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Padre Miguel Neto
Padre Miguel Neto

Durante séculos, vários católicos afirmaram dogmaticamente que “Roma locuta est, Causa finita est”. Com a Exortação Apostólica “A alegria do amor”, o Papa Francisco termina com as normativas pastorais gerais para toda a Igreja, para dar lugar ao encontro de cada um como crente com Deus, de acordo com as circunstancias da vida de cada Homem. O Papa escreve que «nem todas as discussões doutrinais, morais ou pastorais devem ser resolvidas através de intervenções magisteriais». Por conseguinte, para algumas questões «em cada país ou região, é possível buscar soluções mais inculturadas, atentas às tradições e aos desafios locais. De facto, “as culturas são muito diferentes entre si e cada princípio geral (…), se quiser ser observado e aplicado, precisa de ser inculturado”» (AL 3). Este princípio de inculturação revela-se como muito importante, até no modo de articular e compreender os problemas, modo esse que não pode ser «globalizado».

Sendo o matrimónio cristão e o ambiente familiar o âmbito temático onde esse documento se move, é importante verificar que o realismo diante das diversas situações conjugais ajuda a não apresentar «um ideal teológico do matrimónio demasiado abstrato, construído quase artificialmente, distante da situação concreta e das possibilidades efetivas das famílias tais como são» (AL 36). Por isso, não se pode considerar que se possa apoiar as famílias «com a simples insistência em questões doutrinais, bioéticas e morais, sem motivar a abertura à graça» (AL 37). Na verdade, o grau de responsabilidade não é igual em todos os casos conjugais e podem existir fatores que limitem a capacidade de decisão. Nessa conformidade, ao mesmo tempo que se exprime com clareza a doutrina, há que evitar juízos que não tenham em conta a complexidade das diferentes situações e é preciso estar atentos ao modo como as pessoas vivem e sofrem por causa da sua condição» (AL 79).

Na globalidade a exortação apostólica “A alegria do amor” é um convite à misericórdia e ao discernimento pastoral diante de situações que não correspondem plenamente ao que o Senhor propõe. O Papa Francisco realça três verbos muito importantes: «acompanhar, discernir e integrar», os quais são fundamentais para responder a situações de fragilidade, complexas ou irregulares. Em seguida, apresenta a necessária gradualidade na pastoral, a importância do discernimento, as normas e circunstâncias atenuantes no discernimento pastoral e, por fim, aquela que é por ele definida como a «lógica da misericórdia pastoral».

No que respeita ao «discernimento» acerca das situações «irregulares», o Papa observa que «temos de evitar juízos que não tenham em conta a complexidade das diversas situações e é necessário estar atentos ao modo em que as pessoas vivem e sofrem por causa da sua condição» (AL 296). Em geral, o Papa Francisco deixa uma afirmação importante para que se compreenda a orientação e o sentido da Exortação: «Se se tiver em conta a variedade inumerável de situações concretas (…) é compreensível que se não devia esperar do Sínodo ou desta Exortação uma nova normativa geral de tipo canónico, aplicável a todos os casos. É possível apenas um novo encorajamento a um responsável discernimento pessoal e pastoral dos casos particulares, que deveria reconhecer: uma vez que “o grau de responsabilidade não é igual em todos os casos”, as consequências ou efeitos duma norma não devem necessariamente ser sempre os mesmos» (AL 300). O Papa Francisco deixa explícito que «nenhuma família é uma realidade perfeita e confecionada duma vez para sempre, mas requer um progressivo amadurecimento da sua capacidade de amar (AL 325).

Assim, em primeiro lugar a Exortação Apostólica “A Alegria do Amor” oferece a garantia de que a Igreja e os seus ministros se preocupam com todos os casais cristãos que vivam sob as mais diversas formas de vida conjugal e com a sua situação concreta. O Papa Francisco quer que eles sintam e saibam que fazem parte da Igreja. Não foram excomungados (AL 243). Aliás, quem estiver numa situação denominada como “irregular” deve merecer uma atenção especial por parte de toda a comunidade cristã. A Exortação Apostólica “A Alegria do Amor” oferece esperança, não uma lista de regras ou de condenações, mas um apelo à aceitação e ao acompanhamento, ao envolvimento e à integração. Mesmo quando as pessoas – por razões muito diversas – não conseguiram viver de acordo com os ideais dos ensinamentos cristãos, a Igreja e os seus ministros querem estar ao seu lado para as ajudar na sua caminhada. Numa palavra, a Exortação Apostólica “A Alegria do Amor” apresenta propostas para que a Igreja e os seus pastores mudem o seu foco a respeito da família: acompanhar, integrar e permanecer próximo de todos os que sofreram os efeitos de um amor ferido. Desafia-nos a sermos compreensivos diante de situações complexas e dolorosas. O Papa Francisco deseja que nos aproximemos dos fracos com compaixão e não com julgamentos e a “entrar em contacto com a vida concreta dos outros” e a “conhecermos a força da ternura” (AL 308).

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