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Foto © Samuel Mendonça
Padre Miguel Neto

Pós-verdade – é um adjetivo«que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais factos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais» (https://en.oxforddictionaries.com/definition/post-truth). É, também, a palavra do ano, para a Oxford Dictionaries, o departamento da universidade de Oxford responsável pela elaboração de dicionários, que todos os anos elege uma palavra para a língua inglesa. Pós-verdade” (ou “post-truth”) é a palavra de 2016. 

Comentadores políticos, sociólogos e analistas de diferentes áreas têm, ao longo dos últimos 10 anos, vindo a empregar este termo (que foi usado pela primeira vez em 1992 pelo dramaturgo sérvio-americano Steve Tesich) e em 2016, alguns acontecimentos determinaram que a palavra fosse dois mil por cento mais utilizada do que em períodos anteriores: a campanha do “Brexit” (saída do Reino Unido da União Europeia) e as eleições presidenciais norte-americanas, que culminaram com a eleição de Donald Trump. 

Tudo passa a ser muito simples, nesta era da “pós-verdade”: se alguém ficar a par do boato (que efectivamente circulou) de que o Papa Francisco apoiava a candidatura de Donald Trump, podem vir as fontes mais credíveis e fiáveis (quiçá o próprio Papa) desmentir tal boato, que para a grande maioria das pessoas isso não terá valor nenhum. Apenas confiarão na primeira informação, naquela que está mais próxima das suas próprias convicções, daquela que as reforça e amplia. O boato passa, por isso, a ter a mesma importância que o facto real e confirmado. E as campanhas que mencionei anteriormente foram pródigas neste tipo de situação, apresentando verdades como mentiras e mentiras como verdades, senão vejamos: uma investigação da Buzzfeed (plataforma independente que analisa notícias online) afirmou que, durante a campanha eleitoral americana, 38% das notícias dos media pró republicanos eram falsas ou enganadoras. Do lado pró democrata foram registadas 19% de notícias enganadoras/falsas (https://www.buzzfeed.com/alexkantrowitz/2016-election-blew-up-in-facebooks-face?utm_term=.ep4GONOo2#.spPL6G6B3).As histórias falsas multiplicaram-se como vírus agressivos pelas redes sociais, chegando a milhões de pessoas, gerando dois efeitos possíveis: ou os leitores assumiram essas narrativas como verdadeiras, interiorizando a mentira e agindo em função dela (além de a partilharem), ou a ignoraram, permitindo que a falsidade perdurasse. Apelaram ao preconceito, radicalizaram posições e as denúncias das manobras propagandísticas por parte de analistas e dos meios de comunicação tradicionais não surtiram qualquer efeito. O que prevaleceu foi a desinformação e a forte crença em qualquer facto apresentado como verdadeiro e que reforçasse as convicções e pontos de vista – habitualmente radicais – dos eleitorados.

Aliás, o que aqui está em causa é mesmo a fina linha de separação que existe entre verdade e mentira, já que o “pós” reforça a rejeição ou irrelevância de um conceito, neste caso, a verdade. E é, também, a questão da confiança nas instituições, governos e políticos. A desconfiança face aos factos apresentados pelo poder estabelecido é real e crescente e é potenciada pelas redes sociais, espaços onde a informação circula e, nem sempre, quem a ela tem acesso usa o seu sentido crítico para a analisar, preferindo, como está agora patente, acreditar somente.

E ficamos perante a pergunta clássica: de quem é a culpa?!… Será, em consciência, possível apresentar as redes sociais como os principais causadores deste fenómeno? Não serão os políticos, que tanto têm a ganhar ou a perder com as suas vitórias ou derrotas causadores deste fenómeno, agravado pela crescente descrença nas suas acções, que não são vistas como promotoras do bem comum, os culpados? Não serão os cidadãos culpados por não serem capazes de procurar as melhores fontes de informação, por acreditarem no que é mais fácil e por não quererem pôr a render o seu espírito crítico? Não serão culpados os meios de comunicação tradicionais, por ficarem entrincheirados nos seus nichos mais óbvios de públicos, não buscando estar presentes no mundo das redes sociais?

A culpa morrerá solteira, ou profusamente acompanhada, pois certamente que há muitos dedos a apontar. Todavia, sendo uma pessoa positiva e que acredita que o mundo é o lugar que nós temos possibilidade de criar e de alterar e de transformar num espaço onde todos podemos ser melhores e mais felizes, acredito, também, que a “pós-verdade”, enquanto fenómeno social, será compreendido e superado, para que o “reino da justiça e da verdade” esteja cada vez mais próximo.

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