A comunidade cabo-verdiana no Algarve, que voltou a reunir-se no Dia do Trabalhador, 01 de maio, para celebrar a fé e a cultura realçou a importância do “respeito pela diversidade das culturas”.


Isso mesmo o enfatizou o vigário-geral da Diocese do Algarve, também ele cabo-verdiano, na Eucaristia que iniciou o 32º Encontro dos Cabo-verdianos que teve lugar em Loulé. “Algumas pessoas especiais deviam vir aqui ver como é que se faz no respeito pela diversidade das culturas, para poderem ver como é que é possível sermos felizes e vivermos em harmonia”, afirmou o cónego Carlos César Chantre na celebração no Santuário de Nossa Senhora da Piedade, evocada popularmente como «Mãe Soberana».


“Todos diferentes e todos filhos da mesma criação, todos diferentes e todos filhos do mesmo Deus. Este mosaico de diferença é uma coisa maravilhosa, sermos todos diferentes, mas termos um objetivo comum: tornar o mundo melhor”, prosseguiu, na Eucaristia que contou também com uma performance dos jovens luso-cabo-verdianos que evocou precisamente o tema do respeito intercultural.


O sacerdote evidenciou o exemplo dos seus compatriotas de Cabo Verde que, não obstante viverem num país de natureza “agreste” com “ilhas pobres e secas”, são “um povo alegre, dançante e cantante”. “Descobriram no meio daquela pobreza a riqueza de ser um povo alegre. Isso é uma vitória”, considerou, evidenciando que “o canto e o ritmo da música contrasta com a tristeza no rosto de muita gente de terras mais ricas”.


“Por isso, os cabo-verdianos são uma prova provada que é possível descobrir beleza mesmo em sítios que parecem ser feios. Que as gerações mais novas de cabo-verdianos que nasceram fora de Cabo Verde tenham consciência das suas raízes, da beleza do seu povo e da beleza do seu avô e da sua avó, que tanta importância damos em Cabo Verde”, afirmou, desejando que “saibam os europeus beber esta riqueza, já que foram os europeus que levaram a riqueza de Jesus Cristo àquelas terras de Cabo Verde e a todas as terras africanas que hoje falam a língua portuguesa”.


O sacerdote lembrou ainda as dificuldades da experiência migratória do povo cabo-verdiano em São Tomé e Príncipe no século XX. “Quantos dos nossos avós choraram quando na década de 50 tiveram de ir para São Tomé… Quantas mornas surgiram da saudade dos nossos avós na década de 50 que foram trabalhar arduamente nas roças… Quanta música surgiu, quantos poetas surgiram… É no meio disto tudo que temos de descobrir a presença de Deus. É no meio disto tudo que temos de dizer a quem não acredita que só em Deus é possível compreender as dificuldades da vida”, afirmou.



A Missa contou mesmo com a interpretação do tema “Sodade”, imortalizado pela falecida Cesária Évora, que evoca precisamente a dificuldade daquele tempo vivido em São Tomé, e que foi cantado por Lígia Pereira e Edna Oliveira.


O cónego César Chantre recordou que, no dia 01 de maio, na “beleza daquelas ilhas que atraem todos os outros africanos irmãos”, o povo cabo-verdiano celebra a “festa do povo de Deus, em toda a sua diversidade, particularmente a de coloração africana”. O sacerdote lembrou, particularmente, as “grandes festas” na ilha do Fogo como a “Festa das Bandeiras” e a “corrida de cavalos”.


O vigário-geral da diocese algarvia relembrou ainda que o Dia do Trabalhador “nasceu sob suor e lágrimas no século XIX, em que os operários eram explorados, violentados e tiveram de lutar para conquistarem a dignidade de serem homens e mulheres”. “Todavia em 1955, o então Papa Pio XII entendeu por bem, já que tinham sido ultrapassadas aquelas lutas violentas, que agora era necessário humanizar o primeiro de maio. Passou a ser então o primeiro de maio de São José Operário. É isto que estamos aqui a festejar. A festa do trabalhador à maneira de Jesus Cristo, defendendo a dignidade humana com as armas do amor e do perdão que Jesus utilizou”, sustentou.
O sacerdote recordou também que seria recebido no passado domingo na cidade da Praia, D. Teodoro Mendes Tavares, o novo bispo da diocese cabo-verdiana de Santiago.

O cónego César Chantre invocou também a falecida cantora Titina, que durante vários anos marcou presença naquele encontro. “Vamos rezar nesta Missa por ela, a grande diva da canção cabo-verdiana, que nem sempre foi devidamente reconhecida, que nos acompanhou e foi batizada numa Missa destas na igreja de São José, em Ferreiras”, referiu antes da homenagem prosseguir com a execução de uma morna por dois músicos cabo-verdianos que a acompanharam durante vários anos.

Depois da Eucaristia, que incluiu a nomeação dos “juízes” do próximo ano, responsáveis por financiar aquele encontro, a festa prosseguiu com o habitual almoço e convívio no salão de festas da Câmara Municipal. A Missa – concelebrada pelo pároco de Loulé e reitor daquele santuário, cónego Carlos de Aquino; pelo seu capelão, padre Carlos de Matos; e pelo assistente do Secretariado da Mobilidade Humana da Diocese do Algarve, o padre Paulinus Anyabuoke – contou ainda com um representante da embaixada de Cabo Verde em Lisboa.

A comunidade cabo-verdiana já tem mais de meio século de presença no concelho de Loulé. Os primeiros cabo-verdianos fixaram-se aquando da construção da fábrica de cimento da Cimpor e desde então a comunidade não parou de aumentar, sendo nos primeiros anos na sua maioria trabalhadores do setor da restauração, da hotelaria e da construção civil.










