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É sempre assim, chegado o mês de dezembro, as estações de rádio, os programas de televisão e especialmente os espaços comerciais, recorrem à chamada música de natal para criar um espírito natalício, por vezes mais vocacionado para o consumismo do que para a celebração cristã do mistério do nascimento de Cristo.

A música de natal assume variadas formas. O género inclui composições da tradição popular, música clássica sacra, espirituais negros ou simples canções pop-rock, que têm por tema o natal enquanto festa da família, o Pai Natal (na vertente mais infantil), e até romances de natal (basta lembrar o célebre Last Christmas de George Michael).

Se, é certo, muitas das canções de natal pouco têm a ver com o verdadeiro motivo pelo qual celebramos o natal, outras constituem magníficos momentos de celebração do nascimento de Jesus Cristo. É o caso de Silent Night, a mais universal das canções de natal. O tema é originário da Áustria, e foi composto na véspera de natal de 1818 pelo mestre-escola e organista Franz Gruber com o título Stille Nacht, sendo que a versão mundialmente conhecida (e gravada por centenas de artistas) apresenta letra em inglês, escrita em 1859, pelo padre John Freman Young.

Mas se a música de natal remonta pelo menos à Idade Média, foi o século XX, com a emergência da cultura de massas alicerçada nas indústrias discográfica e cinematográfica, que assinalou o apogeu deste estilo musical. Com efeito, as décadas de 1940, 1950 e 1960 constituíram uma verdadeira eram de ouro da música de natal, graças ao talento de um conjunto de intérpretes de excepção que marcaram a música popular norte-americana. Artistas como Bing Crosby, Louis Armstrong, Ella Fitgerald, Frank Sinatra, Nat King Cole, Doris Day, Dean Martin, Elvis Presley, Bobby Darin e Andy Williams, entre outros, gravaram mais de duas dezenas de álbuns clássicos, cuja qualidade parece ser, no actual panorama da indústria musical, inultrapassável.

Podemos afirmar que tudo começou em 1942 com a gravação de White Christmas por Bing Crosby, um sucesso mundial quase replicado no ano seguinte por Nat King Cole com The Christmas Song, duas canções cujo sucesso transformou a música de natal num produto importante para a indústria discográfica. No entanto, foi com a introdução do formato long play (album) em meados dos anos cinquenta, que a música de natal ganhou maior importância na estratégia das grandes casas editoras dos EUA. Entre os muitos álbuns editados nos EUA entre meados dos anos 50 e finais dos anos 60, gostaria de destacar três álbuns que representam um verdadeiro catálogo da melhor música natalícia, em gravações de enorme qualidade artística.

Em 1958, no auge criativo da sua carreira, o artista que ficou conhecido como “A Voz”, gravou o album A Jolly Christmas from Frank Sinatra, com arranjos e direcção de orquestra de Gordon Jenkins. Entre os 12 temas gravados por Sinatra encontramos interpretações superlativas de canções como White Christmas – escrita por Cole Porter para o filme Holiday Inn (1942), e Have Yourself a Merry Little Christmas, uma composição de Hugh Martin e Ralph Blane para o filme Meet Me in Sto Louis (1944), no qual foi interpretado por Judy Garland.

No entanto, é no lado B, deste álbum histórico que encontramos as verdadeiras canções de natal cristãs, nomeadamente composições de tradição clássica como The First Noel, Adeste Fidelis, Hark The Herald Angels Sing e Silent Night. Entre as canções de temática sacra do álbum, é justo destacar It Came Upon a Midnight Clear, uma bonita composição de 1850, da autoria do norte-americano Richard S. Willis (aluno do célebre compositor e maestro alemão Felix Mendelssohn), que, não fosse esta gravação de Frank Sinatra, estaria hoje praticamente esquecida.

Em 1960, Nat King Cole, o inesquecível intérprete de Mona Lisa e tantos outros êxitos, entre os quais The Christmas Song, gravou o seu único álbum inteiramente dedicado a temas de natal. Intitulado The Magic of Christmas, o álbum contou com arranjos de Ralph Carmichael que conduziu a orquestra Capitol em 14 temas de temática religiosa, onde se destacam belíssimas interpretações de Away in a Manger, O Tannenbaum e Silent Night. Este álbum inclui também uma interpretação brilhante do tema A Cradle in Bethlehem, da autoria de Larry Stock e Alfred Bryan, compositores que ofereceram ao lendário Nat King Cole, uma das mais belas canções da sua extraordinária carreira musical.

São vários os cantores norte-americanos do pós-II Guerra Mundial cuja carreira é indissociável do êxito obtido pelos seus discos de Natal. Entre estes, merece destaque Andy Williams, um dos grandes vocalistas dos anos sessenta e setenta, que obteve enorme sucesso com os álbuns The Andy Williams Christmas Album (1963) e Merry Christmas (1965), gravados para a editora Columbia Records com produção de Robert Mersey. Ambos os álbuns apresentam uma mescla de canções de natal seculares e  composições de temática sacra. Contudo, Merry Christmas, editado em novembro de 1965, apresenta um conjunto particularmente interessante de temas que, sendo menos conhecidos do grande público, constituem excelentes exemplos da música anglo-saxônica de temática religiosa do século XX, nomeadamente Sweet Little Jesus Boy de Robert MacGimsey, Do You Hear What I Hear? de Noel Regney  e Gloria Shayne, e ainda Some Children See Him, do compositor Alfred Burt, temas que o cantor soube interpretar com um sentimento e devoção bem reveladores da sua formação cristã.

Depois da grande pintura clássica, a música é a manifestação artística que mais obras produziu em celebração do nascimento de Jesus Cristo. Enquanto os cristãos celebrarem o Natal, o trabalho destes artistas continuará a ser redescoberto e revisitado, pois não só evoca todo um imaginário natalício, como constitui uma parte importante da história da arte e cultura ocidentais.

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