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Padre Miguel Neto

Por estes dias é inevitável não abordar a questão dos grandes incêndios que deixaram o nosso país de luto.

Poderia abordar este tema de várias perspetivas: uma análise pura e dura dos acontecimentos e das ações tomadas pelos decisores; uma análise sobre os problemas gerados pela desflorestação e pelo abandono da terra e da pastorícia; uma análise sobre a cobertura noticiosa dos eventos, que nos tem dado momentos de grande oportunidade para reflexão; enfim, poderia falar da solidariedade que se gerou e que é peculiar ao povo português, ou da petição que circula para que se reintroduzam os trabalhos forçados dos presos, através da limpeza obrigatória das matas. Tantos pontos de vista e tantos ângulos, falando jornalisticamente.

Mas a verdade é que me sinto um pouco dormente com toda a situação. Sinto uma profunda tristeza e uma imensa solidariedade com todos aqueles que perderam famílias inteiras, que perderam todos os seus haveres, que perderam histórias, memórias, lugares…. Perderam todas as referências e, certamente, nesta hora, sentem um grande, um enorme vazio. Sinto-me aturdido e preocupado, pois todas estas pessoas precisam de ajuda agora, é verdade, mas precisarão da mesma ajuda daqui a um ano, quando finalmente tudo se estabilizar e a perceção total e completa da tragédia tomar forma. E será que vamos ser capazes de garantir isso? Será que vamos ser capazes de garantir que todos os apoios serão efetivamente canalizados para quem precisa deles? Será que vamos dar destino útil à generosidade de tantos? Faço-me muitas perguntas e percebo que, a propósito deste tema, há muita vozearia, muitas pessoas que se apressam a criticar e a propor teorias, que em situação normal não sei se mostraram ou se voluntariamente ofereceram como contributo para melhorar o que pode e tem de ser melhorado.

Acho que este momento deveria ser aquilo que foi oficialmente decretado e que todos, interiormente, deveríamos aceitar: um tempo de luto e de silêncio, um tempo de respeito e reflexão. E depois, findo tal momento e apurados todos os factos importantes, analisadas todas as ações, se proceda uma avaliação rigorosa do que foi desenvolvido e do que deve ser tido em conta no futuro. A serenidade ajudaria em muito todo este processo e evitaria as situações tristes a que assistimos em diretos de TV, em debates e entrevistas…

A tragédia não é um espetáculo, muito menos um espetáculo coletivo, que todos alimentamos com uma curiosidade voraz e sem filtros. A tragédia é algo extremamente pessoal e interior, algo que cada um deve poder viver no seu ritmo e da sua maneira própria, tendo as suas ações guiadas somente pela solidariedade e pelo respeito pelo próximo. E este é o tempo de luto. Só isso.

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