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A semana passada vivemos alguns momentos extraordinários e marcantes na história da Humanidade. Não resultam, em boa verdade, de um bom facto, já que foram motivados pela pandemia que nos afeta e que alastrou pelo mundo, deixando poucos países de fora e um rasto de morte e desolação.

Um desses momentos extraordinários ocorreu no dia 27 de março. Um homem sozinho, idoso e com dificuldades em caminhar, atravessou uma praça imensa, onde normalmente estão largos milhares de pessoas, sob chuva copiosa, para, imagine-se, rezar. Falo, como bem sabeis, do Papa Francisco.

Quis marcar desta forma a sua solidariedade para com os que sofrem e os que lutam para cuidar dos que sofrem. «Demo-nos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados, mas ao mesmo tempo importantes e necessários: todos chamados a remar juntos, todos carecidos de mútuo encorajamento. E, neste barco, estamos todos, todos», dizia o Santo Padre.

As suas palavras, sábias e sensíveis, de uma profundidade imensa, tocaram quem as ouviu nesse fim de dia. Tocaram e interpelaram: «Na nossa avidez de lucro, deixamo-nos absorver pelas coisas e transtornar pela pressa. Não nos detivemos perante os teus apelos, não despertamos face a guerras e injustiças planetárias, não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo. Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente».

Tocaram e interpelaram. Mas terão produzido um efeito real e concreto? Teremos de facto ouvido com vontade de colocar em prática, com o sentido profundo da escuta e o desejo de mudança que ela implica, ou foram palavras belas, que mexeram com as nossas emoções e foram levadas pela chuva que nesse dia caia?…. Estamos todos no mesmo barco?….

Nessa mesma semana, Wopke Hoekstra, Ministro das Finanças Holandês, afirmava, numa videoconferência com homólogos dos 27, que «a Comissão Europeia devia investigar países, como Espanha, que afirmam não ter margem orçamental para lidar com os efeitos da crise provocada pelo novo coronavírus, apesar de a zona euro estar a crescer há sete anos consecutivos, segundo fontes europeias citadas na imprensa europeia», escutava-se nos meios de comunicação (TSF – https://www.tsf.pt/mundo/repugnante-o-que-levou-costa-a-irritar-se-tanto-com-a-holanda-11992477.html).Tudo porque, naturalmente, a Holanda não está de acordo com a proposta de aumentar as ajudas comunitárias aos países afetados de forma mais grave pelo Covid-19.

Nessa mesma semana, o Presidente dos EUA, Donald Trump (que continuamente desvalorizou a pandemia e enfatizou a necessidade de manter a economia a funcionar, ignorando os apelos de governadores e cientistas) acabava por decretar, também, estado de imergência e tomar algumas tímidas medidas para colaborar no combate à doença, pois o seu país, ao contrário do que o mesmo afirmava, já estava a aproximar-se da liderança na triste competição do maior número de infetados e de mortos.

Na mesma semana, Jair Bolsonaro, Presidente do Brasil, passeava-se pelas ruas de Brasília, depois de ter classificado a pandemia como uma «gripezinha» ou um «resfriadozinho» que qualquer brasileiro venceria, pois estão habituados às piores das condições de vida, como se tal facto fosse motivo de orgulho e alegria.

Nessa mesma semana, ironia das ironias, Boris Johnson, Primeiro-ministro inglês descobria estar infetado pelo vírus que considerava que não teria assim tanta importância e em relação ao qual tomou medidas tão tardias, que transformaram o Reino Unido num dos casos de progressão mais rápida da doença.

Nessa mesma semana, aqui ao lado, na martirizada Espanha, um grupo idosos, despejados de um lar por estarem infetados com o coronavírus covid-19, foi recebido à pedrada na província espanhola de Cádis, por meia centena populares que se reuniram nos acessos à cidade para tentarem impedir a entrada das ambulâncias que transportavam os pacientes, apedrejando-os e ameaçando-os, bem como à policia e cuidadores (Expresso – https://expresso.pt/coronavirus/2020-03-25-Covid-19.-Grupo-de-idosos-infetados-recebido-com-pedras-e-explosivos-em-transferencia-de-lar-em-Espanha).

Já esta semana, nos EUA, mais precisamente em Las Vegas, após o encerramento de um abrigo onde foi registado um caso de covid-19, as autoridades da cidade colocaram dezenas de sem-abrigo a dormir num parque de estacionamento, sem uma proteção, sem nada, enquanto os hotéis da cidade permanecem vazios, pois o movimento de turistas não existe devido à pandemia.

Interpelaram-nos as palavras de Francisco? Interpelaram o mundo, para que disséssemos em uníssono e sem medo, que estes gestos, estas palavras, estas atitudes são repugnantes, como dizia o nosso Primeiro-ministro, António Costa, relativamente ao discurso do governante holandês?

«Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?», citava o Papa na sua homilia daquele fim de tarde. Porquê? Porque nos custa vencer verdadeiramente este lado escuro da nossa humanidade?

Há muita gente esperançosa e que acredita que vamos viver transformações enormes, sobretudo no que toca à forma como vamos viver em sociedade, prevendo maior justiça, mais solidariedade, maior empenhamento no respeito ao outro. Eu, por meu turno, permaneço observador, permaneço orante, pois o meu temor é que vença o egoísmo, a capacidade de explorar o mais fraco, o oportunismo, a ganância.

Este é, de facto, citando de novo o Papa, o tempo de mudar, se formos capazes, já que é «perante o sofrimento, onde se mede o verdadeiro desenvolvimento dos nossos povos». E rezo, de coração totalmente entregue, como fez Francisco, para que possamos «encontrar a coragem de abrir espaços onde todos possam sentir-se chamados e permitir novas formas de hospitalidade, de fraternidade e de solidariedade». Mas isso não depende de outros. Depende de nós. Somente de nós. Queremos estar no mesmo barco?

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