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Padre Miguel Neto

Acredito que todos os que leem este meu texto sabem do que se passou em Londres esta semana e em Manchester, na anterior. Mais um atentado, que matou e feriu muitas pessoas. Acredito que menos saberão do que se passou no Egipto, pouco antes, com a morte de vários cristãos coptas, que se deslocavam a um mosteiro, em peregrinação.

Todos foram vítimas do terrorismo e os autores são os mesmos. São os radicais do DAESH, que se gloriam destes atos e os realizam para que o mundo continue a falar deles, a preocupar-se com eles, a dar-lhes protagonismo e tempo de antena. Eu, incluído, pois escrevo, agora, sobre este bando de gente sem coração e com muito pouca ou nenhuma humanidade.

Todavia, se olharmos bem para o que a imprensa e as redes sociais noticiaram sobre este atentado da metrópole britânica e tivermos como base de comparação o que aconteceu em atentados anteriores, como por exemplo, os de Paris ou de Nice, perceberemos que muito menos se disse, muito menos se mostrou e opinou.

Não é apenas cansaço, nem tão pouco o estabelecimento de uma couraça que nos permite considerar normal e aceitável esta situação. Pelo menos, é o que quero acreditar, pois daqui em diante, eu terei essa atitude. É, julgo eu, uma forma de não cair na estratégia de quem quer semear o terror. Não falar deles, não assumir o medo, não permitir que se congratulem por promoverem mudanças de hábitos ou por criarem à volta de qualquer acontecimento, ondas de segurança extra ou receios de participação.

Recordo que um dos comentários mais vivos que circulou nas redes sociais, por estes dias, era associado a uma imagem de um jovem londrino, que fugindo do local onde os terroristas atacavam, continuava a transportar um copo de cerveja, para continuar a confraternizar com todos os que com ele fugiam. Este gesto “cool” de resistência e de persistência na normalidade é, hoje, aquilo que mais se escuta em todos os cidadãos britânicos entrevistados pelas televisões do mundo: não vamos mudar as nossas vidas, queremos que tudo continue a ser como é e não deixaremos que os terroristas vençam.

Se ninguém desse notícias de atos destes, talvez o DAESH e os seus fanáticos seguidores no mundo inteiro já tivessem desistido de se atirar em carros, de atacar com facas, de se fazerem explodir. E, por isso, esta será a última vez que eu próprio falo deste tipo de situações. O meu silêncio é de protesto e de solidariedade com todos os que são vítimas diretas, mas é também de luta por todos nós, vítimas indiretas e potenciais, para que a voz da violência não se faça ouvir e esta ausência de ruido seja muito mais intensa que qualquer atentado. Porque será o silêncio a falar da desgraça.

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