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Foto © Samuel Mendonça
Padre Miguel Neto

Na hora em que escrevo este texto, chove torrencialmente. Por muitas estradas deste nosso país, milhares de pessoas caminham, indiferentes à chuva, com um destino só: Fátima. Ao longo de vários dias, novos, velhos, homens e mulheres, todos são, primeiramente, seres humanos, irmanados num desejo forte de cumprir algo – um desejo interior, uma promessa, uma missão… – e, depois, todos são, pelo menos até ao momento de chegarem, verdadeiramente crentes – crentes na fraternidade que se torna única quando se faz um caminho difícil, crentes na esperança de encontrar respostas e cumprir promessas, crentes nos gestos que poderão depois não voltar a repetir, crentes nas suas forças, crentes no auxílio da Virgem Maria, que os motiva a caminhar, crentes no Pai, em cuja casa esperarão descansar e encontrar paz.

Todos se dirigem a um lugar onde sabemos que a presença da Mãe de Cristo é viva e eterna, porque ali se deu a conhecer a três crianças, que perpetuaram os seus ensinamentos e pedidos.

Maria, Mãe da Humanidade, foi desde o primeiro momento, uma força positiva e, ainda que discreta, muito influente junto de Seu Filho. Trabalhadora, como seriam todas as mulheres do seu tempo, mãe cuidadosa, revelou uma capacidade única de pensamento e uma imensa, enorme, incomensurável força de caráter e de convicções, que a colocou no lugar mais crítico: o de ser mãe do Filho de Deus. Viveu intensamente a sua humanidade, sendo solidária, cumprindo os preceitos da sua religião, cuidando dos seus afazeres. Certamente terá passado longas noites sem dormir, questionando-se sobre as razões da sua escolha, as incertezas do futuro, os problemas do quotidiano. Maria era uma mulher. Especial, porque tocada por Deus, mas uma mulher, capaz de sentir, de viver e compreender tudo aquilo por que passam as mulheres, porque passaram aquelas que viveram a seu lado.

E é no mês em que se fala da Virgem de Fátima, que o Papa Francisco, através da sua Rede Mundial de Oração, nos desafia a todos para olharmos as mulheres do mundo, de modo a tentarmos perceber como são tratadas hoje, numa sociedade que se diz cada vez mais igualitária e respeitadora de direitos humanos básicos. Diz o Papa: «É inegável o contributo das mulheres em todas as áreas do agir humano… a começar pela família. Mas reconhecê-lo, será o suficiente? Temos feito muito pouco por mulheres que se encontram em situações muito duras. Desprezadas, marginalizadas e até reduzidas à escravatura. Devemos condenar a violência sexual que as mulheres sofrem e eliminar os obstáculos que impedem a sua plena inserção na vida social, política e económica.»

Há tantas mulheres especiais no mundo, invisíveis, desconhecidas, grandiosamente capazes intelectualmente, afetivamente, solidariamente… Todas elas são um bocadinho do rosto de Maria, um bocadinho dos seus braços generosos, um bocadinho do seu coração alegre ou sofredor, um bocadinho da sua entrega e confiança…

Por isso, mais do que qualquer outra coisa, desafio todos os caminhantes – aqueles que fisicamente se dirigem ao Altar do Mundo ou a todos os que, em espírito, se associam a uma peregrinação sempre grande – a olharem para Maria, não apenas como a resposta para as suas dores e aflições, mas como uma mulher verdadeira e inteira, que soube doar totalmente o seu coração, aceitando as dores e os problemas, transformando-se inteiramente na palavra Amor. E a verem nela os rostos de todas as mulheres que conhecem e que se fizeram Amor nas suas vidas. Nesta comunhão, todos rezaremos pela intenção do Papa para este mês: “Pelas mulheres na sociedade”

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