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Oliveira Martins falou sobre política: «Não se pode pedir a outro que suje as mãos por nós»

© Samuel Mendonça
© Samuel Mendonça

No período de debate, após a comunicação proferida por Guilherme de Oliveira Martins no Simpósio Vaticano II – 50 anos, abordou-se o tema “políticos e vida política”.

Questionado sobre a responsabilidade dos cristãos e daqueles que exercem atividades nesta área, o Presidente do Tribunal de Contas, que foi também Secretário de Estado da Administração Educativa (1995-1999), Ministro da Educação (até 2000), das Finanças (2001-2002) e da Presidência (2000-2002), afirmou ser necessário compreender que «há uma responsabilidade dos cristãos na política». «Ser político», afirmou, «é assumir que cada um tem direito à dignidade e a ter respostas e os cristãos não podem deixar de estar no mundo da política com esta postura. A responsabilidade política é, como dizia Giorgio Lapira (Síndaco de Florença, cujo processo de beatificação está atualmente em análise), sujar as mãos, ou seja, fazer, agir, construir a cidade/”Polis”, como o artífice constrói uma peça; as mãos têm de se sujar e não se pode pedir a outro que suje as mãos por nós».

Para Oliveira Martins cabe a cada batizado «responder na medida das suas capacidades, numa lógica de respeito mútuo» e aqueles que estão na vida política, desempenhando funções ativas, não poderão descurar essa sua missão. «Santidade e política não podem ser conceitos contraditórios», disse.

Nesse sentido, a existência de uma «democracia e cidadania, baseada na pessoa humana» deve ser um objetivo, devendo os cristãos reconhecer que «a legitimidade da participação e do voto, essa participação na cidade/”Polis”, deve ser estimulada», pois, na perspetiva do comunicador «ela corresponde à pergunta: o que fizeste com os talentos que te dei?».

Já no que concerne à corrupção, Oliveira Martins foi muito perentório: «O risco dela existir está muito mais próximo de cada um de nós do que podemos suspeitar; começa num pequeno favor e acaba num crime». Este risco deverá fazer-nos entender que «não há duas sociedades, a dos corruptos e a dos não corruptos» e que «a compreensão da pessoa humana parte da própria imperfeição», pois os cristãos não são «melhores nem piores que os outros». A propósito, recordou a figura de S. Pedro: «Não podemos esquecer que a sociedade em que vivemos – e nas escrituras vêmos isso – é imperfeita, tanto que S. Pedro também caiu e todos nós caímos com ele. Somos imperfeitos, podemos cair e temos de perceber quais são os riscos reais para poder evitá-los».

Esta lógica de preocupação com o outro vai ao encontro do conceito de missionação, que Oliveira Martins considerou «muito atual». Referindo-se a este papel da Igreja e dos Cristãos, salientou a importância do exemplo/testemunho, como forma de ligação entre a Fé e o compromisso. Esta ideia, na sua perspetiva, está claramente presente nas palavras do Papa Francisco, quando exorta os católicos a atender às periferias e, através do testemunho, evangelizar. «Temos de encontrar respostas para aqueles que precisam de nós e muitas vezes não temos tempo nem disponibilidade para isso», comentou e concluiu: «A fé faz-nos ver que não estamos sós e que há urgência de estarmos próximos dos outros. Essa necessidade urgente deverá fazer-nos, às vezes, abandonar o ato de orar, para nos envolvermos no ato de não ser cego ao próximo e logo, agindo, estaremos a fazer uma oração, pois conceito de oração é: “tive fome e deste-me de comer, tive sede e deste-me de beber”.»

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