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Infelizmente, a maioria de nós só conhece o período pós guerra e pós crise de 1929 do estudo da História. Digo infelizmente, porque isso implica sempre a morte de uns e o nascimento de outros, e porque os primeiros quarenta anos do século XX, por serem extramente difíceis, foram profundamente férteis em ensinamentos humanos. Sem essas sucessivas dificuldades que não só desvalorizaram, mas sobretudo banalizaram a vida humana, provavelmente, não tinha surgido a filosofia personalista que tanto influenciou o pensamento de João Paulo II sobre o real valor da vida humana e que ficou plasmada nos escritos do seu pontificado. Depois da morte massiva de seres humanos em duas guerras mundiais, conjugada com uma crise económica que fazia de qualquer homem um simples e insignificante instrumento de trabalho, importava olhar qualquer o homem como pessoa e não como um simples conjunto de matéria. Importava olhar a pessoa na sua inviolabilidade, liberdade, criatividade e responsabilidade, com alma encarnada em um corpo, situada na história, e constitutivamente comunitária, como preconizava Emannuel Mounier, iniciador da filosofia personalista.

A questão é que o tempo passou rápido e a memória presencial desses tempos reside nos livros históricos ou, com mais alguma profundidade, nos campos de concentração tornados museus. Não chega. Infelizmente não chega. Hoje, à procura da humanidade perfeita, matamos a saudável imperfeição humana e só isso explica que países como a Dinamarca e a Islândia estejam a erradicar as pessoas com síndrome de Down, uma vez que quando chega o resultado de um exame pré-natal que confirma que um bebé irá nascer com um cromossoma a mais, a primeira questão que vem da parte de um médico é: quando é que é para agendar a interrupção da gravidez? Esses países gabam-se de quotas de erradicação quase perfeitas. O problema é que hoje andamos à procura da eterna juventude, da perfeição total e cada vez mais não sabemos lidar com a nossa velhice e a velhice dos que nos são próximos. Talvez, também, seja essa a explicação para o facto de na Holanda se debater a distribuição gratuita de um comprimido letal a pessoas com idade superior a 70 anos que estejam “cansadas de viver”. Cansado de viver está quem não sente amor dos seus mais próximos. É o amor que nos dá força para viver. É o amor, o respeito, a solidariedade.

A questão hoje em dia é que se utiliza a raça, a cor da pele ou as origens étnicas para se conseguir objectivos ou para se vitimizar, quer seja na politica, no desporto ou nos mais variados aspetos da nossa sociedade, quando essa circunstância devia ser apenas um detalhe, uma vez que somos todos homens e mulheres em busca da eternidade.

O sinal de uma possível esquizofrenia societária é que os mesmos grupos societários que defendem a execução da eutanásia de um ser humano como um ato médico, são contra o abate de animais doentes nos canis ou defendem o surgimento de um Serviço Nacional de Saúde para animais, quando o dos seres humanos, por vezes, é tão incapaz.

Contradições? Incongruências? Radicalismos? Para mim, é simplesmente falta de amor para com o outro e para com Deus. Uma profunda falta de gratidão para com Deus, para com a obra que Ele nos deixou e nos pediu para cuidar. É imperfeita? Talvez. A perfeição da pessoa humana é a eternidade. E é esse caminho de busca da perfeição que temos de percorrer, seguindo a estrada do amor e do respeito pelo outro, pela sua vida.

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