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Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

A médica Ana Cláudia Quintana Arantes, uma das pioneiras em cuidados paliativos no Brasil e autora do best-seller “A Morte é um Dia que Vale a Pena Viver”, veio ao Algarve defender a necessidade de “avaliar, cuidar e respeitar a dimensão espiritual” nos cuidados de saúde para que a integridade da pessoa, juntamente com as dimensões física, emocional, familiar e social, possa estar equilibrada.

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Considerando que “a ciência e a espiritualidade andam de mãos”, Ana Cláudia Arantes referiu-se à “perceção subjetiva do sagrado” no cérebro segundo testes científicos. Aquela médica, mestre em cuidados paliativos que trabalha no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo (Brasil), explicou que, consoante o indivíduo, os cientistas identificaram que a perceção do sagrado pode estar nas áreas “utilitarista” ou “deontológica” do cérebro.

A conferencista da primeira 1ª Jornada de Espiritualidade do Centro Hospitalar Universitário do Algarve (CHUA) que refletiu na passada sexta-feira, 22 de novembro, a sobre a importância daquela dimensão nos cuidados de saúde disse ainda haver uma zona cerebral, designada como “pensamento de Deus”, que é ativada quando a pessoa “pensa como Deus pensa”.

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A médica geriatra e gerontologista acrescentou que, segundo vários estudos na área das neurociências, “é importantíssimo ter um capelão”. “A forma como a gente recomenda a assistência espiritual, facilita ou impede o acesso das pessoas a esse profissional”, alertou na iniciativa que se realizou no auditório da unidade hospitalar de Faro, promovida pela Equipa de Apoio Psicossocial (EAPS) do CHUA no âmbito do Programa Humaniza da Fundação “la Caixa”.

A especialista de cuidados paliativos disse que cabe ao assistente espiritual entrar na experiência do paciente e “reconfigurar a perceção” que ele tem perante a doença.

“A nossa sociedade não tem maturidade para discutir a eutanásia”

Ana Cláudia Arantes considerou a eutanásia “uma corrupção do corpo porque ela diz respeito à possibilidade de um controle idealizado da morte”. “As pessoas que buscam a eutanásia têm a perceção de que o sofrimento pode ser abreviado e eu considero legítimo você ter o direito de pensar o que você quiser. Eu respeito quem pede e respeito quem faz, mas eu não faço. Não posso dizer se um dia eu vou pedir, porque a gente pode não julgar o peso de um fardo que não carregou ainda”, sustentou.

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A médica brasileira testemunhou já ter presenciado “mortes absolutamente incríveis, maravilhosas”. “A morte que cabe na sua história não é aquela que você acha que é a sua porque você não viveu ela ainda”, alertou, considerando a eutanásia “uma tentativa de experimentar algo que ainda não existe”. “A eutanásia é uma alternativa a não vivenciar o sofrimento. Então, as pessoas preferem morrer a sofrer”, constatou, alertando que a questão deve colocar-se ao nível dos cuidados paliativos.

“Penso que a nossa sociedade não tem maturidade para discutir a eutanásia. Eu só vou ouvir uma discussão da eutanásia com muita atenção num país que tenha a possibilidade de oferecer cuidados paliativos para 90% dos seus doentes”, prosseguiu, considerando que “o cuidado paliativo precisa de ser um direito acessível a todos”. “Enquanto a gente não tiver, não vai dar para conversar”, complementou.

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