O padre Pedro Manuel – que abordou nas XXIV Jornadas de Ação Sociocaritativa da Diocese do Algarve do passado sábado o tema “Gaudium et Spes, a fé que se faz ação” – deixou clara a importância daquela constituição saída do Concílio Vaticano II. “Não é apenas um documento histórico, é uma chave essencial para compreendermos a ação social da Igreja ontem e hoje. Este documento sobre a Igreja no mundo contemporâneo oferece à ação social da Igreja o seu fundamento teológico, antropológico e moral”, sustentou.

“A Gaudium et Spes recorda-nos que a fé cristã não se vive à margem da realidade, mas dentro dela. Cada gesto de cuidado, escuta, apoio ou defesa da dignidade humana é uma forma concreta de viver esta constituição”, prosseguiu o sacerdote da Diocese do Algarve, explicando que “a ação social da Igreja segundo a Gaudium et Spes tem três dimensões: a caridade, a justiça e a política”. 

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

O orador acrescentou então que a constituição pastoral ajuda a “perceber que a caridade responde à urgência”, que “a justiça transforma as estruturas” e que “a política, no seu sentido mais nobre, se é cidadania, é a forma mais elevada de caridade”. 

Nesse sentido, exortou mesmo a “uma caridade que seja capaz de inspirar a justiça e a política”, lembrando que “a Igreja não se identifica com partidos, mas forma consciências”. “É com base na nossa formação de consciência que somos todos convidados a promover uma cidadania mais ativa, a defender os mais frágeis e a colaborar com estruturas públicas sem perdermos a identidade cristã”, sustentou. 

O diretor do Centro Paroquial de Paderne lembrou assim que “a defesa dos mais frágeis, que nasce e acontece também na colaboração com estruturas públicas”, deve levar a evidenciar a identidade cristã daquelas instituições sociais. “Fazemos porque somos cristãos, porque somos seguidores de Jesus Cristo e porque para nós não existe branco ou preto, rico ou pobre, novo ou velho, existe Jesus Cristo e é Ele que passa pelo testemunho que somos chamados a dar todos os dias”, referiu, clarificando: “o objetivo não é que as pessoas que ajudamos comecem a ir à Eucaristia, é que, por meio de nós, descubram Jesus Cristo. E descobrir Jesus Cristo a partir das ações concretas que testemunhamos. Então não fazemos proselitismo, mas testemunhamos o Evangelho através do serviço”. 

O orador lamentou que as instituições católicas de ação social tenham de substituir o Estado, mas defendeu que “a Igreja deve participar de forma legítima na política e na vida do Estado” “com o objetivo de formar consciência” para que a “autoridade” seja “descoberta como o serviço do bem comum, sempre para apoio dos mais fracos”.

O padre Pedro Manuel acrescentou que “a Gaudium et Spes afirma que a economia deve estar ao serviço da pessoa e não o contrário”. “O trabalho é um direito e uma dignidade e a desigualdade social é um problema moral. É justamente aqui que somos capazes de encontrar o que está errado nos sistemas económicos fechados, porque precisamos de princípios éticos claros: solidariedade, prioridade dos pobres, destino universal dos bens e justiça social. Tudo isto nos é recordado e escrito pelo documento que norteia esta partilha”, sustentou. 

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

Lembrando que alguns daqueles agentes da pastoral social têm “grandes responsabilidades na contratação” de trabalhadores, defendeu que “o trabalho, como direito de quem o faz e de quem o promove, deve levar a uma opção preferencial não pela pobreza, mas pela dignidade”. “Assim conseguiremos corrigir aquele problema moral a que chamamos desigualdade social, nomeadamente no acesso que todos devem ter a um trabalho que dignifica, com condições, com regras e que está baseado justamente na lei”, acrescentou, lembrando que aqueles agentes sociocaritativos devem “anunciar a dignidade humana” e “denunciar as injustiças”. 

A sua intervenção contou, por isso e título de exemplo, com a denuncia de uma notificação a um guineense, “legal em Portugal até ontem”, “porque a sua morada oficial não correspondia à localidade do seu trabalho”, a quem foram dados 10 dias para resolver a situação. “A sua morada oficial é em Barcelos porque é aí que tem o primeiro familiar que cá chegou. Ele trabalha em Albufeira, paga 700 euros por pequeno um quarto dividido com mais dois colegas e divide uma casa de banho com outras pessoas que pagam o mesmo por quartos das mesmas dimensões. Não tem contrato de arrendamento e não tem trabalho em Barcelos”, contou. 

Acrescentando que “à volta do que é a pobreza não grassa só a desgraça”, mas “também acontece o amor”, testemunhou que “imediatamente duas ou três pessoas, incluindo uma advogada e uma professora, começaram a tentar encontrar uma via de legalidade para que possa haver justiça”. “Estou a falar de um caso numa paróquia que terá centenas de casos e numa região que terá milhares de casos como este, em que aqueles que são mais afetados pelo imediato são os pobres dos pobres e que muitas vezes ninguém vê”, considerou. 

Foto © Samuel Mendonça/Folha do Domingo

O sacerdote disse então ser necessário uma “voz ativa na promoção da fortaleza que contraria a vulnerabilidade e, sobretudo, no ajudar a ressurgir da esperança social a quem se acostumou a ser pobre”. “Ser pobre não é uma desgraça, mas ser miserável é. Então é preciso que se dê o encontro entre a miséria e a misericórdia, em que a misericórdia de quem serve ajuda a levantar e a reconstruir a miséria de quem sente que deixou de servir”, afirmou, acrescentando: “numa sociedade como a nossa, em que atualmente se cavalgam os conflitos sociais como se eles fossem um fim em si mesmos e não um desafio à aceitação da diferença, precisamos de continuar a anunciar que a paz nasce da justiça social e que exige solidariedade entre os povos”.

O padre Pedro Manuel exortou a “descobrir qual o papel do voluntariado no acompanhamento e na proximidade”, lembrando que “importa defender a pessoa dentro da sua realidade familiar, sem julgamentos, com respeito e misericórdia”. “A fé que se faz ação faz-me olhar para aquela pessoa e perceber que ela, muitas vezes, já está crucificada com Jesus e não precisa de ser crucificada também pelo nosso olhar. O nosso testemunho cristão deve levar-nos, como nos dizia o Papa Francisco em Lisboa, a olhar apenas uma vez de cima para baixo alguém: quando é para ajudar a levantar”, afirmou.

As XXIV Jornadas de Ação Sociocaritativa da Diocese do Algarve, sob o tema “Pobres sempre os tereis (Mt. 26,11)”, contaram com 51 participantes das paróquias de Boliqueime, Estoi, Ferreiras, Lagos, Santa Bárbara de Nexe e São Pedro de Faro, das Santas Casas da Misericórdia de Faro e de Silves, das Cáritas Paroquiais de Boliqueime, Cachopo, Loulé, matriz de Portimão, Nossa Senhora do Amparo de Portimão, São Brás de Alportel e Sé de Faro e da Sociedade de São Vicente de Paulo, elementos do Conselho Central do Algarve e também da conferência de Tavira.

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