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Foto © Samuel Mendonça
Padre Miguel Neto

Os últimos dias trouxeram novamente, aos ecrãs de televisão, aos jornais, às redes sociais, uma inundação de imagens de violência.

Foi o horroroso atentado de Nice, que nos consternou e deixou com a sensação de que qualquer um pode ser terrorista: basta que tenha vontade e uma viatura e já pode ceifar a vida a largas dezenas de vítimas inocentes…

Ontem, mesmo, na Alemanha, mais um gesto de violência num comboio, trouxe a agitação e a sensação de insegurança…

E, está claro, o golpe de estado (ou pseudo golpe, vá-se lá saber!) na Turquia, cujas consequências ainda estamos longe de ter completa noção. Sabemos que morreram umas centenas de pessoas, sabemos que milhares foram despedidas e presas, sabemos que a tendência para o fechamento dessa sociedade em torno de valores radicais, fechamento esse que se vinha acentuando nos últimos anos, agora certamente se agudizará. Senão, vejamos as já existentes menções relativas ao regresso da pena de morte… O que isso trará para o resto da Europa é certamente uma incógnita, mas uma incógnita que nos deve preocupar a todos.

E aquilo em que tenho refletido a propósito destes acontecimentos é tão somente isto: o que está dentro de nós, seres humanos, que nos faz ser capaz de atingir extremos?!… Por um lado e num flash, somos capazes das maiores barbáries, matando sem olhar a quem, nem porquê, nem como… A violência que geramos, quer com gestos concretos, quer com palavras é assustadora, porque nos transporta para uma dimensão de ausência total de sentimentos, de ausência de tudo o que nos deveria diferenciar enquanto seres vivos dos demais: a capacidade de pensar e de sentir, organizando as nossas reflecções e emoções, capacitando-nos, enquanto seres gregários, para o respeito e a convivência com os outros…

E por outro lado, também no extremo, conseguimos ser solidários, compreensivos, abdicar de nós para dar aos outros, acolhendo e partilhando, sobretudo nestes momentos em que a violência aflora e deixa marcas…

Regresso à parábola do bom samaritano e vejo, com grande realismo, os homens que o agridem, sem remorso nem culpa interior, apenas para lhe tirarem os bens, para o humilharem, para o violentarem… Vejo o samaritano, que nada quis em troca, mas que o tratou, que o abrigou, que pagou as despesas deste homem que tudo perdeu… Vejo a humanidade dividida permanentemente ante a sua capacidade para o bem e a sua propensão para o mal… E acredito. Acredito que seremos sempre melhores, que buscaremos sempre a luz, que encontraremos sempre o caminho da salvação.

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