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Foto © Samuel Mendonça
Padre Miguel Neto

Nos últimos dias, tenho dado, como muitos, julgo eu, grande atenção ao europeu de futebol e a outros jogos, que decorrem na Copa América. As grandes seleções do mundo estão a defrontar-se para disputar os títulos continentais e os amantes do desporto querem saber quem ganha, quem perde, quem joga, a que horas e, se possível, acompanhar os favoritos. Naturalmente, entre nós a equipa preferida é a seleção portuguesa, por quem vibramos e a quem desejamos que vá longe e chegue à vitória.

São as dores de uns, os falhanços de outros, os desabafos do selecionador, os comentários de tantos comentadores… Horas de imagens televisivas, milhões de posts nas redes sociais, um manancial de informação inesgotável e extremamente apetecível.

Os noticiários mudam de horário, as programações reorganizam-se e os jornais dedicam páginas especiais a este que é um de dois grandes acontecimentos desportivos deste verão, porque já a seguir virão os Jogos Olímpicos…

Eu, que até sou uma pessoa atenta, não tenho acompanhado a informação diariamente, preferindo os jogos de futebol… E por essa razão, ainda não consegui perceber bem o que se passa com os bancos…. Com a Caixa Geral de Depósitos, com a recapitalização e as várias soluções possíveis, com a possibilidade de esta passar para mãos estrangeiras….. Com as decisões de comissões de inquérito, que decorrem à hora dos jogos de futebol… Com as vontades políticas, nacionais e internacionais, que tanto se esgrimam sobre este tema…

Não consegui perceber porque estão os bancos portugueses falidos e em vias de nos deixar à beira de um novo precipício. Não percebo nada… Não tenho tempo para digerir esse tipo de informação. Estou, como acredito, a grande maioria dos portugueses, absorvido por algo muito mais motivante e descontraído do que os assuntos de Estado e apenas vejo sorrisos no Primeiro-Ministro, trocas de olhares azedos entre membros de partidos, cautela no rosto do Ministro das Finanças, tudo como num filme mudo, em que os conteúdos se deduzem e muitos se perdem na interpretação obrigatoriamente subjetiva que cada um faz das emoções visíveis.

Juvenal, poeta satírico romano, terá sido o primeiro, segundo se crê, a usar a expressão Panem et circenses, ou seja, pão e circo. Na verdade, durante os períodos da República e do Império Romanos era hábito distribuir em determinadas ocasiões pelos cidadãos trigo, ou seja, pão e organizar grandes espetáculos nos anfiteatros, ou circos. Todos identificamos as lutas de gladiadores como um desses momentos de grande animação e frenesim.

A expressão vingou e hoje continua a ser usada, sobretudo para descrever estes momentos que agora vivemos: a alegria da festa, que nos desvia o olhar e a atenção daquilo que é importante e essencial. E nos dificulta a compreensão do que nos rodeia.

E é nestes momentos, em que a nação se entrega ao circo e ao pão, que as coisas mais sérias acontecem, sabiamente geridas pelos políticos…

Penitencio-me pela minha humanidade, que me faz agarrar ao futebol e prometo que me vou esforçar por perceber tudo o que diz respeito à recapitalização dos bancos. E vocês?!…..

Padre Miguel Neto

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