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Mandam as regras que saiamos à rua de máscara, sobretudo, se tivermos como destino algum local fechado, não descurando também, a distância de segurança.

Regra geral, encaramos estes dias de reabertura do país, e de nós próprios, aos outros e à vida que corre lá fora, como um desejo antigo, com mais de dois meses, e com o sentimento de aos poucos, estarmos a regressar à normalidade. Mas que normalidade é esta? Haverá na vida uma normalidade definida?

Afirmar um regresso à normalidade é retirar à vida a sua dimensão de surpresa, e tudo aquilo que ela tem de inesperado, porque a vida não é uma normalidade carregada de monotonia, feita em linha recta, com uma meta bem visível aos olhos de cada vivente. A vida não é a mesma rotina todos os dias do ano. Não nos dá sempre as mesmas alegrias, nem nos traz sentimentos de tristeza, sempre do mesmo jeito e/ou com a mesma intensidade, porque ela é dinâmica e muitas vezes imprevisível, podendo isso jogar a nosso favor, ou contra nós, dependendo da postura que assumimos perante tudo o que nos envolve.

Não descurar o factor surpresa no tempo que nos é concedido viver, é ter uma existência de maior qualidade e de enorme profundidade, fazendo com que tenhamos a capacidade de entender que aquilo que agora vivemos mais ou menos agradável, mais ou menos empolgante, deve ser enfrentado como o que há exactamente para viver e para ser, sem entrarmos em espirais de desejos idealistas e utópicos, que retiram sabor à caminhada, porque nos desligam do que é a verdadeira realidade, mantendo-nos igualmente desligados do que desejaríamos viver. Resta-nos o vazio.

Temos a tal sensação de regresso à normalidade, mas basta sairmos à rua para observar rostos que, embora “mascarados”, estão carregados de pânico no olhar. Temos medo uns dos outros, e constituímos ameaça uns para os outros. Basta reflectirmos sobre as nossas esperas em filas, seja no supermercado ou na tabacaria. Se existir alguém atrás, no nosso entender, demasiado próximo, logo sairá, no pouco que a máscara deixa ver, um olhar recriminatório portador de uma mensagem direta: “chega-te para lá.” Até mesmo durante o tempo em que fazemos as compras no supermercado, procuramos os corredores com menos afluência, deixando de entrar onde queríamos, porque há alguém, exactamente diante do local onde desejamos parar, fazendo com que continuemos a marcha e voltemos pouco depois, na esperança de já estar “livre”. Cruzamo-nos com os outros nas ruas, e existem mudanças de passeio, ou, na impossibilidade disso, desvios do olhar, porque se os nossos olhos se cruzarem com os do outro, pode haver contaminação. Até o mero cumprimento de circunstância e de boa educação foi totalmente abolido, não vá algum perdigoto, saído de um “bom dia”, ou de um simples aceno com a cabeça, passar a máscara e infectar a outra pessoa. Mesmo assim, continua-se a achar que este é o caminho de regresso à normalidade. Uma normalidade onde até as boas maneiras de viver em sociedade, como seres em relação, se perderam, sendo o medo quem mais ordena.

Nas Misericórdias, IPSS, ou simplesmente numa casa comum, existem velhos que continuam obrigados à permanência em cativeiro. E são muitos. Há excepções, felizmente, mas, elaboram-se normas para a segurança das pessoas na reabertura dos diversos serviços e instituições, e porque é que não se definem medidas concretas para os velhos, com o intuito de se quebrarem estes isolamentos dolorosos, estejam eles institucionalizados, ou nas suas casas? Eles têm de ser retirados deste cativeiro, em muitas situações, privados da família, do toque, do abraço, de um beijo, do simples olhar nos olhos aqueles que amam, e até das lágrimas partilhadas, caso contrário, não morrerão do vírus, mas de tristeza e solidão. Não entender isto, é não respeitar homens e mulheres que nos precederam e que já venceram muitas batalhas, para termos muito do que hoje usufruímos. É fazer deles uns coitadinhos, incapazes de se protegerem, mas, é, sobretudo, dizer-lhes que já não têm mais direito a sonhar, e que devem estar fechados, até ordens contrárias.

É esta a normalidade da vida? Não a aceito assim, como não aceito que a contagem diária de óbitos seja de tal modo “normal”, que não nos apercebamos que estamos sempre a tratar de vidas ceifadas, fazendo com que se diga que no dia tal morreram “só” x pessoas, mostrando que houve uma redução. É positivo? Logicamente. Porém, embora seja mais animador, enquanto se tratarem de vidas perdidas, não deixa de ser negativo e profundamente doloroso. É esta a normalidade, ou já é uma banalidade?

Vem-me à memória a canção de Beth Carvalho e Mercedes Sosa, Eu só peço a Deus, que suplica assim: “eu só peço a Deus/que a dor não me seja indiferente/que a morte não me encontre um dia/solitário sem ter feito o que queria.”

Esta pandemia fez-nos reiventar as nossas relações e comunicações. Não sendo o ideal, tem servido para diminuir os danos. Mas, não deixemos que isto se torne na nova normalidade, porque todos têm sonhos, e merecem realizá-los.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

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