mas quem salva a Igreja dividindo-a não é um salvador. É apenas alguém que pegou na túnica de Cristo e, achando que o tecido estava gasto, decidiu cortá-la para fazer um fato à sua própria medida. E um fato feito à nossa medida, por muito bonito que seja, serve apenas para nos vestirmos a nós próprios. Nunca para cobrir a nudez do mundo.








