Padre Nuno Fileno apelou a uma Igreja que se aproxima dos cansados, escuta os desiludidos e volta a partir o pão para reacender a esperança
A Igreja algarvia deve “regressar” ao episódio evangélico de Emaús para reencontrar o caminho da renovação. Foi este o apelo central deixado pelo padre Nuno Fileno na conferência apresentada na Assembleia Diocesana do Algarve, onde propôs uma Igreja mais próxima, capaz de escutar, discernir e caminhar com as pessoas antes de lhes oferecer respostas.

O sacerdote da Diocese de Coimbra, licenciado Teologia Fundamental, refletiu sobre o encontro com Cristo como fonte da alegria, da esperança e da renovação eclesial. A sua intervenção partiu de uma pergunta fundamental — “de onde vive a Igreja?” — para responder que “a Igreja vive de Jesus Cristo”. “A renovação eclesial nasce do encontro com Cristo e só permanece autenticamente cristã quando reconduz a Cristo”, realçou na sua apresentação. Para o padre Nuno Fileno, a Igreja não se renova apenas através de uma maior eficiência ou de novas estruturas: “A Igreja não se renova simplesmente quando se torna mais eficiente. Renova-se quando se torna mais transparente de Cristo.”
A imagem de Emaús surgiu como síntese de todo o percurso. Os dois discípulos caminham afastados de Jerusalém, carregando uma esperança ferida. Jesus aproxima-se, pergunta, escuta, abre as Escrituras, senta-se à mesa e parte o pão. Só então os olhos se abrem e os discípulos regressam à comunidade. “É exatamente isso que Jesus faz no caminho de Emaús”, sublinhou o conferencista. A proximidade, advertiu, não pode ser apenas uma estratégia pastoral, mas deve ser compreendida como uma consequência da própria fé cristã: “Se Deus escolheu a proximidade como caminho da salvação, a Igreja não pode escolher a distância como método de evangelização.”

A partir daqui, o padre Nuno Fileno deixou três interpelações à ação pastoral: “Não basta falar às pessoas, é necessário aproximar-nos delas”; “não basta ensinar-lhes aquilo que devem acreditar, é necessário conhecer aquilo que carregam”; e “não basta indicar um caminho, às vezes é necessário começar por caminhar com elas”.
Escutar antes de responder
A pedagogia de Emaús é, para o sacerdote, uma “pequena teologia da sinodalidade”. “Jesus ressuscitado conhece a resposta, começa por fazer uma pergunta”, dando aos discípulos a possibilidade de se exprimirem. “Deus sabe, mas pergunta, porque a pergunta oferece ao outro a possibilidade de se dizer. Aquele que é a Palavra viva começa por escutar”, afirmou. Cristo acolhe a experiência dos discípulos, mas não os deixa prisioneiros da sua desilusão: escuta e depois ilumina; caminha ao seu ritmo, mas abre-os à Palavra e corrige a leitura que fazem dos acontecimentos. “É esta combinação que a Igreja precisa sempre de reaprender”, declarou, defendendo uma escuta que não abdique da verdade e um acompanhamento que não abandone o horizonte cristão. “A evangelização começa muitas vezes pelo passo humilde de caminhar ao ritmo da ferida do outro”, acrescentou.

Neste contexto, defendeu ser urgente uma “reativação da escuta eclesial”. “Uma Igreja que escuta”, explicou, não é autorreferencial nem transforma as pessoas em instrumentos da sua ação: “Uma Igreja que escuta não é autorreferencial, não esvazia a história de significado, não domestica o mistério de Deus, nem reduz a pessoa a um instrumento passivo da sua ação”.
O conferencista advertiu ainda para a diferença entre escutar e simplesmente concordar. “A escuta é o princípio do discernimento, não o seu substituto”, alertou, acrescentando que, por isso, a Igreja é chamada a acolher a experiência das pessoas sem as abandonar no lugar onde as encontra.
Uma esperança que nasce da ressurreição
A alegria cristã, recordou o padre Nuno Fileno, nasce do encontro com Jesus e não de uma “técnica de pensamento positivo”. A esperança também não pode ser confundida com uma “previsão otimista de que as circunstâncias correrão bem”. “A esperança não é otimismo. O otimismo depende frequentemente da previsão de que as circunstâncias vão correr bem. A esperança cristã pode permanecer quando as circunstâncias correm mal, porque não se apoia no que vemos. Apoia-se naquele em quem acreditamos”, sustentou.
Por isso, a esperança da Igreja não depende das estatísticas, do número de pessoas reunidas ou da influência social conservada. “Nasce da ressurreição”, afirmou, convidando a Igreja a olhar para a realidade sem ingenuidade, mas também sem desespero.
Reencontrar o coração
Outra das dimensões centrais da conferência foi a necessidade de recuperar o coração como centro da pessoa e da vida eclesial. Inspirando-se na encíclica Dilexit Nos, do Papa Francisco, o sacerdote lembrou que uma comunidade pode ter estruturas, reuniões e atividades e, ainda assim, ter dificuldade em gerar encontro. “Talvez uma Igreja que deseja reencontrar a capacidade de evangelizar tenha primeiro de reencontrar o coração. Porque uma Igreja sem coração pode continuar a funcionar, pode ter estruturas, pode ter reuniões, pode produzir documentos, pode organizar atividades, mas terá dificuldade em gerar encontro”, afirmou.

A renovação das estruturas, defendeu, tem de ser acompanhada pela renovação interior. “Caso contrário, mudaremos os mecanismos, mas conservaremos as distâncias”, alertou, acrescentando que “a primeira estrutura sinodal” a renovar poderá ser, precisamente, “o coração humano”.
Uma Igreja que recebe e se torna eucarística
A reflexão conduziu também à Eucaristia, apresentada não apenas como celebração, mas como forma de existência. Retomando a expressão de São João Paulo II, o padre Nuno Fileno recordou que “a Igreja vive da Eucaristia”. “A Igreja não constrói a sua própria vida, recebe-a. Antes de ser uma Igreja que faz, somos uma Igreja que recebe. Recebemos a Palavra, recebemos a graça, recebemos o Espírito, recebemos o Corpo, recebemos a missão”, referiu.

O sacerdote sublinhou que a salvação é um dom, não uma conquista, e a vida cristã deve traduzir-se em passagem “da posse ao dom, da competição à comunhão e da indiferença à compaixão”. Entre as consequências pastorais propostas estiveram a criação de lugares de encontro, o tornar-se eucarístico, a transformação da sinodalidade numa cultura e a recuperação de uma “pastoral do nome”.

“Uma Igreja renovada não se mede apenas por aquilo que consegue construir, mede-se também por aqueles que recusa abandonar”, afirmou. A atenção aos pobres deve ultrapassar uma lógica meramente assistencial. “Não basta fazer coisas pelos pobres, precisamos de permitir que o encontro com eles transforme a Igreja”, defendeu.
Regressar ao princípio
Na parte final, o padre Nuno Fileno retomou explicitamente o episódio de Emaús como programa pastoral para a Igreja de todos os tempos. “Precisamos só de regressar ao princípio, porque o princípio é Emaús para nos recordar exatamente aquela progressão de gestos, a parte da escuta, da partilha, do abrir a escritura. Portanto, está lá todo o programa pastoral da Igreja de todos os tempos”, disse.

Apesar das dificuldades e das ausências, pediu que a Igreja não olhe apenas para o que está mal. “Ainda há «fogo» debaixo das «cinzas»”, disse, lembrando que basta uma pequena «brasa» e o sopro do Espírito para que o «fogo» se reacenda.

A conclusão retomou, em forma de apelo, a cena evangélica que atravessou toda a intervenção: “A Igreja renova-se quando voltar a deixar Cristo fazer nela aquilo que fez naquela tarde em Emaús: aproximar-se dos cansados, escutar os desiludidos, abrir a palavra, permanecer quando anoitece e partir o pão que vinha acender o coração”.

Depois, “resta levantar-se e regressar à estrada”, porque, concluiu o conferencista, “enquanto houver um coração em que Cristo possa acender esse fogo, a Igreja poderá sempre recomeçar”.

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