Padre Nuno Fileno apelou a uma Igreja que se aproxima dos cansados, escuta os desiludidos e volta a partir o pão para reacender a esperança

A Igreja algarvia deve “regressar” ao episódio evangélico de Emaús para reencontrar o caminho da renovação. Foi este o apelo central deixado pelo padre Nuno Fileno na conferência apresentada na Assembleia Diocesana do Algarve, onde propôs uma Igreja mais próxima, capaz de escutar, discernir e caminhar com as pessoas antes de lhes oferecer respostas.

 

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

O sacerdote da Diocese de Coimbra, licenciado Teologia Fundamental, refletiu sobre o encontro com Cristo como fonte da alegria, da esperança e da renovação eclesial. A sua intervenção partiu de uma pergunta fundamental — “de onde vive a Igreja?” — para responder que “a Igreja vive de Jesus Cristo”. “A renovação eclesial nasce do encontro com Cristo e só permanece autenticamente cristã quando reconduz a Cristo”, realçou na sua apresentação. Para o padre Nuno Fileno, a Igreja não se renova apenas através de uma maior eficiência ou de novas estruturas: “A Igreja não se renova simplesmente quando se torna mais eficiente. Renova-se quando se torna mais transparente de Cristo.”

A imagem de Emaús surgiu como síntese de todo o percurso. Os dois discípulos caminham afastados de Jerusalém, carregando uma esperança ferida. Jesus aproxima-se, pergunta, escuta, abre as Escrituras, senta-se à mesa e parte o pão. Só então os olhos se abrem e os discípulos regressam à comunidade. “É exatamente isso que Jesus faz no caminho de Emaús”, sublinhou o conferencista. A proximidade, advertiu, não pode ser apenas uma estratégia pastoral, mas deve ser compreendida como uma consequência da própria fé cristã: “Se Deus escolheu a proximidade como caminho da salvação, a Igreja não pode escolher a distância como método de evangelização.”

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A partir daqui, o padre Nuno Fileno deixou três interpelações à ação pastoral: “Não basta falar às pessoas, é necessário aproximar-nos delas”; “não basta ensinar-lhes aquilo que devem acreditar, é necessário conhecer aquilo que carregam”; e “não basta indicar um caminho, às vezes é necessário começar por caminhar com elas”.

Escutar antes de responder

A pedagogia de Emaús é, para o sacerdote, uma “pequena teologia da sinodalidade”. “Jesus ressuscitado conhece a resposta, começa por fazer uma pergunta”, dando aos discípulos a possibilidade de se exprimirem. “Deus sabe, mas pergunta, porque a pergunta oferece ao outro a possibilidade de se dizer. Aquele que é a Palavra viva começa por escutar”, afirmou. Cristo acolhe a experiência dos discípulos, mas não os deixa prisioneiros da sua desilusão: escuta e depois ilumina; caminha ao seu ritmo, mas abre-os à Palavra e corrige a leitura que fazem dos acontecimentos. “É esta combinação que a Igreja precisa sempre de reaprender”, declarou, defendendo uma escuta que não abdique da verdade e um acompanhamento que não abandone o horizonte cristão. “A evangelização começa muitas vezes pelo passo humilde de caminhar ao ritmo da ferida do outro”, acrescentou.

 

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Neste contexto, defendeu ser urgente uma “reativação da escuta eclesial”. “Uma Igreja que escuta”, explicou, não é autorreferencial nem transforma as pessoas em instrumentos da sua ação: “Uma Igreja que escuta não é autorreferencial, não esvazia a história de significado, não domestica o mistério de Deus, nem reduz a pessoa a um instrumento passivo da sua ação”.

O conferencista advertiu ainda para a diferença entre escutar e simplesmente concordar. “A escuta é o princípio do discernimento, não o seu substituto”, alertou, acrescentando que, por isso, a Igreja é chamada a acolher a experiência das pessoas sem as abandonar no lugar onde as encontra.

Uma esperança que nasce da ressurreição

A alegria cristã, recordou o padre Nuno Fileno, nasce do encontro com Jesus e não de uma “técnica de pensamento positivo”. A esperança também não pode ser confundida com uma “previsão otimista de que as circunstâncias correrão bem”. “A esperança não é otimismo. O otimismo depende frequentemente da previsão de que as circunstâncias vão correr bem. A esperança cristã pode permanecer quando as circunstâncias correm mal, porque não se apoia no que vemos. Apoia-se naquele em quem acreditamos”, sustentou. 

Por isso, a esperança da Igreja não depende das estatísticas, do número de pessoas reunidas ou da influência social conservada. “Nasce da ressurreição”, afirmou, convidando a Igreja a olhar para a realidade sem ingenuidade, mas também sem desespero.

Reencontrar o coração

Outra das dimensões centrais da conferência foi a necessidade de recuperar o coração como centro da pessoa e da vida eclesial. Inspirando-se na encíclica Dilexit Nos, do Papa Francisco, o sacerdote lembrou que uma comunidade pode ter estruturas, reuniões e atividades e, ainda assim, ter dificuldade em gerar encontro. “Talvez uma Igreja que deseja reencontrar a capacidade de evangelizar tenha primeiro de reencontrar o coração. Porque uma Igreja sem coração pode continuar a funcionar, pode ter estruturas, pode ter reuniões, pode produzir documentos, pode organizar atividades, mas terá dificuldade em gerar encontro”, afirmou.

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A renovação das estruturas, defendeu, tem de ser acompanhada pela renovação interior. “Caso contrário, mudaremos os mecanismos, mas conservaremos as distâncias”, alertou, acrescentando que “a primeira estrutura sinodal” a renovar poderá ser, precisamente, “o coração humano”.

Uma Igreja que recebe e se torna eucarística

A reflexão conduziu também à Eucaristia, apresentada não apenas como celebração, mas como forma de existência. Retomando a expressão de São João Paulo II, o padre Nuno Fileno recordou que “a Igreja vive da Eucaristia”. “A Igreja não constrói a sua própria vida, recebe-a. Antes de ser uma Igreja que faz, somos uma Igreja que recebe. Recebemos a Palavra, recebemos a graça, recebemos o Espírito, recebemos o Corpo, recebemos a missão”, referiu.

 

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O sacerdote sublinhou que a salvação é um dom, não uma conquista, e a vida cristã deve traduzir-se em passagem “da posse ao dom, da competição à comunhão e da indiferença à compaixão”. Entre as consequências pastorais propostas estiveram a criação de lugares de encontro, o tornar-se eucarístico, a transformação da sinodalidade numa cultura e a recuperação de uma “pastoral do nome”.

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“Uma Igreja renovada não se mede apenas por aquilo que consegue construir, mede-se também por aqueles que recusa abandonar”, afirmou. A atenção aos pobres deve ultrapassar uma lógica meramente assistencial. “Não basta fazer coisas pelos pobres, precisamos de permitir que o encontro com eles transforme a Igreja”, defendeu.

Regressar ao princípio

Na parte final, o padre Nuno Fileno retomou explicitamente o episódio de Emaús como programa pastoral para a Igreja de todos os tempos. “Precisamos só de regressar ao princípio, porque o princípio é Emaús para nos recordar exatamente aquela progressão de gestos, a parte da escuta, da partilha, do abrir a escritura. Portanto, está lá todo o programa pastoral da Igreja de todos os tempos”, disse.

 

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Apesar das dificuldades e das ausências, pediu que a Igreja não olhe apenas para o que está mal. “Ainda há «fogo» debaixo das «cinzas»”, disse, lembrando que basta uma pequena «brasa» e o sopro do Espírito para que o «fogo» se reacenda.

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A conclusão retomou, em forma de apelo, a cena evangélica que atravessou toda a intervenção: “A Igreja renova-se quando voltar a deixar Cristo fazer nela aquilo que fez naquela tarde em Emaús: aproximar-se dos cansados, escutar os desiludidos, abrir a palavra, permanecer quando anoitece e partir o pão que vinha acender o coração”.

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Depois, “resta levantar-se e regressar à estrada”, porque, concluiu o conferencista, “enquanto houver um coração em que Cristo possa acender esse fogo, a Igreja poderá sempre recomeçar”.

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